ojô

Onde se esconde o silêncio
firmo o olhar mais profundo
E nas escuridões
me deixo atravessar
por rezas, pelos cantos aos meus orixás.

Onde intuo o silêncio
não chego sem me banhar
com água de lavanda
tomar água da quartinha.
Só depois, sem mistério,
me deixo ficar.

Onde habita o silêncio
entro sempre de pés descalços.
Reverencio
e me ponho a escutar
de corpo inteiro.

abismos

Os abismos por vezes destroem
ilusão de que o fundo
nunca chega.
Falsa promessa de que
a queda será eternamente ensaio.
E assim me deixo cair.

Outras vezes os abismos
amedrontam.
Desamparo
susto de me perder
no desconhecido.
Busco equilíbrio.

Mas os abismos também
fascinam,
sedutores voos sem asas.
Noites fechadas
plenas de vozes.

Abro os olhos
e entregue
me confundo
com todos os rumores
que me antecederam
inquietam
e me arrancam dos imensos silêncios
que ainda habitam em mim.


Neide Almeida (Rio de Janeiro, Brasil). Escritora, poeta e produtora cultural. É socióloga e mestre em Linguística Aplicada, atuando como docente, pesquisadora e consultora na área de leitura, literatura, direitos humanos e relações étnico-raciais. Coordena o Núcleo de Educação do Museu Afro Brasil e integra o Conselho Editorial do selo Ferina, da Pólen Livros. Publicou a zine “Nambuê” (MoriZines, 2017) e o livro “Nós: 20 poemas e uma Oferenda” (Ciclo Contínuo Editorial, 2018). Participa das antologias “Um girassol nos teus cabelos: poemas para Marielle Franco” (Org. Mulherio das Letras, Quintal Edições, 2018); “Poemas para combater o fascismo”, (independente, 2018); e a edição online Espantologia Poética Marielle em Nossas Vozes” (Edições Me Parió Revolução, 2018).

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.