[Christ moans amid thorns while I, a glassy chapel-goer, I pray to the golden eye of God. What transpires then is crucial to me—in an instant, there you are, lanky monk: Victor, on the stage, on a pulpit, all tall. I see the crucifix, I talk, I point at that which to God is given, I tear, I sanctify, I crucify. Satanic me, so Sanskritic and satirical, I preach to my velvety love, the fabric of death—a former saint tearing away from a two-by-four. I feel it, I want it, I open myself up and Victor doesn’t even see it.]

[Cristo geme espinhos enquanto eu, vítrea capelã, oro ao olho de deus, ouro. Vital é aquilo que me transparece, longilíneo monge, num átimo, eis você, Victor, num palco, num pódio, mais alto, ao. Vejo, crucifixo, falo, dedo o que é a deus dado, rasgo, consagro, crucifico. Eu, sântica, sânscrita, satírica, prego-o, veludo meu, amor, tecido, a morte, sidosantosafosarrafo, sinto, quero, me abro tanto, Victor, sequer viu].

My name is Encarnación Rodriguez. I’ve been up all night, just left a Sunday worshiping session and my knees are sore. I’m a stripper by profession, but have the heart of a poet. I have over one hundred shoes in the closet, and over one hundred stories saved to a folder called “originals for publishers.” I’ve been around the hippest circles and hottest private parties attended by politicians, intellectuals, old farts with money, lesbian pop singers who don’t have the guts to come out of the closet. I’ve seen it all, nothing gets to me anymore, except for the guy to whom I wrote the words above. Those who have been initiated in BDSM are typical of what we see at the altar: They whip themselves, they burn themselves, they cut themselves, and there are slaps, and punches, and strikes, and the miracle of shoving fists or entire arms up tight asses. They cum, and they cum again, and they drip, and smear, and spend hours like this. Pure sex, something divine for them. Dignified, I’d say. I lost count of how many Hosts I’ve swallowed for Victor. You gotta push it hard with your tongue to detach it from the roof of your mouth—that white dough drenched in saliva. And you must do it without anyone noticing it: swallow it elegantly while staring at the light coming through the stained-glass windows. Absorbing the remains of a deified body is not for amateurs. In the meantime, Victor gulps at each gaze.

Me chamo Encarnación Rodrigues. Virada na noite, acabo de sair do culto dominical, dolorida nos joelhos, stripper de profissão, de coração poeta, mais de 100 sapatos na dispensa, mais de 100 textos salvos na pasta “originais para editoras”, rodada nas altas rodas, festas privé em especial, políticos, artistas cabeças, ricos velhos, cantora de axé lésbica sem coragem de se assumir, tem de tudo, e nada, nada mesmo me abala, a não ser aquele cara pra quem escrevi essas palavras aí acima. Os iniciados nos ritos masô são bem isso o que se vê no altar: eles se chicoteiam, se queimam, giletam, estapeiam, socam, esmurram, milagreiam ao enfiar punhos ou braços inteiros em cus que medem centímetros. Gozam, repetem o gozo, se escorrem, lambuzam e ficam nessa por horas. Sexo puro, divino pra eles. Digno, eu digo. Por Victor, não faço ideia de quantas hóstias já engoli. É preciso fazer força com a língua pra destacar do céu da boca aquela massinha de brancura e saliva, e tudo isso sem que ninguém ao redor se dê conta, pra, então, deglutir na elegância, os olhos fixos nas luzes que atravessam os vitrais. É coisa para profissional fazer o resíduo de um corpo deificado entrar em si. Nesse meio tempo, Victor engole olhares.

And he exorcises egos. Mine and those of church-goers sitting in mahogany pews. I can’t help but think that this mise en scène of outfits and gesticulations is nothing but an act to calm down their respective mahogany minds. That is why we are all the same flesh and blood, accidentally non-incestuous siblings. With faces like angels, we show ourselves in front of the main mast. Victor saw me for the first time during confession—a latticed face behind the screen, my sweet smell, my Argentine Spanish accent, my low alto to soprano tone. He assumed I had made up all those parties and fixations, but saw the black and red details of my long nails, caught fleeting glimpses of my lips, my black eyeliner. Upon hearing my utterances, there weren’t enough Holy Marys and Our Fathers in the world that would absolve me from the tales I told him. Then, I had an idea… I was tired of going to confession and looking through the lattice and smelling that characteristic mahogany scent, all while hoping that my exchange with Victor would involve something more than only silent syllables. I wanted panting, saliva, fluids, shadows, and velvet.

