Com a famigerada frase contida em “Hamlet”, de Shakespeare, intitulamos nosso pequeno ensaio, e esperamos tirar conclusões profícuas. Da mesma forma, iniciou seu conto «O cu não é humano» o autor André Balbo, de São Paulo, com o seu livro Eu queria que este livro tivesse orelhas (Oito e Meio, 2018). Ao ler este conto, ainda no primeiro semestre de 2018, além da surpresa da exposição da temática, impossível não vir à memória, instantaneamente, o «A história do cu», conto de Antônio LaCarne, de Fortaleza, no livro Salão chinês (Patuá, 2014). Ambos os textos se encerram em três páginas impressas, com numeração quase coincidente. No de Balbo, páginas 65, 66 e 67; no de LaCarne 64, 65 e 66. Não acreditamos em sinais ou chamamentos, mas as coincidências são interessantes, não mais que a temática, o cu.

André Balbo usa diversas referências em seu texto, pois, para ele, “Para esmiuçar o problema, é preciso definir o que é o cu.” (p. 66). Cita Shakespeare, Chesterton, Dr. Harry Townled e até mesmo Heidegger. Está imerso na tarefa e é direto nas palavras. Antônio LaCarne não menciona estudiosos, sendo poético, com pensamentos cósmicos. Autores deliciosamente diferentes em contos que terão seus pontos em comum.

LaCarne afirma que “O cu é o poder. O cu não é o poder.” (p. 64). Sua incerteza nos abre as portas para nossas próprias considerações a respeito. As perguntas dos dois autores giram em torno da definição do cu, da sua importância em termos práticos e do que ele significa, de fato, no mundo contemporâneo. E no frenesi das acepções, o prazer anal entra em cena. De acordo com o cientista social norte-americano (1909-2002), David Riesman, em seu “O turno da noite”, revela-nos que “O sexo, portanto, proporciona uma espécie de defesa contra a ameaça de apatia total. (…) Recorre a ele como uma reafirmação de que se encontra vivo”.

Para Balbo, “O chamado prazer anal ao contrário do que reza o juízo comum, não incumbe ao cu, mas às terminações nervosas do reto que são, isto é, existem, ao contrário do cu.” (p. 66), que na visão do autor, não faz nada, a não ser servir para o peido e a merda. LaCarne, com sua força confessional, típica de “Salão chinês”, reafirma “(…) coito anal, linha reta retardatária, o reto.” (p. 64). O reto ganha do cu na corrida das sensações. Pensemos nisso.

O filósofo francês Gilles Deleuze (1925-1995), na famosa entrevista intitulada “O abecedário de Gilles Deleuze”, que pode ser encontrada facilmente no Google, endossa sabiamente que filósofos e literatos estão no mesmo ponto. “Há coisas que se consegue ver e das quais não se pode mais voltar. Que coisas são estas? Varia muito de um autor a outro. Em geral, são percepções no limite do suportável ou conceitos nolimite do possível.”. Voltamos para “O cu não é humano” e podemos encontrar a passagem “Disso decorre, portanto, que o cu é o que não é – isto é, o que é não sendo; o cu é senda, e equivale ao não ser.” (p. 67), sendo, de acordo com Deleuze, o “conceito no limite do possível”. Em “A história do cu”, verificamos “No entanto, o cu é um beijo, uma forma de dissociação. A recusa do meu cu e suas pregas.” (p. 65), sendo “percepção no limite do suportável”.

Deleuze ainda nos traz a definição de agenciamento do desejo, o que seria desejar sempre em conjunto, e não algo solitário. Seria como comprar uma roupa cara para mostrar aos outros seu estilo de vida. “Não há desejo que não corra para um agenciamento”, reforça o filósofo. La Carne, em seu texto, mais delirante, traz os desejos à tona. “Lembra então daquele boy fantasiado de pantera? Lembra então do beijinho doce no espelho enquanto você desmascarava o cu como naquele filme do cineasta famoso que não sei ao certo porque sou burro? Eles só falam e piscam os olhos por motivos relacionados aos paus, aos pelos, aos cus, aos músculos, ao que não condena, ao que apenas cola.” (p. 65). Ufa, sem mais!

Começamos nossa análise com a coincidência das numerações de páginas dos contos em cada um dos livros publicados, passamos pelas diferenças de estilo de cada autor e terminamos com o reto ganhando, na balança da importância, contra o cu, que seria apenas uma “saída útil” ao organismo humano. O cu é senda, não ser, dissociação, mas não devemos negá-lo. Pois ele pode ser tudo, uma grande representação, “rota de diamantes, paisagens e hemisférios”, de acordo com Antônio LaCarne. Para André Balbo, a ideia de cu é inconcebível, não sendo humano.

O cu não precisa se perguntar “ser ou não ser”, porque “ele é e não é”, dependendo de nossa posição, momento e desejo. Não sendo, ele já é. Algo complexo. Um delírio. Ainda de acordo com Gilles Deleuze, o delírio é cósmico e a psicanálise reduz os temas cósmicos. Então aqui não recorremos a ela, apenas aos erros e acertos dos deliciosos contos literários. Entre o sarcasmo e a ironia, este ensaio é apenas uma descontração.


Munique Duarte (Santos Dumont, 1979). É jornalista, formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Lecionou língua espanhola por dez anos, tendo estudado no CELEC – Córdoba (Argentina). Tem textos publicados no Jornal Relevo, Jornal Opção, Revista Diversos Afins e Livro&Café. É idealizadora e apresentadora do Literatura na Rádio Cultura, em Santos Dumont-MG. É colunista da Philos com a sessão “Não deixe de ler”. Publicou recentemente o livro “Deserto e Asfalto” pela editora Kazuá.