Odo titubeia antes de olhar para a tela do celular do amigo Sandro. Ainda observa ao redor no restaurante se alguém os espreita. Lê com cuidado a confirmação daquilo que já desconfiava. Sandro tinha avisado que a moça possuía o mesmo rosto de uma terrorista capturada pelo serviço de inteligência do governo no final de semana.

Num primeiro momento Odo achou ser brincadeira, afinal, ela era uma morena brejeira com um sorriso largo que levava alegria à hora do almoço no estabelecimento, criando inclusive intriga na família uma vez que dona Berna passou a fazer perguntas enciumadas quando notou, na hora do pagamento, as trocas de olhares entre o marido no caixa e a cliente.

Odo tirava graça. Dizia que a moça era mesmo uma belezinha, mas tinha por ela um carinho de filha desde que notara seu cotidiano solitário, sempre com um caderninho a postos onde deduziu que escrevia poemas ou rascunhos de ideias para um conto. Mais tarde, em uma vez de conversa, descobriu que era professora de literatura, então a suspeita dos esboços não era de todo infundada. Encheu o peito de vigor e decidiu, n’outro dia, perguntar-lhe o conteúdo do livrete. Ela respondeu com severa tranquilidade serem anotações diárias de alimentação, porque tinha diabetes e precisava controlar as taxas nutricionais. Odo insistiu: nem um poeminha? Ela riu, disse que sim, que havia poemas, mas esses eram secretos e jamais poderia mostrar para ninguém. Ele insistiu: um dia gostaria que me mostrasse, eu também fui professor de literatura e escritor, mas um escritor frustrado –– riu-se. Ela se surpreendeu: antes de ter o restaurante? Sim. Antes de ter o restaurante. O restaurante é herança do meu sogro, quem cuidava de tudo antes era ele junto com minha mulher, aquela ali.

Apontou para dona Berna que jazia desconfiada às margens da balança enquanto pesava mais um prato.

–– Entendi. Tudo bem. Um dia, quando eu confiar, eu mostro pro senhor.

Devia ter uns vinte e oito, vinte e nove anos. Era vivaz, energética. Mesmo quando chegava de óculos escuros numa tonalidade mais sombria irradiava sua juventude de movimentos difusos e sincopados, além disso carregava um sincero desequilíbrio nos modos de segurar os talheres que Odo interpretava como a tentativa de adaptação ao mundo das etiquetas, parecia enxergar uma criança no corpo de uma adulta e isso lhe provocava calores. Resguardava-se. Mais de uma vez sentiu vontade de se masturbar pensando nela. Não teve coragem. Sentia que aquele comportamento poderia macular em seu íntimo as expectativas de uma aproximação fraternal. Imaginava-a um pouco sua parente, sabe-se lá por qual razão. Era de linhagem de dureza católica, não acreditava em reencarnação, mas às vezes devaneava pelas hipóteses do acaso e chegava a querer-se em um passado milenar, muito distante, onde os dois, pai e filha, podiam ser amantes em algum reino perdido do Oriente Médio. Isso amenizaria todas as culpas do desejo que se dava pelo desvio do pensamento. Odo de imediato mentalizava a Matilde Mastrangi e fugia em paz da própria lógica moral, tocando-se rapidamente, sôfrego e suarento no banheiro.

Quem visse o homem de 65 anos com a camisa muito bem passada de botões apertados até a altura do pescoço, não poderia imaginar o que lhe passava pela cabeça e os calafrios no corpo ainda tão renitentes, apesar da velhice. Os cabelos sempre muito bem penteados para o lado direito, um bocado embebidos no gel, conformavam o toque final, conferindo-lhe ares de homem honesto.

Odo aceitara o fim da juventude com alguma tranquilidade. Em certos dias, no entanto, até gostaria de ver-se rapaz novamente. A frequência da moça no restaurante levou-lhe a um lugar repleto de promessas e possibilidades exigindo que o tempo da vida se espichasse um tanto mais.

Um dia, quase chegou a fazer uma declaração. Ela acertava a conta do almoço e ele pensou em convidá-la para ir ao cinema. Não elaborara antes a desculpa que daria à dona Berna e talvez à filha, se fosse o caso de exigirem alguma explicação por estar saindo sozinho num domingo à tarde, confiava entretanto que conseguiria planejar uma estratégia convincente e fazer tudo acontecer de acordo com a fantasia. Calou ruborizado pela timidez, todavia.

Isso foi antes do regime fechar. Depois Odo resolveu conter todos os sinais possíveis de paixão a fim de evitar boataria na vizinhança. O clima era outro. Odo nem percebeu as coisas mudarem. De repente as pessoas se viam como inimigas e pareciam vigiar umas às outras para que ninguém deslizasse nas técnicas dos bons valores. Pensava na moça, começaram a rarear suas visitas ao restaurante. Perguntou-lhe o motivo, ouviu em resposta que a escola cortara pela metade suas turmas e provavelmente seria demitida até o meio do ano porque a aluna filmou pelo celular um comentário que fizera, a situação formou um problema violento. Odo lamentou com doçura. A senhora de trás, toda cheia de panos e colares dourados, reclamou da espera na fila, os dois não se demoraram em concluir a conversa. Ela saiu pela porta de madeira colonial, ele torceu que voltasse no dia seguinte, ou no outro, ou no outro, para explicar com pormenores o episódio. Viu na calçada da outra banda da rua a polícia em sua caminhada diária com as armas luzindo nos coldres.

As pernas falharam. Talvez tenha sido vítima de uma queda de pressão, precisou de ajuda para sentar. O restaurante inteiro entrou em silenciosa perturbação dissolvida logo depois que Odo sinalizou estar passando melhor. Abriu os dois primeiros botões da camisa branca empapada de suor. Aqueles eventos se tornaram corriqueiros desde o ano anterior, depois das eleições em que seu candidato fora designado presidente.

