First of January. The smell of antiseptics in the air. An universal hourglass watches everything with attention. Only it analyzing the fidelity of the remains from the current bloodbath. Weapons turn into brooms and pens turn into weapons. Hope is the last to die. The royal court comes, from afar, and here we do the house cleaning, just like our ancestors.
Second of January. A day of accountings. The feet in the sand and the sun on the head. Sunglasses exchanged for eye patches. We have already made so much profit in such a short period of time that the feeling is of a heart drumming to the national anthem. The palm trees dance in the choreography of the wind and the clean tiles of the street burn with the heat. We will be divided into colors, flavors and masters, as planned. God sees that this is all very good.

Primeiro de janeiro. Cheiro de antisséptico no ar. A ampulheta universal assiste a tudo com atenção. Somente ela analisará com fidelidade os resquícios do atual banho de sangue. Armas se transformam em vassouras e canetas se transformam em armas. A esperança é a última que morre. A corte real vem, lá longe, e aqui fazemos a limpeza da casa, assim como nossos antepassados.
Dois de janeiro. Um dia de contabilizações. Pés na areia e sol na cabeça. Óculos escuros trocados por tapa-olhos. Já lucramos tanto em tão curto intervalo de tempo que o sentimento é de um coração batucando o hino nacional. As palmeiras dançam na coreografia do vento e os ladrilhos limpos da rua queimam no calor. Seremos divididos em cores, sabores e senhores, como foi planejado. Deus vê que tudo isso é muito bom.

Third of January. The first third of four knights. The announced bullet is welcomed when it hits the chest. No one knows where it came from. In a single gallop, the classics will be abolished; the literature, murdered. An ulcer will be healed. We will be free from the old moorings. We will extinguish all the country’s archives by means of decrees. There will be no space left for yesterday, nor for today, which will be tomorrow’s yesterday. We’ll move forward. We have not smelled freedom for so long.
The propagation of culture is useless to the State. There will be no unsuspecting living soul, since the fire was and has been our best and most perverse compatriot. Fire, like knives, firearms, tongues of fire, and the flames of flame-throwers burn and categorize. The blaze cauterizes the communal scar of a dying crowd that will bid farewell to the museums and the muses. The New Democracy will be our only source of inspiration.
I stand here, repeating all our committed sins, witnessing the formation of a layer of air and pus between the flesh and the skin. This allergy is nothing more than the hunger for what will be presented tomorrow. The table will be well offered, served and deserved. We will attest for all these years of shared malnutrition.

Três de janeiro. O primeiro terceiro de quatro cavaleiros. A bala anunciada é acolhida ao atingir o peito. Ninguém sabe bem de onde ela veio. Num só galope, os clássicos serão abolidos; a literatura, assassinada. Curar-se-á uma úlcera. Estaremos livres das amarras antigas. Extinguiremos todos os arquivos do país por meio de decretos. Não sobrará espaço para o ontem, e nem para o hoje, que será o ontem de amanhã. Andaremos para frente. Há muito que não sentíamos o cheiro da liberdade.
A propagação da cultura é um inútil ao Estado. Não sobrará alma viva desavisada, já que o fogo foi e tem sido nosso melhor e mais perverso compatriota. O fogo, assim como as facas, as armas de fogo, as línguas de fogo e as labaredas dos lança-chamas queimam e categorizam. A brasa cauteriza a cicatriz comunitária de um povo moribundo que dirá adeus aos museus e às musas. A Nova Democracia será nossa a única fonte de inspiração.
Eu permaneço aqui, de pé, repetindo todos nossos pecados cometidos, testemunhando a formação de uma camada de ar e pus entre a carne e a pele. Essa alergia é nada mais que a fome daquilo que será apresentado amanhã. A mesa será bem oferecida, servida e merecida. Atestaremos por todos esses anos de desnutrição compartilhada.

Beware of the importance of not reading the classics. Even to whom it may concern, we no longer need them. Now, in an illustrious decision and amidst the sacrifices that will be made, we will grow better without them. The fire will not distinguish between these and those which deserve, finally, the destruction, because the moment is to cut evil by its roots.
All walls of Jericho will be overthrown. The classics and moderns turned to ashes. Restricted post-textbooks, instruction manuals, government pamphlets, and selected nutrition charts will remain. In all of them, we’ll hide everything that causes distressing divergence. It is by this path that we will reach a world where we all are one homogeneous mass.
We want an united nation, never segregated. With the abolition of the classics, we will succeed in this task. The trumpets will be missing, but one book will last as the stone upon which our horizon will be rebuilt. In favor of the decay of this harmful moral androgyny, the Bible will be responsible for solidifying the future in which truth and fiction are but one. We will eat sermons and parables for breakfast. And we will be fed.

