Caminante

Traduções de Ligia Muniz Polignano Côrtes

I have a sky inside my head
and I was born to follow my own shadow
drifting like a cloud.
I sleep where I sit,
in trains screaming through the snow,
or in the back of a flatbed truck,
where a man can go blind
looking up into the sun.
It makes me melancholy to see
old women in heavy black
walking on the shoulders of dangerous roads.
Sometimes I want to jump down
like some ragged angel
scorched from flying too close to the sun,
and offer myself to them, saying:
“I will be as a son to you”.
Other times, my heart breaks free
when I look upon a field plowed in lines
to the edge of the horizon.

Tenho um céu em minha cabeça
e nasci para seguir minha própria sombra
vagando como uma nuvem.
Durmo onde fico sentada,
em trens apitando ao passar pela neve,
ou na traseira de um caminhão,
onde um homem pode ficar cego
olhando para o sol.
Fico melancólica ao ver
velhas mulheres de preto
caminhando em acostamentos de estradas perigosas.
Às vezes, quero saltar
feito um anjo em farrapos,
queimado por voar muito perto do sol,
e me oferecer a elas, dizendo:
“Serei como um filho para vocês”.
Outras vezes, meu coração se liberta
quando olho para um campo lavrado, com linhas
ao encontro da linha do horizonte.

Mamacita

Tradução de Ligia Muniz Polignano Côrtes

Mamacita hummed all day long
over the caboose kitchen
of our railroad flat.
From my room I’d hear her “humm”,
No words slowed the flow
of Mamacita’s soulful sounds;
it was “humm” over the yellow rice,
and “umm” over the black beans.
Up and down two syllables she’d climb
and slide—each note a task accomplished.
From chore to chore, she was the prima donna
in her daily operetta.
Mamacita’s wordless song was her connection
to the oversoul,
her link with life,
her mantra,
a lifeline to her own Laughing Buddha,
as she dragged her broom
across a lifetime of linoleum floors.

Mamacita cantarolava o dia inteiro
na cozinha que ficava no fim do corredor
de nosso apartamento.
De meu quarto, eu ouvia o seu canto,
Nenhuma palavra obstruía a fluidez
dos sons vívidos de Mamacita;
cantava “humm” ao preparar o arroz amarelo
e “umm” ao preparar o feijão preto.
Acima e abaixo, duas sílabas se seguiam —
cada nota era uma tarefa cumprida.
De tarefa em tarefa, ela era a prima-dona
da sua opereta diária.
A canção sem palavras de Mamacita era a sua conexão
com a realidade suprema,
a sua ligação com a vida,
o seu mantra,
uma corda de segurança até o seu Buda Risonho,
enquanto arrastava a vassoura
por uma infinidade de pisos de linóleo.

El olvido

It is a dangerous thing
to forget the climate of
your birthplace; to choke out
the voices of the dead relatives when
in dreams they call you by
your secret name; dangerous
to spurn the clothes you were
born to wear for the sake of fashion;
to use weapons and sharp instruments you
are not familiar with; dangerous
to disdain the plaster saints before
which your mother kneels praying for you with
embarrassing fervor that you survive in
the place you have chosen to live; a costly,
bare and elegant room with no pictures
on the walls: a forgetting place where
she fears you might die of exposure.
Jesús, María y José.
El olvido is a dangerous thing.

É uma coisa perigosa
esquecer o clima de
onde você nasceu; silenciar
as vozes dos parentes mortos quando
em sonhos lhe chamam por
seu nome secreto; perigoso
desprezar, em nome da moda,
as roupas que você nasceu para vestir;
usar armas e instrumentos cortantes com os quais você
não está familiarizado; perigoso
desdenhar os santos de gesso diante
dos quais sua mãe se ajoelha, rezando por você com
um fervor embaraçoso, para que você sobreviva
no lugar que escolheu para viver; um lugar
caro, vazio e elegante, sem fotografias
nas paredes: um lugar de esquecimento onde
ela teme que você possa morrer devido à exposição.
Jesús, María y José.
El olvido é uma coisa perigosa.


Acerca da autora
Judith Ortiz Cofer
(1952-2016) nasceu em Hormigueros, Porto Rico, e mudou-se para os Estados Unidos com a família ainda criança. Foi professora na Universidade da Geórgia e escritora. De obra premiada, dedicou-se a gêneros como a poesia, o conto, o ensaio e o romance.


Acerca da tradutora
Ligia Muniz Polignano Côrtes
(Belo Horizonte, 1992) possui graduação em Letras (Português/Inglês) pela PUC Minas e pós-graduação em andamento em Revisão de Textos pela mesma universidade. Atualmente, é tradutora e revisora.