E exorcisa eus. Os meus, os da audiência encadeirada em mogno, não canso de pensar que toda essa mise en scène de trajes e gestuais é uma representação para acalmar essas mentes de mogno, respectivamente. Por tudo isso, somos una sola carne, sangue do mesmo sangue, irmãos não-incestuosos apenas por um triz, nossas expressões faciais como as dos anjos, e nos exibimos à frente do mastro principal. Confessionária, Victor me viu, pela primeira vez, pixelada atrás das grades, em aroma dulcíssimo, sotaque entre castelhano e argentino, a modulação de contralto a soprano, ele supunha inventadas as festas e as taras, o negro e o vermelho em detalhes do tamanho de unhas, de um trecho de lábio, de um risco de olho. Enquanto uma palavra era dita, eu contava casos em que não havia Virgens Marias que bastassem, nem Pais Nossos. Daí que eu tive uma ideia, cansada de ir ao confessionário olhar para as treliças e cheirar o mogno característico delas, esperando cruzar com Victor algo mais do que sílabas de silêncio, expiração, saliva, resíduo, sombra, veludo.

Those who have been initiated in Yoruba rites are just like that: They celebrate silence, panting, saliva, fluids, shadows, and velvet—but they live the complete opposite of Victor’s negation. Yoruba people are virtuous. Not vile, I’d say. I started writing poems, letters, short stories, sentences, or just a single word on a piece of paper to leave it at the altar, under the skewed eyes of Saints. Each week, while being judged by statues made of plaster and cement, I made an attempt to lay the cards on the table and get closer to him. I was writing my life’s work with a single reader in mind. I got a call one time during mass, absorbing that fluttering feeling my cell phone made while vibrating and making my body wiggle. I grabbed the device that was between the prayer book and the vibrator made in China and shaped like a lipstick. It was good ol’ Miguel calling. How are you doing? I can’t talk now. I’ll call you back in a minute. Bye. Victor, who was so connected to me, seemed to notice Miguel’s interference and his voice got higher during the glorification, hosanna up high, heaven and earth shall declare your glory, saint, saint, you are a saint, oh Lord, hands up in the air, reaching for the sky. I went down the steps outside the church wearing heels that have been around the world and seen me squeeze boobs, get licked, and poke a thousand holes. I almost fell down after I slipped on some morning dew. Hi, Miguel. I can talk now. That’s okay, Friday is fine. Rosa (Pink) Deluxe. Of course, it’s more radical. I have all the supplies. Yes, I’ll take it, too. How many? Ah, okay. Black and red. It won’t be that cheap, yeah, I’ll have to look for it. I know, the one that heats up, right? I’ll come up with something if they don’t have it. I’ll call them today. The supplier had been away on a trip, but would be back this week. I think it’ll work out just fine. I’ll let you know if something happens. Don’t sweat it. Yes, okay. Direct deposit to my checking account. Bye. It was gonna be one of those crazy weeks. I wasn’t even able to write those nights. I mean, I made an imprint on other people’s bodies, but that’s the kind of story nobody wants to share—they only want to experience it behind closed doors. Four legs, four rooms, on all fours. But I couldn’t say no to that. Miguel had been a loyal client, and that’s all that mattered. It’s crucial, I’d say. A lifesaver, especially during famine. Too bad he was too crazy to represent a threat to anything related to this sacred heart of mine. Let’s get the party started—I mean, the radical, anarchistic, fetishistic, sadistic BDSM group meeting.

