arco e Flecha

Do arco que empurra a flecha,
Quero a força que a dispara.
Da flecha que penetra o alvo
Quero a mira que o acerta.

Do alvo mirado
Quero o que o faz desejado.
Do desejo que busca o alvo
Quero o amor por razão.

Sendo assim não terei arma,
Só assim não farei a guerra.
E assim fará sentido
Meu passar por esta terra.

Sou o arco, sou a flecha,
Sou todo em metades,
Sou as partes que se mesclam
Nos propósitos e nas vontades.

Sou o arco por primeiro,
Sou a flecha por segundo,
Sou a flecha por primeiro,
Sou o arco por segundo.

Buscai o melhor de mim
E terás o melhor de mim.
Darei o melhor de mim
Onde precisar o mundo.

de marias, amélias e madalenas

No sofrimento somos Maria,
Mãe de um Deus assassinado.
Marias sem alegria.
Dor sem futuro ou passado.

Na renúncia somos Amélia, de uma triste verdade.
Amélias sem sonho, desejo ou vontade.

No preconceito, Madalena,
nas praças apedrejada.
Madalenas : ao pecado
e à culpa predestinadas.

Só no amor temos os nomes
e as formas de nossa estima;
velha mãe, jovem formosa
e, eternamente, menina.

uma voz

Sei não ser a firme voz
Que clama em meio ao deserto,
Mas me disponho estar perto
Para expandir o seu eco.
Sei nem sempre ter força,
Para amar meus inimigos,
Mas comprometo não vingar-me,
Não lhes impingir castigo.
Sei não possuir coragem
De morrer por meus amigos,
Mas me disponho guardá-los
No mais recôndito abrigo.
Sei nem sempre ser aceito
O fruto de minha ação,
Mas me submeto expô-lo
Ao crivo doutra razão.
Voz, coragem, força e aceitação,
Tem fonte no mesmo espírito,
Origem no mesmo verbo,
Lugar onde me inspiro
E a semelhança preservo,
Na comunhão com meu próximo.
No Logos que em mim carrego.


Marina Silva (Rio Branco, Acre, Brasil). Professora de história, senadora pelo Acre (1995-2011), ex-ministra do Meio Ambiente. 

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.