Veja bem a importância de não ler os clássicos. Mesmo a quem possa interessar, já não necessitamos mais deles. Agora, numa decisão ilustre e em meio aos sacrifícios que serão feitos, cresceremos melhor sem eles. O fogo não fará distinção dentre estes e aqueles que merecem, enfim, a destruição, porque o momento é de cortar o mal pela raiz.
Todas as muralhas de Jericó tombarão. Os clássicos e os modernos tornados em cinzas. Restarão livros pós-didáticos restritos, manuais de instrução, panfletos governamentais e tabelas nutricionais sucintas. Neles todos, ocultaremos tudo que causa divergência angustiante. É por este caminho que chegaremos num mundo onde somos todos uma massa homogênea.
Queremos uma nação unida, jamais segregada. Com a abolição dos clássicos, sucederemos nessa tarefa. Faltarão as trombetas, mas uma obra restará como a pedra sobre a qual será reconstruído nosso horizonte. Em favor da decadência da nociva androginia moral, a Bíblia será a responsável por solidificar o futuro em que verdade e ficção são um só. Comeremos sermões e parábolas no café da manhã. E estaremos alimentados.

We need to practice forgetting. Through it, we will reach happiness. A nation without memories is not afraid to move on, nor to jump into the abyss. We need that courage. To control the collective unconsciousness and to create the believing that poverty of spirit is worth more than economic misery is a job for we who are here, unlike those out there, clogging the streets in manifests.
This is a day of silence. It is equal to a turntable that’s silent in between the moment that it is fed by a new vinyl and the second-one in which that surface will very soon become sound. It bothers like a half full movie theater in the dark before the movie’s projection. However, today, the movie has already begun, but the screen remains pitch black.
We need a violence that is aesthetic. We will equate the value of blood with that of ink, and thus deprive Art of its status.
Joy for the death of the classics. Joy for the death of art and culture. Joy for the simplification of the spectrum of colors. Joy for the fall of any hereditary inheritance that is not the sacred communion wafer of money. We will never be ruled by depravity again. The snake had climbed the tree and was part of its stem, savoring the furrow of what was produced. Joy for a nation where nothing is celebrated more than to clear the seas and to float in the water. And where everything is eternal, colossal and transparent as a shampoo label that says: Literature – keep it from intense light and out of reach of children. Discontinue use in the case of irritation.

Precisamos praticar o esquecimento. Através dele alcançaremos a felicidade. Uma nação sem lembranças não tem medo de seguir em frente, nem de pular no abismo. Necessitamos desta coragem. Controlar o inconsciente coletivo e criar a crença de que a pobreza de espírito vale mais do que a miséria econômica é um trabalho para nós que estamos aqui, ao contrário daqueles que estão lá fora, entupindo as ruas em manifestos.
Este é um dia de silêncio. Ele se equivale ao toca-discos que se cala entre o momento em que é alimentado por um novo vinil e o segundo-um em que essa superfície se tornará, muito brevemente, som. Ele incomoda como um cinema meio cheio, no escuro, antes da projeção do filme. Entretanto, hoje, o filme já começou, mas a tela permanece preta.
Precisamos de uma violência que seja estética. Igualaremos o valor do sangue ao da tinta, e assim desproveremos a Arte de seu status.
Alegria pela morte dos clássicos. Alegria pela morte da arte e da cultura. Alegria pela simplificação do espectro de cores. Alegria pela queda de qualquer herança hereditária que não seja a hóstia sagrada do dinheiro. Nunca mais seremos comandados pela depravação. A serpente subira na árvore e fazia parte de seu caule, saboreando o sulco do que se produzia. Alegria por uma nação onde nada valha mais do que desbravar os mares e boiar na água. E onde tudo seja eterno, colossal e transparente como um rótulo de xampu que diz: Literatura – manter em local fresco ao abrigo de luz intensa e fora do alcance de crianças. Havendo irritação, suspenda o uso.


Rafael Muniz Sens (Florianópolis, 1995). Bacharel em Letras e mestrando em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural pernambucano baseado no Rio de Janeiro. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.