Tudo bem que os iniciados nos ritos nagô são bem isso, celebram o silêncio, a expiração, a saliva, o resíduo, a sombra, o veludo, mas no avesso da negação em que Victor vive. Os nagôs são virtuosos, não vis, eu digo. Comecei a escrever poemas, cartas, contos, frases ou até uma só palavra em um pedaço de papel que eu deixava sobre o altar, à vista dos olhares diagonais dos santos. A cada semana, sob um julgamento de gesso e cimento, a tentativa de revelar, e dele me aproximar. Criava minha obra para um único leitor. Recebi uma ligação durante a missa, eu vibrava na frequência do toque até perceber que era apenas o celular que ditava minhas descomposturas físicas. Saquei o aparelho entre o caderno de orações e o consolo made in china no formato de batom, era Miguel, velho Miguel, como vai, não posso falar agora, um minuto e já retorno, ok, beijo. Victor, conectado a mim que era, pareceu perceber a intervenção de Miguel, aumentou o tom da voz ao glorificar, hosana nas alturas, os céus e a terra proclamam a vossa glória, santo, santo, santo é o senhor, braços e dedos esticados aos céus. Desci as escadas da igreja com uns saltos já rodados de tanto amassar peitinhos, sofrer lambidas, saltos de enfiar em furinhos mil. Quase escorreguei, obra do sereno matinal, oi Miguel, posso falar agora. Tá tudo certo, pode ser, sexta, Rosa Deluxe, claro, é mais radical, eu tenho tudo, levo sim, pra quantos é, ah, tá bom, preto, vermelho, não vai ficar tão barato, é, vou ter que procurar, sei sim, aquele que esquenta, se não tiver eu dou um jeito, ligo hoje mesmo, o fornecedor tava viajando mas ia voltar essa semana, acho que vai dar certo, qualquer problema te aviso, fica tranquilo, isso, tá, depósito em conta corrente, beijo. Ia ser pauleira, a semana estava puxada, naquelas noites quase não escrevi, quer dizer, escrevi mesmo foi no corpo dos outros, histórias que ninguém quer contar mas faz questão de viver entre quatro paredes, quatro pernas, quatro quartos, de quatro. Mas essa não dava para negar, Miguel e a sua fidelidade eram importantes, fundamentais eu diria, tábua da salvação em tempos amargos, pena ele ser louco demais para representar qualquer possibilidade de perigo, de assunto relacionado a este meu sagrado coração. Chegou o dia da festa, digo, do encontro-radical-masô-anarco-fetichista-sado-grupal. Pouco de mim, fisicamente, era exigido nessas ocasiões especiais, que, por outro lado, eram as mais desgastantes.

Physically, these special occasions demanded very little of me, even though they were exhausting events. Maybe it is my need to make everything go smoothly, but before I can have any fun—if at all possible—I must first think about everyone’s safety while playing all sorts of roles, going into the unknown lands of human desire and irrationality, and witnessing as people get hurt because they want to. A six-word password worked as the key to an apartment in Old Town São Paulo. An old lady from Yugoslavia only rents the property for that purpose. Heavy black curtains block the view of anyone outside; it’s always midnight at Yushka’s apartment, 24/7. The walls are red and purple and there are very few lights and candle holders here and there. In a place like this, the only purpose of light is to make the atmosphere more obscure in an inversion of principles. Miguel was already there with those submissive young men, each one of them covered in a latex bodysuit from head to toe, with only one whole to leave their genitals exposed and three small slits on the hood: one for the mouth and the other two for each eye. It was impossible to recognize anyone inside that prison in the shape of an outfit. Miguel reveled in his role as owner and master of five shiny shades. I was elected Assistant Dominatrix, and my client gave me one of his favorite slaves. According to him, that was the craziest and most perverse of them, someone who loved pain, but had also mastered the art of turning tables. I had to work hard to tame that growling beast trapped inside the condensed dark silhouette. Giving orders just wouldn’t do; I had to resort to highly restrictive commands, followed by harsh punishment. He laughed challengingly. He laughed in pain, that wretched beast. Miguel came and took him from me two hours later. He took away the shadow in chains. That was a long night, especially for Miguel, the President and CEO of an international publisher that was branching out to Latin America. Actually, I never had the guts to tell him that I wrote fiction, too. I always ended up beating around the bush, rehearsing our conversations mentally, only to give up spilling the beans every time I’d think about everything he had already read in life and the greatest names in literature he had already worked with. Miguel was a powerful man, he had deep pockets and servants following him around, but all that wasn’t enough. He needed to play the role of king, and that was why he was a practitioner of masochism. He was royalty in the underground world of instincts and, surprisingly, he invited me the following day for the Executive Breakfast at 6 a.m., so we could both refuel. How’re you feelin’? / Like I’ve been beaten up! / Was he a handful? / More than a handful! He is insistently disobedient. / That’s absurd, isn’t it? / I like them all. That was the fifth time now. / You have a retinue then. / I like you because you know the word “retinue.” / And I like you because you can be a gentleman after a night like that. / That’s why we get along so well. / Scrambled eggs and French bread. / Fruit salad, Mexican cheese with wheat bread, and an espresso. / As I was saying, I love my young men for hire. / Do you know them well? / Relatively. I know one aspires to become an actor, the other one goes to Law School. One of them refuses to tell me what he does for a living, but I know he came from a small town. And then there’s the very promising author. / No way! What does he write about? / He’s so good, very, very good. A sex and prose machine. / Far out! / I’m sure he’s only into BDSM to get inspiration for writing. / I need to read what this guy writes about. / The things you saw last night are children’s play compared to what he can do with words. / Don’t tell me he’s the slave who spent the night with me! / That’s the one. / Fuck me! / In addition to that, he comes from a super conservative background. He’d rather not show the contents of his writings to his family, so he uses a pseudonym. / Send me one of his books. / Deal. After that day, I went back to the same-old same-old. A lot of work and mass after fucking, at the height of my platonic, sacrosanct, almost automatic writer’s block. The envelope with the book was waiting for me at the lobby of my building. It was Friday and I was exhausted. It had been about fifteen days since that night with Miguel and his chosen ones. Honestly, it had completely slipped my mind, and I only remembered our deal when I opened the envelope. I saw the information on the cover: a compilation of texts in poetic prose written by Arthur G. Villens.

