poesia

quisera ter nascido aço
mas,
mamãe me fez ferreira
parto seco
quase lasso
quase rio
em ribanceira

forjo o verso
pelas margens
lambo as pautas derradeiras
ardo chamas
quase abismo
quase flecha
sem ponteira

alvo certo, não acerto
corto o vento que se agita
airo o velho pensamento
da brisa que regurgita
verbos caros, dedicados
a quem não ainda desperto

quisera ter nascido aço
mas,
mamãe me fez ferreira
forjo o verso
e, num abraço
abrigo as almas inteiras

sem título

meu amado põe palavras
nas asas de um passarinho
quando saem da sua boca
– voam, pousam e fazem ninho
neste peito que vos fala
pobre peito, coisa pouca,
com suas penas plangentes –

meu amado põe uns gestos
numa estreita trajetória
entre o colo, os seios e o cerne
que, à loucura, ora empresto
e, inflamando os lassos lábios,
reedita a antiga história
deste ser de tom clemente

mas, logo voa…

– ninguém sabe ou imagina
o que traz quando retorna
dos seus voos solitários
em supostas desventuras –

volta, pousa e eis que vinho
infiltro-me nas ranhuras
das palavras que adivinho
luz solícita em ternuras

– quando minha urgência agrava,
meu amado, sem palavras,
sem traçar itinerários,
participa a sua calma
e me deixa sem palavras


Lena Ferreira (Rio de Janeiro, 1968). É educadora formada pelo Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro – ISERJ. Publicou ‘Entre Sonhos’, (Ed. Utopia, 2010, ‘Di’versos Ventos’ e ‘Toda Prosa’ (Clube de Autores, 2014). ‘Quartecetos, (sonetos livres)’ e ‘Canções para Embalar Silêncios’ (Clube de Autores, 2015) e ‘Antes que a Noite Adormeça’ (Litteris Editora,, 2016). 

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.