De uma hora para outra ele abriu a porta de casa e saiu. Era madrugada, estava a fazer uma noite fria lá fora, mesmo com todos os percalços, ele saiu. Parou diante da casa em frente e ficou observando tudo.

O homem de pijama enrolado num roupão retirado às pressas do armário virou a chave na maçaneta da porta, destravou os trincos, desceu a pequena escada que dava para o jardim, andou até o portão do seu quintal e foi para a rua, sem se preocupar com o que pudesse lhe acontecer, parou de frente à casa do vizinho e ficou espiando a lua, branca, redonda, cheia, bem cheia a mirar o seu semblante como um refletor.

Há alguns dias Paulo vem sendo incitado pelo som que vem da janela da casa em frente. Sem conseguir pregar os olhos, ficava pendurado no parapeito da janela de seu quarto a ouvir os barulhos que o vizinho fazia.

Não é que o som que vinha de lá lhe incomodasse, mas provocava uma sensação estranha no moço, como se mesmo na noite fria que fazia lá no alto da serra, o som lhe causasse um calor impressionante. Uma febre terçã.

Parado, com a lua a lhe fazer companhia, bem no meio da madrugada gelada, o homem de pijama, cheio de um frenesi ensolarado, punha seu ouvido para escutar a melodia que vinha em sua direção.

A noite estava plena de um não sei o quê, ele sorria embevecido de tanto suor que lhe escorria pelo corpo, com uma urgência danada de gritar, quero ouvir mais, toca mais! Pensava o moço quieto recostado no muro alto da casa azul do vizinho, espreitando o movimento do som que vinha de lá, um piano singelo, com toques precisos, cheios de um amor pelo silêncio, inebriante como a luz da lua que preenchia seu rosto de luz, muita luz.

Naquela noite e em tantas outras noites que se seguiram, o moço alto, com seus quase sessenta anos, de olhar impessoal e que dormia de pijama azul, passou a ouvir as mesmas teclas do mesmo piano a tocar, como se seu coração fosse tocado suavemente por aqueles dedos.

Para adormecer nas frígidas noites de inverno enroscava-se nas melodias e ficava balbuciando o que vinha ouvindo noites a fio, para dar-se o próprio calor.

Dormia de olhos semicerrados e de boca aberta por causa da temperatura fria, dormia sereno, embalado pela canção, dormia sempre para sonhar como se nunca tivesse sonhado um dia.

De manhã ao acordar, tudo parecia novo, tudo parecendo não ter sentido ou existido. Sentado na cadeira na varanda de casa, olhava pra frente e via as janelas da casa azul fechadas, deixando a impressão de que ninguém viria abri-las.

Um silêncio descomunal tomava conta daquele lugar, e ele, enrolado nos seus sonhos ficava pensando como seria possível sentir tamanha emoção em suas noites insones.

Devo estar louco, pensava sorrindo, entre um gole de chá quente e uma espiada para se assegurar de tudo que tinha sentido durante todas as noites que se manteve acordado, fosse real.

Paulo era um homem alto, como já havia dito antes, tinha os olhos amendoados e cheios de um ar onírico e ao mesmo tempo impessoal, faltava-lhe o jeito para ser feliz. Tanto lhe faltava que estava a buscar a felicidade nos mínimos detalhes da vida. Sua vida não ia além daquele muro da casa onde morava, sozinho, ele e o seu gato, Rimbaud, único companheiro e confidente.

Esse homem já tinha sido de tudo, professor de literatura, poeta e herdeiro.
Como se herdeiro fosse profissão qualquer, ele possuía um fino trato com as coisas, mesmo que tenha perdido o gosto pelas boas coisas da vida, com o passar do tempo, ainda conservava um bom gosto para as artes, mas estava fadado a ser inútil tudo o que sabia, por não ter com quem compartilhar.

Como seus pais morreram muito cedo e ele tinha apenas cinco anos de idade, foi levado para Petrópolis para ser criado pela única tia, uma senhora também sozinha, extremamente rigorosa, viciada em poesia e literatura francesa, viúva e sem filhos para criar.

