A mestiçagem é um tema recorrente em minha obra. O meu trabalho trafega no território do hibridismo. Inúmeras referências culturais são abordadas, não apenas da história oficial, mas também de muitas outras histórias escondidas, obscuras, histórias às margens. Com o objetivo de derrubar fundamentos e descolonizar subjetividades.

A série Polvo, por exemplo, sugere uma reflexão sobre a questão da raça no Brasil. A inspiração inicial para essa série vem da pinturas de castas, típicas da Nova Espanha dos séculos XVII e XVIII, em especial no México Colonial. Nas palavras de Lilia Schwarcz,

Tais pinturas representavam um produto direto da ilustração, assim como buscavam evidenciar de que maneira a mestiçagem do Novo Mundo – marcante no período que se seguiu à conquista – teria enquadrado a diversidade e a hibridez através desse complexo sistema de castas.

O conceito derivava do termo latino castus, cujo sentido literal é “manter puro”, e ele ajudava a determinar de forma rígida graus de hierarquia que giravam em todo da pureza, logo associada à cor branca.

As castas acabavam prevendo, através de mais de cem categorias de mistura, qualquer tipo de miscigenação entre brancos, negros, indígenas e mestiços. As pessoas consideradas “de raça pura” eram reconhecidas como parte da nobreza e, por isso, detinham maior poder econômico e social. Já as mais misturadas aos negros eram aquelas que ocupavam posições menos privilegiadas.

No Brasil atual, segundo o censo oficial, as pessoas são classificadas em cinco grupos distintos, de acordo com a cor da pele: branco, preto, vermelho, amarelo e pardo. Mas, há algumas décadas, mais precisamente em 1976, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizou uma pesquisa de domicílio que propôs aos respondente uma pergunta aberta: “Qual a sua cor?”.

Foram apontados 136 termos distintos, cujos significados tinham muito mais a ver com a linguagem figurada do que com as cores propriamente ditas. Inspirada no resultado dessa pesquisa surgiu a obra Tintas Polvo: uma caixa de tintas à óleo com 33 definições de cor de pele retiradas da lista acima, como: branca suja, café com leite, agalegada, burro-quando-foge, cor firme, morena-bem-chegada, retinto, encerada, bahiano, queimada de sol, etc. Como descreve Luisa Duarte:

A pesquisa do IBGE mira a objetividade e acerta no imaginário. As respostas revelam o quanto a noção de raça é sintomática de nossa situação social e identitária. Cor é linguagem. Cor é uma construção cultural. Consequência dos laços esgarçados de nossa formação colonizada.

Além das cores das tintas, criei as fontes impressas e a logomarca Polvo; animal conhecido por soltar tinta como forma de defesa. A tinta liberada pelo polvo é a base de melanina, a mesma substância que dá cor ao cabelo e à pele dos seres humanos. Ainda, a palavra polvo em português possui proximidade fonética com a palavra “povo”.

Paralelamente, desenvolvi uma instalação com onze autorretratos semelhantes, pintados à maneira clássica, onde a pele muda de cor, indo da mais escura para a mais clara, passando por várias matizes. As pinturas remetem aos retratos de nobres comumente encontrados nas paredes de mansões da época colonial. Em cada um deles, inseri uma tabela de cor que remete a um estudo cromático utilizado para chegar ao tom de pele retratado na pintura. Um olha mais atento logo capta que se trata de pura ficação, que visa justamente questionar a validade científica de qualquer classificação de cor existente.

Se Polvo mostra como a categoria de raça é subjetiva , o trabalho também desmascara a hipocrisia cotidiana que permeia nossas relações. Vivemos em uma sociedade na qual quanto mais rico, mais branco. A cor vira um dispositivo de poder diário que coloca as pessoas “em seu devido lugar”.

O projeto Polvo reitera que cor atua como linguagem e léxico, além de instigar o espectador a repensar suas próprias classificações cromáticas e os processos sociais que por meio delas se expressam.


Adriana Varejão (Rio de Janeiro, 1964). É artista visual, vive e trabalha no Rio de Janeiro, Brasil.


[1] SCHWARCZ, Lilia Moritz; VAREJÃO, Adriana. Pérola imperfeita: a história e as histórias na obra de Adriana Varejão. São Paulo: Companhia das Letras, Cobogó, 2014.
[2] DUARTE, Luisa. Adriana Varejão: Polvo. São Paulo: Galeria Fortes Vilaça, 2014. Catálogo da exposição.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural e agente literário pernambucano baseado no Rio de Janeiro e São Paulo. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.