Olhei em torno à procura de uma luz que me pudesse guiar na imensidão dos pensamentos. As noites de verão no Rio de Janeiro chegavam-me como restos de naufrágios, como o salivar diante das cores sem nunca ter provado o sabor das frutas. Nos verões, somos passíveis de imaginar as ilhas repletas de pássaros, as montanhas de mármores e mortes, a lua transpassando o seu brilho nas águas do cais. As ondas quebram na praia e trazem consigo as palavras de Kátia, soam-me como algo nocivo, sensitivo, pessoal, uma lembrança vaga, mera semelhança com o passado, distante de tudo, perto do fim.

São 23h54 de uma sexta-feira silenciosa, e desde que reiniciei a leitura de seus escritos, esta é uma das poucas vezes que a releio tentando estabelecer entre nós uma relação muito próxima. Detive-me em juntar todos os fios e peças desse quebra-cabeça monumental que chamamos de vida. Nesse momento, através da parede e da porta fechada, eu consigo sentir sua presença em cada palavra que leio num dia que se esvaece às escuras. Sinto saudades de Recife, mas a cidade ainda não despertou da solene noite profunda de um janeiro qualquer. «Kátia ainda me espanta com o seu senso de vida».

Souza Pereira

A Cabeça da Rainha conta as ondas se fraturando na praia e o jogo das algas livres. Os seus lábios sopram anjos postiços; houve um poeta velho e quase cego que nunca esteve naquela costa de prazeres soberanos e se dizia antigo serafim. Vozes saltavam por sobre o mar e gritavam da outra margem: onde escondeste a tua alma que não flameja e é tão circular? Vozes sem corpo e alma, de puro ar.

Na elegia, os ventos amainavam as feras e os amantes-objeto-do-tempo se esvaeciam.

Em visita à Cidade dos Monstros na companhia da Cabeça da Rainha, pequenas mãos desfaziam as promessas do poeta nos encontros íris a íris e tirou-se a medida da profundidade de um louco que soube pedir à deusa dos feitiços que o auxiliasse em suas maquinações. Os olhos verdes penetraram os olhos azuis que furaram os olhos castanhos: os olhos entram uns nos outros e de lá não sabem extrair-se e está toda a gente a anunciar que foi devorada pelo olhar de alguém.

Buscar anêmonas para queimarem os corações extemporâneos.

Qual vastidão do mar maior, por onde se esparramam os encantamentos até que a pedra sentisse pálida radiação.

A Cabeça da Rainha encontrou caminho solitário sob estalos luminosos. Abaixe o vento até ela, para que cubra e proteja-a tal qual um véu. Acudam às vozes que não apenas gritam e flutuam em notas musicais. Mil amores por coroar a Cabeça ao redor da sua testa. Mil amores derretem nos olhos da Rainha sob as nuvens violentas de cor violeta.

O poeta abandonou verso e pedra sob o disfarce da sua manta de alpaca; a areia umedecida amortecia os seus passos, atrás de si o córrego d’água fria dos temerosos, ele corre impulsionado pelo Medo dos Espíritos ociosos.

O sol se enterrou entre a Cabeça da Rainha e o poeta tão lúgubre quanto os ecos que minaram a alquimia do paraíso: o poeta não navega nas embarcações que transportam a memória da sombra das sombras de chamas entristecidas.

—Baseado em Lines on an Autumnal Evening, de Coleridge.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural pernambucano baseado no Rio de Janeiro. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.