A velha herdou aquela criança solitária, sem expectativas, para acompanhá-la nas noites frias e nos dias silenciosos daquela casa enorme.
Durante os anos de convivência entre ambos, a tia pôde doutrinar o menino ao seu modo de vida, ensinando-o as boas maneiras e transmitindo a ele todo o seu fascínio pela poesia.

Ambos tornaram-se confidentes, amantes da alma lírica, passavam noites a fio lendo, decorando e declamando as poesias dos livros que viviam espalhados pela casa, entre almofadas, gatos e muitas xícaras de chá.

Com o falecimento da tia, o pobre moço órfão, herdou tudo, as joias, as relíquias e o casarão velho onde moravam. Junto com tantas bugigangas, encontravam-se jogados num canto da ampla sala, pilhas e pilhas de livros e discos que se enchiam pouco a pouco de poeira.

O moço de fino trato, vez por outra, levantava-se da cama, escovava os dentes, tomava seu café da manhã sentado na varanda da casa, quando o sol já não lhe cobria mais de calor, fechava as portas de madeira para o frio não entrar, sentava na poltrona da sala e colocava na vitrola um dos discos para ouvir.

Seus discos preferidos eram os de música clássica, principalmente os do compositor Fredéric Chopin, a quem o moço tinha verdadeiro fascínio.

Nas tardes frias da serra, fechava os olhos e se deixava levar pela bela melodia de Nocturne, como se estivesse sendo embalado pelos acordes do piano do músico. Sempre sonhador e sozinho Paulo escutava as suas músicas prediletas e ficava embevecido de tanta beleza.

A pureza está na alma, na música, na poesia, nos sentidos que ela nos traz, dizia-se, apalpando suas partes enquanto acreditava que os dedos do pianista estivessem a executar seus êxtases.

Durante muito tempo esse homem sozinho procurou uma história bonita para acompanhá-lo na vida, sem muitas expectativas ele foi aprendendo a conviver com a solidão e a presença constante do seu gato, com quem compartilhava os momentos mais íntimos.

– Rimbaud, estou cheio de desejos hoje, vamos ouvir mais música! Dizia eufórico para o gato, que desviou o olhar languido para o lado e se estirou no sofá tranquilo, com a tola desobediência que faz de um gato, um gato.

Alguma paz tomou conta de tudo naquele instante. O sereno da noite se aproximando aos poucos lhe trazia uma sensação boa, daquelas que espreitam uma novidade na alma.

Olhando com isenção pela brecha da janela, a casa azul em frente. Um silêncio agudo com a noite caindo e as nuvens descendo do céu e cobrindo as montanhas bem devagar, quase solenemente.

E no silêncio da sala, da rua, do disco parado na vitrola, Paulo foi abrindo os olhos devagar. Os olhos abriam-se pra frente a escutar novamente a mesma melodia, o som do mesmo piano, vindo do outro lado da rua. Ficou quieto. Aos poucos recomeçou a respirar, um suspiro, uma respiração, aos poucos os sentidos foram se solidificando, ele excitado, dançando nas nuvens e embriagado de prazer. Sua cabeça ergueu-se e ele viu a casa com as janelas abertas, uma pequena luz pontuava o caminho que devia seguir. Rimbaud, o gato, dormia demasiado sem a preocupação que não era comum aos gatos, respirando sem interesse.

Paulo, então, experimentou novamente seu exercício de prazer.
Abriu a porta da casa sem fazer barulho, destrancou tudo, foi saindo sem a preocupação de fechá-las depois, deixou a casa com as portas escancaradas. Continuou a andar. Os olhos estavam tão compenetrados e os ouvidos concentrados na música que vinha daquela casa.A pequena luz apontando o caminho: “Oh não, não”, pensou em um instante. E enquanto entrava, disse: “Deus, me surpreenda.”

Abriu o portão com uma rapidez incrível, que nem mesmo ele sabia que tinha, pois a todo momento lembrava que lhe faltava coragem para a vida. Depois meteu-se dentro da casa e foi entrando. O ar fresco era inominável, ele que morava nas montanhas numa cidade fria, estava desacostumando com tudo.

Recomeçou então a andar, agora duro, tateando as paredes para se assegurar de alguma coisa. Ajeitou o casaco que tinha apanhado antes de sair. Com a leve contristação de quem vivera desamparado por uma vida inteira, sem ninguém, revelava-se então um homem prestes a desvendar as surpresas da vida.