Seja pela necessidade de fazer tudo correr bem, por ter que pensar na segurança dos outros enquanto eu representava papéis das mais diversas ordens, por visitar os terrenos imprevistos do desejo humano e suas irracionalidades, por testemunhar quem dói porque quer doer e, depois de tudo, ainda e, se possível, me divertir. Seis palavras ditas na sequência eram a chave de entrada para o apartamento no centrão velho de São Paulo, uma senhora iugoslava aluga o imóvel só para isso. Cortinas pretas pesadas bloqueiam a visão de quem olha de fora: no apartamento de Yushka é sempre meia noite, 24 horas por dia. Nas paredes vermelhas e roxas há luminárias e candelabros somente em alguns pontos; em lugares como esse, a única função da luz é deixar o clima obscuro, em uma espécie de inversão de princípios. Miguel já estava por lá com os rapazes submissos, todos vestidos com collants de látex negro que cobriam o corpo inteiro, havia apenas uma cava com zíper para o sexo exposto, mais três orifícios diminutos nos capuzes; um na frente da boca, um pra cada olho. Era impossível reconhecer o que havia no interior daquela jaula em formato de indumentária. Miguel regalava-se como dono e senhor de cinco sombras lustrosas. Fui eleita dominatrix-assistente, meu cliente me deixou com um de seus escravos preferidos. Segundo ele, o mais louco e perverso, adorava as dores, mas também era mestre em tentar reverter o jogo. Tive grande trabalho pra domar essa figura bestial rosnante, condensada em uma silhueta negra. Ordens não eram suficientes, apenas comandos altamente restritos acompanhados de punições. Ele ria, desafiador. Ria da dor, o desgraçado. Miguel veio tirá-lo de mim depois de duas horas. Levou a sombra envolvida em correntes. Tinha sido uma noite longa, especialmente para Miguel, diretor-presidente de uma editora internacional com negócios em expansão na América Latina, a quem, aliás, eu jamais tive coragem de contar que escrevia ficção. Eu sempre passava perto, ensaiava frases mentalmente, mas desistia ao pensar em tudo o que ele já havia lido na vida e nos grandes nomes da literatura com quem trabalhava. Miguel era um cara poderoso, com grana solta e serviçais às pencas, mas isso não bastava. Precisava exercer a figura do rei, e pra isso praticava o masoquismo. O nobre das esferas subterrâneas dos instintos era mesmo surpreendente e me convidou pra um café da manhã executivo a fim de recuperar as energias, no dia seguinte, era umas 6 da manhã. Tá inteira? / Tô quebrada. / Ele te deu muito trabalho? / Demais, insiste na desobediência / Um absurdo, sim / Eu gosto de todos eles. É a quinta vez já / Você criou um séquito / Gosto de você pela capacidade de dizer séquito / E você ainda consegue ser gentil depois de uma noitada / Por isso a gente se entende / Ovos mexidos, uma média / Salada de frutas, queijo branco no pão integral, um expresso / Como eu falava, adoro esses meus mocinhos pagos / Você os conhece bem? / Relativamente. Sei que um é aspirante a ator, outro estuda direito, outro não conta de jeito nenhum, mas sei que veio do interior. Tem também um escritor que promete bastante. / Mentira. Sobre o que ele escreve? / Ele é muito, muito bom, uma máquina de sexo e de boa prosa / Que viagem / Tenho certeza que pratica SM só pra alimentar a escrita / Eu preciso ler o que esse cara escreve / O que você viu essa noite não é nada perto do que ele faz com as palavras / Não diga que é o escravo que ficou comigo / Justamente ele / Porra! / E tem mais, a família é ultraconservadora, pelo teor dos textos ele prefere não se mostrar, utiliza um heterônimo / Manda o livro pra mim / Fechado. Nos dias seguintes, voltei para o trivial. Muito trabalho e missas pós-foda, numa época em que meu platonismo sacrossanto mobilizador da escrita de caráter quase automático estava às alturas. Encontrei o pacote com o livro na portaria do meu prédio, era uma sexta feira exausta, uns quinze dias depois do encontro com Miguel e seus eleitos. Pra ser sincera, eu nem pensava mais no feito, só lembrei do combinado quando rasguei o papel de embrulho. Na capa, a informação: uma compilação de textos em prosa poética de Arthur G. Villens.

