Nas navegações, a circulação de bens e de pessoas, os embates entre estruturas econômicas e de poder, a itinerância de ideias, saberes e visualidades constituíram, após o século XV, o início da modernidade em que a formação de um mundo transatlântico – ambivalente, temporalmente longo e de muitas espacialidades – conectou as Américas, a África e a Europa. Marcada, dentre outros processos, pela racialização, pela construção do “outro” e pela noção de “negro” como parte do tráfico de escravizados e da situação colonia, seus efeitos são expressivos ainda nos dias atuais. A sobreposição de territórios e o entrelaçamento de histórias, nem sempre passivos e pacíficos, participaram da criação de hierarquias entre diferentes culturas, bem como sa sua negação em ações de resistências e subversões também em relação aos regimes hegemônicos de representação. Com frequência, ideologias raciais impactaram a produção de pessoas negras classificando-as como inferior. Se a identidade e as heranças culturais e artísticas não procedem, numa linha direta e ininterrupta, de alguma origem fixa, como inscrever, no campo das artes, diferentes lugares de criação e produção que sejam representativos e inclusivos? Como registrar e relacionar as tão plurais histórias afro-atlânticas sem reduzir, essencializar ou mesmo mistificar os processos deste mundo triangular nos trabalhos e na história da arte? Como tais debates impactam seu processo de criação e de produção ou a recepção e a interpretação dos seus trabalhos?


Amanda Carneiro (São Paulo, Brasil). Curadora.