Mas a música lhe rodava os pensamentos mais inabitáveis: a ausência dos pais, a falta do amor num cansaço da procura, num choro mudo, e ele quis voltar.
No instante seguinte, o homem, sem conseguir recuar, viu apenas a sombra de alguém a andar pela sala, silenciosa e firme. Depois ouviu aquela voz, o piano não era mais tocado.

De súbito recorreu a ele o medo de tudo.

Mas era tarde e manteve-se onde estava.

Andando de um lado a outro, impaciente, o corpo magro, frágil, vestido com roupas largas perambulava pela sala.

Numa das mãos um livro, enquanto a outra gesticulava impunemente sempre com um cachimbo aceso.

Pela sombra via o emaranhado dos fios do cabelo. Era um menino. Tão belo que, à distância, desenhava-se um enigma. Nos olhos carregava a melancolia erguida pelo espírito.

O homem ficou parado admirando-o, talvez quisesse ir embora, mas o som que vinha era bom, melhor do que a canção do piano que o conduzira até ali.

E no silêncio da noite fria, os passos apressados, gestos largos, um olhar desenfreado a romper-lhe os nervos, o menino olhou-o um instante.

Paulo sentiu o frio que entrava pelas janelas abertas da casa azul, teve o ímpeto de fechá-las, mas o menino protestou, não feche, deixe o ar entrar, preciso sentir esse frescor, preciso respirar, dizia, enquanto conduzia o outro até a cadeira perto da janela.

Eles então se olharam.

O menino sorriu e estendeu à mão, muito prazer, Arthur Rimbaud, às suas ordens.

O homem aprumou um pouco a cabeça, ligeiramente recuou o corpo em desconfiança. Mantendo os olhos bem abertos, uma sensação de aflição foi se misturando com tantas outras sensações, ele permaneceu imóvel, enquanto o outro falava. O coração apressou-se em bater mais rápido numa espécie de fuga para não sentir o que estava sentindo.

O menino deu outra investida, já derramei lágrimas demais, desgosto me assoma, sorriu com seus olhos de vertigem.

O homem desviou o rosto perplexo, desprendeu-se da cadeira e estava quase saindo daquele lugar, quando o menino sem se mover, de onde estava abriu os braços e disse pausadamente, como tentativa de assegurar ao outro de que ele era quem ele era: Arthur Rimbaud.

Mas de repente, o velho olhou para baixo com seus olhos míopes, ele precisava não enxergar, não sentir, não estar ali.

Ele precisava não ouvir as vozes, não seguir seus instintos, não ter nascido.

Depois o outro estendeu-lhe novamente a mão magra e foi puxando-o para sentar. O homem manteve-se de olhos fechados enquanto era conduzido pelo menino, não sabia para onde iria ser levado e nem para quê. O menino sorriu divertindo-se em manter sobre seu domínio um velho tão frágil, tão fácil de ser conduzido. Rimbaud estava gostando disso. Você me lembra alguém, disse divertido.

Enquanto isso, Paulo procurava não aparentar tanto desespero, pôs-se a pensar com dificuldade nas histórias que a velha tia havia lhe apresentado na infância, sobre a relação dos poetas Paul Verlaine e Arthur Rimbaud, do encantamento que sentira com a submissão do velho Verlaine, da vida marginal que Rimbaud apresentava sempre se opondo aos rigores e à margem da sociedade, uma personalidade violenta e altamente desvairada, capaz de seduzir o outro com toda a inteligência e o talento que tinha. Verlaine, desnorteado e perdidamente apaixonado, abandonou a sua vida familiar e sua reputação para se embrenhar pela boêmia dos guetos parisienses e pelas orgias com o jovem poeta, numa mistura de amor, drogas, álcool e loucura.

Aceita um gole de absinto, perguntou o jovem, oferecendo uma taça ao velho boquiaberto.

Então, mais uma vez, o velho homem levantou-se, colocou a taça sobre a mesa e fez menção de partir. Rimbaud lhe chamou a atenção, pedindo que ficasse. O homem deu um suspiro fundo, e um sorriso inocente escapou dos lábios do rapaz. O velho estava impune, Rimbaud estava consciente disso. Olharam-se livres agora.

