A história consta de um relato de naufrágio quinhentista. Ronaldo Vainfas [1] afirma que, durante a iminência da tragédia, sobreviventes optaram por lançar carga humana ao mar, para aliviar o peso do batel. Escolheram, segundo o historiador, um negro, um cristão novo e um louco. Relatos de tragédias nos dizem muito, e curiosamente, hoje, continuam a fazê-lo. Das velas portuguesas aos dramas contemporâneos, a relação entre alteridade e espaço marítimo navega conjuntamente no imaginário coletivo. E fica a pergunta: em cada época, quem são os primeiros a serem atirados aos perigos do mar?

Vale a pena voltar a um momento originário de nossa história, justamente aquele em que se dá o encontro entre navegantes ultramarinos e indígenas. Estes não poderiam ser diretamente jogados ao mar aberto – ao contrário, o desejo era que permitissem aos portugueses aportar na nova terra. Na carta de Pero Vaz de Caminha – espécie de primeiro documento oficial da relação entre colônia e Império – o destaque atribuído pelo escrivão português ao novo lugar é um tanto diverso do que costumamos pensar. Caminha afirma ser boa a terra, mas o grande entusiasmo aparece em relação às águas:

Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d’agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem! (grifo meu).

São as águas a grande promessa da carta de Caminha ao soberano de Portugal, e não a terra, como via de regra se imagina: o lugar será proveitoso por causa das águas que tem. Elas fertilizam, enriquecem, dão vida àquele chão. Através delas chegam as caravelas portuguesas, nelas deslizam as canoas dos nativos. E nessas águas muitos dramas e crimes irão acontecer.

O registro do encontro entre indígenas e portugueses se pauta pela ênfase na suposta cordialidade dos primeiros e na convicção do colonizador da total falta de crenças ou de lei que os organizasse. Portugal traria a ordem e, mais importante, a semente da fé. No entanto, algo surge ali como um pequeno chiste em meio ao relato tão convicto da superioridade lusa: índios e colonos se encontram, mas não se efetiva inteiramente a comunicação porque “o ruído do mar atrapalha” – palavras do escrivão. Deliciosa ironia da carta, cujo objetivo era informar ao rei as potencialidades da nova terra, alcançada por um perigoso mar, um mar (na visão dos portugueses) para sempre de chegada, espaço de conquista e dominação. Mas as águas podem trair – é possível afundar, naufragar… e o oceano aparece como elemento que, apesar de facilitar o acesso dos portugueses ao novo lugar, pode também impedir com seus ruídos a conversa entre os estranhos. Mas se barulho não houvesse, o que diriam uns aos outros? Em que língua? Poderiam todos de fato exprimir seus pensamentos mais escondidos? Melhor mesmo apelar para o gestual e a mímica desajeitada nessa relação de alteridade. Assim sempre fizeram indivíduos que não dominam ainda a língua do outro.

Surge então esse mar como testemunha nada emudecida: ele produz ruídos, emite barulhos, sussurra outras histórias. Uma parte delas se pode ainda desvendar, indagando sobre o caráter mais dramático do oceano – quando ele surge como lugar político, por onde podem ou não transitar os sujeitos. Certa poética das águas aparece como mote para evocar esse espaço de degredo e desterro. É possível pensar o oceano como ponto de partida para desdobrar em nosso imaginário o espaço marítimo: das naus da empresa colonialista, dos vapores carregados de imigrantes às onipresentes embarcações clandestinas de Lampedusa, navios e mar surgem como espaço a provocar indagações – e a arte buscou de diversas formas plasmar a contingência desses tempos que se superpõem.

Atravessando os séculos, é possível pensar em como o oceano surge como espaço político de disputas e de grande simbologia. Sujeitos escravizados e marginalizados são aqueles que em geral protagonizam essas terríveis histórias ainda por ser contadas. Quem atravessa o mar, como, porquê, e, sobretudo, onde eles chegam – e se chegam. Trata-se de perguntas que inquietam: errantes, degredados, perseguidos, párias, (i)migrantes e refugiados nos convidam a problematizar esse tema incontornável do mundo contemporâneo.