Publisher’s info. Catalog info. Table of Contents. Introduction. First short story. Second short story. I leafed through it. I skipped to the middle of the book. I went to the end of the book. Last page. I went back to the beginning. It definitely wasn’t a book I had in my hands; it was a circular structure on the wall in front of me, my exact image reflected right in the middle of it. Stroke by stroke. Line by line. Word after word. It was a fragment of myself. My frustrated attempt. All those sentences I had left for the vicar. Every stylistic breath I had taken was reproduced there. There was no paraphrasing or disguising, no masquerade or cloaking. Everything I had romantically written by hand in the heat of the moment, without any evidence that the abrupt enlightenment summarized by putting pen to paper had ever belonged to me. I had pressed the metallic sphere against the paper and the resulting sparkles had fascinated the editor.

Dados da editora, Ficha Catalográfica, Índice, Introdução. Primeiro conto. Segundo. Passei rápido por umas folhas. Pulei para o meio. Fui para o final. A última página. Voltei para o começo. Definitivamente, não estava diante de um livro. Mas de uma estrutura circular na parede à minha frente com minha imagem transposta bem no centro, com exatidão. Traço por traço. Linha por linha. A cada palavra. Um extrato meu. Minha tentativa frustrada. Todas as frases entregues ao vigário, a reprodução de cada respiração estilística. Sem ao menos uma paráfrase, a tentativa de um disfarce, o uso de máscara ou capuz. Tudo o que dei vazão no romantismo da escrita à mão e no afã do momento, sem a mínima prova de que a autoria da iluminação repentina, condensada no traço à caneta, era minha. Era só minha a fricção da esfera metálica que gerava faíscas no papel e que fascinou o editor. Para quem liguei imediatamente, fazendo-me agradecida pelo presente. Foi um papo amigável. A ponto de marcarmos uma nova festa com os escravos de aluguel. Dessa vez, Euro seria por minha conta, pelo prazer da companhia, por retorno à gentileza, pelos anos de fidelidade do meu melhor cliente. Miguel aceitou de pronto, inclusive com a nova condição imposta. Novamente, ficaríamos só eu e o escritor, que, nessa noite, teria uma surpresa: ao entrar no quarto, seria obrigado a ficar totalmente nu e a tirar o capuz. A justificativa? O meu prazer seria incalculável ao conhecer o rosto e a alma de tamanho talento da literatura, de quem eu, imediatamente, havia virado fã. Desliguei o fone, já pensando em como seria a minha mise en scène e corri para a igreja. Não perderia a missa das seis por nada desse mundo.

I called him immediately to thank him for the gift he had sent me. We had a friendly talk. We even made arrangements for a new party with those slaves for hire. This time, it would be all on me, for the pleasure of their company, to return the kindness, for the years of loyalty from my best client. Miguel accepted the invitation right away, including the new condition I had imposed. It would be the writer and me, alone again. However, he would have a surprise this time around: As soon as he enters the room, he will have to remove all his clothes, including the hood, and be completely naked before me. Why? I would have the indescribable pleasure of seeing the face and soul of such a literary talent, of whom I had become an instant fan. I turned off my phone, thinking about my mise en scène, and rushed to the church. I wouldn’t miss the six o’clock mass for anything in the world. 


Cristina Judar (São Paulo, 1971). Is a Brazilian writer and journalist, author of comic books “Lina” and “Vermelho, Vivo”. She also published “Questions For a Live Writing”, a project of poetic prose developed at Queen Mary University of London. The short story “Not Original” is part of the book “Roteiros para uma vida curta” published in Brazil inDecember of 2015 by Editora Reformatório. “Roteiros para uma vida curta” won the Honorable Mention at SESC Prize for Literature 2014. In 2017, Cristina released her first novel, “Oito do Sete” [Eight of Seven], which won the Prêmio São Paulo de Literatura in 2018 and was a finalist for the Prêmio Jabuti 2018, two of the most important literary awards in Brazil.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural pernambucano baseado no Rio de Janeiro. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.