A filha, um pouco mais nova do que a moça, ainda insistia em manter-se em sua memória naquele dia em que o chamou de fascista bradando pelos corredores da casa. A jovem demonstrava fazia algum tempo picos de rebeldia e batia com virulência a porta do quarto, como uma menina boba aos olhos do pai. Odo se defendeu, disse que fascista era a avó, virou as costas e dirigiu-se para a sala onde tombou recostado à poltrona verde. Fechou os olhos e meditou, perguntando-se o que caralhos a menina boba quis dizer.

Nessa mesma época algumas universidades foram fechadas por ordem de redesenho curricular e os estudantes passaram a procurar bicos na região para garantir alguma estabilidade financeira ante um futuro profissional interditado. Também havia aqueles baderneiros que se organizavam em atos de rua, cada vez mais clandestinos, que não duravam nem uma hora porque o exército era rápido na dispersão, sobre caminhões com enormes mangueiras d’água.

Odo se assustou quando em uma das manifestações, dessa vez de uma gente muito preta que não costumava aparecer assim toda junta ao mesmo tempo na Vila Mariana, testemunhou a aparição de um tanque de guerra. Aquele sentimento era uma novidade por dentro, não tinha certeza se chorava de emoção ao ver pela primeira vez de perto um verdadeiro AMX Leclerc ou se lhe comovia o fato de um garoto estar desacordado no chão sangrando pela ferida aberta pelas lascas de um projétil na perna direita. Tomou a decisão de seguir em frente, ignorando os grupos radicais, os soldados e aquele pequeno ajuntamento de pessoas que tiravam fotografias às risadas ao lado dos oficiais.

Sandro, o amigo das antigas, era naqueles dias o seu único confidente. Esperou-o chegar no restaurante à hora marcada, combinaram conversar depois do primeiro turno de funcionamento. Odo, para passar o tempo de espera pelo atraso do amigo, fez um jogo em si mesmo criando a trajetória da moça que nunca mais aparecera. Que teria feito depois daquela tarde em que a senhora de colares dourados e panos a pressionou para agilizar-se no pagamento, na fila, na despedida?

Deverá ter tomado a primeira rua à direita. Como sempre.

Depois de chegar ao ponto ela aguardaria então, um pouco inquieta, a condução. Verificaria o relógio do celular e quantas mensagens não respondeu enquanto estava na escola, passando as últimas lições literárias de sua vida naquele lugar.

Faz sinal.

O calor é de matar, ela desveste o casaco fininho que usa normalmente para cobrir as tatuagens no trabalho. As ruas estão mais esquisitas do que de costume, sente uma espécie de alarme ao longo da espinha dorsal. Talvez como um bicho acuado prestes a levar um bote decide mudar a rota e voltar para casa. Poderia dizer que se esquecera do encontro, ou saíra tarde demais da escola e sem tempo achou melhor não estar justo naquele dia, justo naquela tarde, justo naquele local marcado, mas é tomada pela culpa, envia uma mensagem a Fernando confirmando que se fará presente e ainda levará alguma comida para as pessoas. A moça se lembra da imagem que vira pelo computador de manhã, uma notícia fantástica de um leão atacando um elefante. Pela primeira vez na história da África um leão ousou afrontar violentamente um elefante. Como que reivindicando para si a falsa verdade há muito propagandeada: ele é mesmo o rei da floresta, ele é líder soberano da cadeia alimentar, não importa o tamanho da manada. As imagens são grotescas e se repetem em looping no cansaço da mente. Ao chegar na Frei Caneca, ela passa na padaria, compra pão, queijo, presunto. Anda alguns quarteirões, vira à esquerda perto da oficina. Chega à casa amarela e encontra os portões arrombados. Seu coração dá um salto. Olha para o outro lado da rua e pode ver os carros de polícia, pensa em seguir pela via oposta mas sente o guarda chegando perto, ele a pega pelo pescoço feito acariciasse sua nuca e a convida a se dirigir para aquela esquina ali onde há um grupo que ela talvez conheça. Pensa em correr, escapar, mas aquela mão muito leve na nuca parece conseguir controlar a gravidade ao redor de suas pernas. Vê os cartazes e as faixas que haviam confeccionado para a passeata entulhados em um camburão de lixo, a palavra liberdade entrecortada pelos detritos já não se parece mais com palavra alguma.

Dois dias depois a moça vai parar em uma sala escura, vários homens em torno de si causam-lhe terror. Nesse instante ela tem medo, sentada à cadeira com estofo barato, sentindo os ossos e o fluxo sanguíneo pesarem por dentro.

Odo não tira os olhos de sua foto na mensagem de celular, sobre seu rosto letras garrafais em vermelho anunciam-lhe capturada. Justiça. Ele sua frio. Abre novamente os dois primeiros botões da camisa branca. Ela, do outro lado da cidade, sentirá dentro de poucos instantes o primeiro golpe desferido nisso que um dia fora seu corpo. Alguns minutos de silêncio parecem se alargar. Dona Berna surge da cozinha, cumprimenta Sandro e fala para Odo que houve um problema no fechamento das contas do dia, a incompetente da funcionária fez uma anotação meio rabiscada e, por incrível que pareça, não é possível saber se esse numerozinho final é o raio de um 9, um 7 ou um 4.


Paloma Franca Amorim (1987, Amazonas). Escritora e professora. Nasceu na Amazônia, atualmente mora em São Paulo. É autora do livro de contos “Eu Preferia Ter Perdido Um Olho”, publicado pela Alameda Editorial em 2017. É cronista do portal jornalístico Opera Mundi. 

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural pernambucano baseado no Rio de Janeiro. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.