O assunto surge como pauta obrigatória nas discussões de hoje, em que nacionalismos se agudizam, o crescente fechamento de fronteiras é preocupante, e a atitude de exclusão contra migrantes e refugiados se torna visível em discursos ensandecidos como os de Trump, entre outros. Uma massa de mais de 65 milhões de pessoas vive atualmente a situação de deriva e desabrigo. É preciso dar visibilidade, convocar o olhar e a indignação diante de tanta atrocidade. Porque tudo isso está muito perto, mas vem de longe. São histórias de migrações forçadas, diásporas individuais e coletivas, relações assimétricas entre colonizadores e colonizados. E o mar como estrada líquida. Basta lembrar que a palavra kalunga, em banto, designa a um só tempo mar e morte, e também travessia, irmanando na língua aquilo que na prática muitas vezes esteve associado.

“As pessoas começaram a suspeitar que o mar era um cemitério”, afirma Patrício Guzmán em O botão de pérola (2015). Eram os anos de chumbo, e um corpo de mulher foi encontrado na beira da praia. Nesse documentário, o cineasta chileno se detém sobre as águas do sul do Chile, região onde viveram mais de de seis etnias indígenas, hoje desaparecidas. O mar da Patagônia também serviu para depositar perseguidos políticos durante a ditadura de Pinochet, e é tomado na obra de Guzmán como espaço de extinção e morte: “o mar guarda segredos de muitos crimes”, sustenta.

O autor parte da imagem do botão de pérola, achado no fundo de um rio, imaginando que teria sido de alguém torturado durante o regime ditatorial , assim como na trajetória de Jemmy Button, nativo da Patagônia (rebatizado com esse nome por ter subido a bordo do navio inglês em troca de um botão) e primeiro índio enviado à Inglaterra, de onde voltaria aculturado e sem capacidade de dialogar com seus iguais. Morre de tristeza pouco depois, exilalado em sua própria terra. Dois botões, muitas histórias de morte e desaparecimento na água. Indígenas patagônios, marinheiros ingleses, prisioneiros políticos e rios que sempre deságuam no oceano: tempos distintos, histórias cruzadas, todas passando pelo mar.

A água é o lugar de onde os indígenas são expulsos, impedidos de perpetuar tradições que permitiam todo um ciclo vital ocorrer. É também o espaço em que são jogados de helicópteros e aviões os perseguidos pelos militares.

O gesto de recolher essas narrativas e contá-las a partir da imagem do botão submerso revela o desejo de que essas histórias não sejam esquecidas, e que se dê urgentemente a elas um sentido político – mas também poético. A memória da água, símbolo de vida, surge aqui em seu aspecto de extermínio. “Estamos condenados a olhar o mar”, afirma Guzmán, lembrando da profunda relação entre o Chile e essa massa líquida. Escutar o murmúrio da água, na sua acepção, é tornar produtiva a escuta dessas vozes silenciadas ao longo do tempo.

Ainda no campo das artes, o artista chinês Ai Weiwei, perseguido e outrora preso em seu país de origem, tem discutido com freqüência o lugar de sujeitos impedidos de circular, e que, quando transitam, o fazem justamente pelo mar. Weiwei criou uma instalação com as figuras humanas de 258 refugiados em um bote: “Law of the Jouney” visto desde março de 2017 na cidade de Praga. Em junho do mesmo ano, expôs em um museu de arte contemporânea da Dinamarca 3500 salva-vidas de pessoas chegadas à ilha de Lesbos, na Grécia. De sua lavra ainda, o documentário Human Flow, em que diversas equipes de filmagem se distribuíram em quarenta campos de refugiados espalhados por mais de vinte países. Weiwei nem sempre acerta – a foto tirada para uma revista indiana, em que se coloca na posição do menino sírio morto à beira do mar na ilha de Lesbos causou polêmica. Afinal, trata-se da urgência de criar uma memória visual coletiva, e talvez o artista ali esteja tão somente banalizando a dor alheia, pois o gesto de reproduzir essa cena parece estar mais a serviço do entretenimento que do choque, como ponderou Susan Sontag a respeito da exibição de imagens de violência2. É possível, alerta a escritora americana, que tais gestos redundem no embotamento do sentimento, no voyeurismo de uma atenção ligeira.

