Nunca se precisou tanto de poesia quanto agora. Nesses tempos apocalípticos onde valores estão sendo questionados e revistos, onde a crise existencial nos assola a todos, e nos faz repensar formas e caminhos, o poeta é a profissão da hora.

E como penso democraticamente sobre as artes e talentos, afirmo, poeta somos todos potencialmente, não só aqueles que fazem poesia, mas aqueles que olham com poesia, porque a poesia está em tudo que nos rodeia, está dentro de nós e nas coisas mais simples e corriqueiras. A poesia não está só nas palavras escritas, faladas, mas principalmente no olhar, na maneira de ver as coisas, no sentimento que antecede ao domínio do instrumento de comunicação.

Ver poesia numa xícara de café fumegando, numa esquina escura, num dia nublado, na multidão do centro da cidade, num pé de manga carregado, numa cantora, numa quebradeira de coco… Olhar essas coisas enxergando alma, percebendo o invisível, o que não é dito, porque a beleza está em nós, mas principalmente entre nós, nesse espaço infinito e silencioso entre a nossa retina e as coisas.

Nossa formação é bem extensa desde criança, matemática, ortografia, línguas, piano, ballet, etiqueta, mas muitas vezes esquecemos de ensinar e aprender a contemplar, a parar para olhar as coisas, parar para sentir, para perceber o valor que não tem valor de mercado. Por que fugimos tanto do sentir? Por que achamos um absurdo parar? Por que temos que ser tão frios e práticos para sermos “bem-sucedidos”?

É necessário sentir as coisas, e aí sim, a partir desse sentimento que é único, pessoal e intransferível, nossas escolhas serão mais afinadas com o nosso eu, seremos mais humanos, mais sensíveis, colaborativos, seremos poetas da vida. Porque quem olha e vê o que está por trás das aparências, quem de fato escuta o que o outro tem a dizer, mesmo sem falar, fatalmente cederá aos encantos da beleza que existe em tudo, em todo lugar, até nas coisas mais tristes e feias, há beleza, há poesia. E se há poesia em tudo, precisamos ser poetas para expressar essa beleza, para entender essa beleza, para dar valor a isso tudo, e sermos mais que bem-sucedidos, sermos felizes.

Para ouvir uma canção e compreendê-la há que haver sentimento, ouvido de poeta, para assistir uma peça, para ver um filme, uma obra de arte da mesma forma. Por isso que o artista e sua arte dependem do público para estarem completos, é preciso que a arte atravesse o espaço infinito de silêncio e mistério e chegue até o sentimento do outro. Vender arte é uma outra arte, que depende principalmente da arte do sentir alheio, de passar pelo coração do outro, não basta ser bom, tem que encontrar espaços sensíveis nas pessoas. Por isso tantos artistas geniais na miséria, faltam ouvidos e olhares sensíveis. Mas isso é papo pra outra crônica.
O ser humano precisa ser talhado, sensibilizado desde criança a perceber as coisas ao seu redor, e não basta só tirar dez nas disciplinas da escola, tem que tirar dez também na poesia da vida, na contemplação do belo, em tudo que é subjetivo sim, mas que influencia na vida prática, social, e por que não dizer, até na financeira também. Não é simples enxergar a beleza, é algo que é feito ao longo dos anos com estudo e prática. Ser poeta dá trabalho, tem que suar, mas é infinitamente prazeroso e vital, e nunca esteve tão na moda.
Poesia é fitness, poesia é top, poesia é social intelligence, poesia é transdisciplinarity, poesia é tudo de bom. Poetemos, pois.

Patricia Mellodi (Rio de Janeiro, Brasil). Cantora e compositora, apresentou na Casa Philos o recital poético-musical Tridimensional +, junto aos poetas Christovam de Chevalier e Jorge Salomão

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.