O nome de León Ferrari, consagrado em Veneza (2007) pelo conjunto da obra, está inscrito na vanguarda artística do experimentalismo e conceitualismo latino-americano. Artista multimídia, foi escultor, desenhista, pintor… e herege.

Nenhuma apresentação criteriosa consegue prescindir da relação conflituosa que manteve com diversas autoridades da Igreja católica ao longo de sua profícua trajetória. Fazendo jus às expectativas que acompanham os movimentos de ruptura, a figura pública desse artista tornou-se parte indissociável de uma produção tão extensa quanto multifacetada, obsessiva, controversa e bem-humorada.

A presente edição cumpre uma ambição panorâmica, reunindo diversas experimentações artísticas de León Ferrari. Constitui sua primeira mostra individual de grande envergadura dentro de uma galeria de arte, após a morte ocorrida em 2013. A seleção abrange o período entre 1962 e 2009, incluindo os anos vividos em São Paulo (1976-1992), cobrindo quase meio século de um processo criativo e investigativo em torno da representação do poder na sociedade.

No entanto, percebe-se logo que a chave do “ativismo” seria redutora para explicar a monumentalidade de uma obra que compreende uma coleção extraordinária de reproduções recolhidas da história da arte. Essa fartura acabou revelando um aspecto pouco comentado até hoje, a saber uma característica antes iconófila do que iconoclasta, como aparece à primeira vista.

Propõe-se aqui recuperar essa extensa iconografia, sem fazer tábula-rasa de sua aura artística nem religiosa, e sim jogar um olhar científico que possa extrair um sentido primitivo nas figuras retratadas. Não se trata de estabelecer um enfrentamento com a dimensão espiritual da religião, mas depreender o que “está sendo dado a ver”, a estrutura e morfologia de cada cena.

O artista reencontra a transgressão de Bataille quando aponta como a experiência estética do sublime reifica concepções de culpa e castigo. Contemplar obras de Giotto, Botticelli, Michelangelo ou Doré significa admirar a crueldade de cenas de guerras, torturas e martírios, quase todas elas decorrentes de práticas sexuais tidas como ilícitas na religião católica.

Sob essa perspectiva, a produção de León Ferrari se afirma como um atlas de imagens (abstratas e figurativas) que ainda aguardam uma interpretação. As colagens da série Relecturas de la Biblia (iniciada em 1983), indubitavelmente polifônicas, orquestram uma riqueza de fontes que transitam da filosofia à literatura, justapondo trechos das Escrituras Sagradas sobre estampas do erotismo asiático. Ferrari ainda recorre ao sistema do alfabeto em braille, acrescentando uma fina ironia: aproximar o crente do cego, infringindo regras para que a palavra de Deus seja uma experiência táctil, um contato com a pele.
Com a finalidade de fazer eco às escrituras bíblicas, o artista compreendeu a necessidade estratégica de alimentar todos os canais existentes de comunicação de sua época (antes de existir a internet). A propaganda jornalística foi peça-chave para alcançar plateias que jamais visitariam exposições de arte, conseguindo assim interpelar o cidadão comum.

Quem conheceu Ferrari sabe o quanto se divertia com o mal-estar que pudessem causar suas inúmeras colagens feitas a partir de cópias de obras emblemáticas da arte. Porém, mais adiante de um gesto duchampiano (e infantil) de apropriação, o que importa é o debate de ideias. “Um artista visual que escreve”, definiu muito bem Néstor García Canclini, referindo-se a dois tipos de escritura encontrados: a sagrada e as profanas, englobando, dentro dessas últimas, as escritas políticas, poéticas e eróticas. Até os desenhos de caligrafias ilegíveis, evocando variantes do alfabeto árabe, o próprio artista irá insistir que são signos alusivos a imagens.

León Ferrari desenhou cartas ininteligíveis, elaborando um diálogo fantasioso com os generais que encabeçam regimes totalitários. Essa produção coloca em primeiro plano uma espécie de caligrafia abstrata (quase automática, psicótica) que reverbera por todos os meios que irá experimentar, seja a escultura, a colagem, ou a pintura1.

Dono de vasta erudição sobre os evangelhos canônicos, dedicou boa parte de seu tempo a reunir argumentos para defender sua tese principal: o patrimônio artístico da cultura ocidental está assentado sobre promessas de castigos e torturas, tendo o Inferno e o Apocalipse como imperativos categóricos de uma humanidade ímpia. No universo contemporâneo das práticas artísticas, raros são os encontros com uma massa tão expressiva de escritos engajados.

Em suma, uma obra que preenche amplamente as definições da vanguarda – originalidade e polêmica.

A morte ainda recente de seu autor, ocorrida aos 93 anos em Buenos Aires, vem despertando contudo uma série de desafios aos pesquisadores e instituições. Em paralelo à importante tarefa de catalogação do acervo, por iniciativa da família que criou uma fundação no local onde o artista mantinha seu ateliê, resta talvez a missão mais difícil: honrar uma memória de luta e insubordinação, espinha dorsal da ética. Se o personagem principal saiu de cena, as questões que ele colocou subsistem para as próximas gerações, exigindo um grau de compromisso que ultrapassa o conhecimento da natureza da arte.


Lisette Lagnado (República Democrática do Congo, 1961). Doutora em Filosofia pela Universidade de São Paulo, foi coordenadora da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, EAV – Rio de Janeiro e do Mestrado em Artes Visuais da Faculdade Santa Marcelina. É curadora, escritora e crítica de arte.