O limite é delicado, e consiste em pensar como figurar poeticamente essa dura condição. Como afirmou Weiwei, trata-se de uma crise humana, e não de uma crise de refugiados (ainda que se possa questionar a validade de tal critério, já que cada época deve nomear sua crise e não generalizá-la). E, como toda crise humana, pode e deve ser contemplada pela arte para que se possa ir além do mero documento ou da retórica da boa vontade. Para que se evite que o Outro se torne o “dócil corpo da diferença” nos discursos contemporâneos do multiculturalismo, como alerta o crítico indiano Homi Bhabha. Para que não vire oportunismo midiático, mero assunto, simples renovação de pauta. É preciso mais.

Em 2017, o francês Pierre Delavie criou a instalação “A balsa de Lampedusa”. Sobre uma lona, se pode ver a foto imensa de um barco de refugiados naufragando em pleno rio Sena, no coração da Paris turística. A instalação dialoga diretamente com a tela “A balsa da Medusa”, de Théodore Géricault, que duzentos anos antes pintou o dramático naufrágio da fragata francesa Medusa na costa do Senegal em 1816, com mais de cem pessoas a bordo. Ali, o artista ousou ao colocar um protagonista negro em sua tela, contrariando as convenções acadêmicas vigentes. O intuito colonizador dos franceses também é encenado na tela impregnada pelo horror diante da morte. Delavie traz os refugiados, vindos de ex-colônias expoliadas economicamente, para dialogar com a tela romântica de Géricault. O binômio Medusa/Lampedusa, símbolo do impasse de tempos dramáticos, também inspirou uma escultura aquática de mesmo nome, feita pelo escultor e ambientalista britânico Jason deCaires Taylor, que em 2016 criou o Museo Atlantico, primeiro acervo submarino da Europa, localizado no mar de Lanzarote, nas Ilhas Canárias.

Rodeados pelo mar e suas representações, seguimos perplexos procurando entender o nosso tempo a partir de projeções de um passado que não cessa nunca de produzir sentidos. Náufragos também, porque sobreviventes de um tempo penoso para a humanidade, em que indígenas, migrantes, refugiados e sujeitos deslocados à força sucumbiram nessa estrada líquida. No relato de Pero Vaz de Caminha, o barulho das ondas e o ruído marítimo é tomado como empecilho para que indígenas e colonizadores se entendam. Já no documentário de Guzmán o mar surge como condenação e cemitério, enquanto para artistas contemporâneos ele comparece como espaço de representação de uma massa de indivíduos sem lugar. À semelhança dos visitantes daquele curioso museu imerso no mar, se faz necessário, hoje, mergulhar de fato na experiência da escuta desses ruídos e vozes que vem do mar, pensando nas ressonâncias arcaicas desse imaginário marítimo. Essa é tarefa ética que se impõe.


Stefania Chiarelli (Brasil). Professora Adjunta de Literatura Brasileira na Universidade Federal Fluminense, realizou os estudos de mestrado em Teoria Literária pela Universidade de Brasília (1997) e doutorado em Estudos de Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2005). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: deslocamento, memória, imigração. Publicou os ensaios “O cavaleiro inexistente de Italo Calvino – uma alegoria contemporânea” (1999) e “Vidas em trânsito: as ficções de Samuel Rawet e Milton Hatoum” (2007), e co-organizou as coletâneas “Alguma prosa – ensaios sobre literatura brasileira contemporânea” (2007), “O futuro pelo retrovisor: inquietudes da literatura brasileira contemporânea” (2013), “Falando com estranhos – o estrangeiro e a literatura brasileira (2016) e ” Atores em cena – o publico e o privado na literatura brasileira contemporânea” (2017).

[1] Apresentação in MADEIRA, Angélica. Livro dos naufrágios: ensaio sobre a história trágico-marítima. Brasília: UnB, 2005.
[2] SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 45.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.