Ao assistir a série Juana Inés, veiculada na Netflix desde janeiro de 2017, precisamente o capítulo 6, atualizei meu gosto pelo gesto político que é publicar livros. O livro é um importante ingrediente na construção da história e é esse caráter de mediador do acontecimento e do registro que me interessa especialmente como editora e militante da causa do livro e da leitura. Coube à nomeada série atualizar isso já que retrata um, entre outros tantos, acontecimento interessante da vida da Sóror: A Carta Atenagórica. Em novembro de 1960 a Sóror escreve esta carta, como um exercício de reflexão elaborado a partir da leitura de um sermão do Padre Antônio Vieira, pronunciado na capela real de Lisboa em 1650, sobre as finezas do amor de Cristo. A referida Carta foi enviada para o bispo de Puebla, Manuel Fernández de Santa Cruz, que, na série, a publica anexando uma carta introdutória escrita pelo próprio bispo – usando um pseudônimo feminino Sóror Filotea de la Cruz – discordando dos argumentos de Sóror Joana. A publicação repercute negativamente para Juana Inés, que passa a ser ainda mais perseguida por ser uma mulher religiosa que escreve versos mundanos e, agora, estaria a meter-se nas letras da teologia também. Ainda que neste contexto de opressão do feminino, a inquieta religiosa não deixa a publicação sem a Respuesta a Sor Filotea, cujo cerne é uma ardente defesa do trabalho intelectual da mulher.

A monja mexicana, também conhecida como A Fénix da América foi uma autodidata bastarda que descobre sua paixão pelos livros na biblioteca de seu avô, tornando-se aficionada por estes objetos que permitiram a então jovem Juana Inés conhecer os clássicos gregos e romanos. A clausura de Juana Inés ocorre quando adolescente, depois de estar na corte vice-real mexicana como dama de companhia da vice-rainha Marquesa de Mancera, e resulta da sua impossibilidade de frequentar a universidade ou ter a relação estreita com livros a que ela estava ideológica e irremediavelmente destina a ter – tanto por sua origem criolla como pela sociedade rigorosamente patriarcal da época. Além desta correspondência, entre suas obras destaca-se quantidade significativa de textos, dentre os quais o poema feminista “Hombres Nescios”, e ainda, dramaturgia, canções natalinas e poemas encomendados.

Sóror Juana pode ser considerada a primeira feminista das Américas, graças às letras e aos livros. A sequência de cenas retratando a publicação das cartas me conduz a pensar no poder da publicação dos livros como instrumentos que fomentam mulheres como ícones de um posicionamento feminista. Livros são artefatos transgressores e de resistência que enfrentam o mundo com suas publicações, que são instrumentos de circulação, de ideias. Não é à toa que livros são queimados e têm sido, aqui e ali, causadores de prisões e outras sanções, inclusive a morte. O poder do livro e da leitura é o grande inimigo a ser derrotado por todos que desejam uma nação empobrecida culturalmente, ameaça furtiva observada crescentemente nos dias de hoje.

Às mulheres sempre foi imposto o silêncio e a dificuldade ao acesso à formação cultural, por serem consideradas ardilosas, tal como a serpente do Éden, e figurações do demônio. A Santa Igreja sempre defendeu e divulgou para seus fiéis a ideia de que o feminino estava demasiadamente colado ao pecado, desde o original, e, assim, cuidava da castidade da mulher com o intuito de santificá-la. A ironia é pensar que os conventos, no entanto, eram espaços profícuos para mulheres infelizes nos casamento ascenderem intelectualmente, como com Juana Inés. Outro exemplo é a freira Mariana Alcoforado, que teria vivido no século XVIII em Beja, Portugal, e escrito as Cartas portuguesas. Mariana, apesar de pertencer a uma família rica, teve o claustro como destino porque à época o casamento era um negócio melhor para os homens da família, já que era um modo de preservar a fortuna das famílias. As Cartas portuguesas foram publicadas pela primeira vez numa edição anônima, em 1669, em Paris, sob o título Lettres Portugaises. Apesar das discussões sobre a autoria a partir do século XIX, é inegociável a sua importância para a construção da personagem de Mariana Alcoforado como um símbolo da identidade cultural portuguesa desde o Romantismo português. E, já no século XX, com a publicação das Novas cartas portuguesas, escritas a seis mãos, por Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, as Cartas de Alcoforado ganham uma leitura estruturalmente feminista.

Para Simone de Beauvoir “nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino”. No entanto, o papel da mulher, historicamente, é construído pelo modo como o homem a vê e a constrói no que diz respeito ao social, enclausurando, seja literalmente, como ocorre com as freiras Inés de La Cruz e Alforado, seja dentro de padrões culturais obsoletos como vemos ainda sendo disseminados e alardeados. Coube, cabe e caberá à literatura libertar as mulheres para que cheguemos a um estatuto de igualdade social e econômica diante dos homens. Ou seja, o estético nos conduz a uma realidade em que o feminino deve, forçosamente, ser olhado como agente produtor de pensamento, reflexão, cultura e arte. As mulheres, entre os tantos argumentos possíveis, são maioria, apesar de sempre classificadas como minoria, no que tange, infelizmente, à representatividade.

Raquel Menezes (Rio de Janeiro, Brasil). Doutora em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro,
editora da Oficina Raquel e
Presidente da Libre – Liga Brasileira de Editoras

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.