Nos estudos de feminismos plurais da Philos, apresentamos um texto de Sojourner Truth (Nova Iorque, 1797-1883), símbolo de luta, foi uma das mais célebres oradoras em defesa dos direitos das mulheres negras nos Estados Unidos. Sojourner nasceu como Isabella Baumfree, fora vendida em um leilão aos nove anos, junto com um rebanho de ovelhas por 100 dólares. Foi escravizada até o ano de 1826, quando fugiu e só regressou aos Estados Unidos com o fim da abolição da escravidão no estado de Nova Iorque. 

Na Philos, apresentamos um trecho da transcrição da intervenção proferida por Sojourner no ano de 1851, durante a Convenção dos Direitos das Mulheres em Ohio, nos Estados Unidos:

Então, crianças, onde há tanta fumaça, tem que haver algum fogo. Eu acho que essa mistura entre negros do Sul e mulheres do Norte, todos eles falando de direitos, logo, logo os homens brancos vão ficar em apuros. Mas, o que isso nos diz?
Aquele homem lá diz que as mulheres precisam de ajuda para entrar em carruagens e atravessar valas, e sempre ter os melhores lugares não importa onde. Nunca ninguém me ajudou a entrar em carruagens ou a passar pelas poças, nem nunca me deram o melhor lugar. E eu não sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem o meu braço! Eu arei a terra, plantei e juntei toda a colheita nos celeiros; não havia homem páreo para mim! E eu não sou uma mulher? Eu trabalhava e comia tanto quanto qualquer homem – quando tinha o que comer -, e ainda aguentava o chicote! E eu não sou uma mulher? Dei à luz treze crianças e vi a maioria delas sendo vendida como escrava, e quando gritei a minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus, me ouviu! E eu não sou uma mulher?
Daí eles falam dessa coisa na cabeça; como é mesmo que eles chamam isso? [“Intelecto”, alguém sopra] Isso, querido. O que isso tem a ver com os direitos da mulher ou com os direitos dos negros? Se meu corpo está pela metade e o seu cheio, não seria vil da sua parte me deixar sem a minha metade?

Sojourner Truth, gentilmente cedida pela Library of Congress.

Daí aquele homenzinho de preto ali [diz se referindo ao juiz], ele diz que as mulheres não podem ter os mesmo direitos que os homens – “porque Cristo não era mulher!”. De onde veio o teu Cristo? De onde veio o teu Cristo? De Deus e de uma mulher! O homem não tem nada a ver com Ele.
Se a primeira mulher que Deus fez teve força suficiente para virar o mundo de ponta-cabeça sozinha, essas mulheres juntas têm que conseguir pôr o mundo no lugar, na posição certa, de cabeça erguida de novo! E agora que elas estão pedindo pra deixar que façam isso, é melhor que os homens as deixem fazer.
Agradecida por me ouvirem, e agora a velha Sojourner não tem mais nada a dizer.


Tradução e adaptação de Jorge Pereira para a Revista Philos. As fotografias que acompanham o artigo são de Ingrid Barros, colaboradora da Philos de São Luís do Maranhão. A fotografia de Sojourner que acompanha o texto foi gentilmente cedida pela Library of Congress dos USA. 

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.