O vento frio entrava pela janela aberta naquela noite de inverno e o homem podia pensar livremente, o momento era dele, por um instante ouviu o piano tocando aquela mesma canção. Tremeu. Rimbaud deitou-se na cama ao lado, e com o auxílio da memória, lembrou-se das noites em que convivia ao lado de Verlaine.
“Vamos fazer um acordo. Você me ajuda e eu o ajudo. Se partirmos sei que conseguiria produzir de novo. E, quando tivermos tirado tudo um do outro nos separamos e seguimos nosso caminho”, lembrou-se falando com carinho da proposta que fizera à Verlaine.

Enquanto isso, o homem de pé, silenciosamente foi sentando na beira da cama, admirado com o olhar infantil do jovem. Você o amava? Perguntou ao menino.
Deitado na cama, a cabeça estirada sobre o travesseiro, parecia um anjo, pensava o velho, Rimbaud sorria.

E, com seus olhos inquietos, o menino, mais ou menos uns 16 ou 17 anos, de olhos inquietos e azuis e com o cabelo castanho-claro comprido acendia novamente seu cachimbo onde fumava o seu haxixe e falava: “O amor não existe. Existe o interesse pessoal, uma ligação baseada em proveito pessoal. Existe prazer, mas não amor. O amor deve ser reinventado”.

O homem, rindo timidamente, rindo pouco, pensou no seu destino, vez ou outra, olhava o teto, transpirava, tossia, dissimulava, concordava com tudo. “Lembro-me quando minha tia falou de você, Rimbaud, tão livre e tão frágil, tão cheio de poesia na alma. E eu uma criança procurando encontrar os meus caminhos, me desviando do destino, ouvia àquela velha me falar de você. Me tornei intimo da sua história, sentia uma atração imensa pela sua audácia e pela sua capacidade de ser poeta”, lembrou-se o homem satisfeito com aquele encontro, “toda a vida sonhei com isto, sempre tive medo, bem sei, mas queria ousar pelo menos uma vez.”
“E como queria te tocar!”, pensou o homem emocionado, rindo mais um pouco, “na verdade tive medo de você…Este seu jeito moleque, ou era essa sua arrogância que me excitava. Muitas vezes quis estar no lugar do Verlaine, para que você deixasse eu te amar. Tolo que eu era. Eu esperei por você este tempo todo, meu menino. Esta alegria insuportável, esse seu desvario, agora ao seu lado sinto como se eu fosse um homem de verdade.”

O homem deitou-se ao lado de Rimbaud, suspirou, virando-se para o lado, ergueu a cabeça do jovem e deu-lhe um beijo apaixonado.

E mais uma vez a música do piano começou a ser tocada, o som foi ficando cada vez mais alto. Rimbaud, Rimbaud, balbuciava o velho.

Como se ele não entendesse muito bem o que acontecia, seu coração foi desacelerando. Uma coisa foi se espalhando dentro dele, como uma fumaça que toma conta do ambiente, escurecendo tudo. Ah, Rimbaud, disse de repente num suspiro de amor. Deitado, em sono profundo, os olhos cerrados. O homem tateou o escuro, surpreendido. A música ficava cada vez mais alta, ensurdecedora. Ainda conseguiu ouvir uma frase que o menino lhe dizia: “Que venha, que venha a hora da paixão, tenho tido paciência, nunca esquecerei. Para os céus se foram. E uma sede insana, tolda as minhas veias’.

Quase perdido, o homem abriu os olhos incrédulos, a boca seca provocava-lhe uma sensação sufocante, virou-se para o lado da cama e assustado percebeu o gato a roncar ao seu lado, dormindo feito um anjo.

Levantando-se devagar, foi até a janela para ver o que acontecia lá fora.

O dia já estava amanhecendo, o som do piano tinha se encerrado, as janelas estavam abertas e o vento frio entrava pela porta escancarada da casa.

O velho ficou parado um tempo admirando o que se passara. Tinha gostado e estava feliz.

E assim o homem todas as noites abria as entradas e saídas da casa para o vento chegar, ligava o som bem alto, colocava a mesma música de Chopin e apagava as luzes, deixando apenas a luz da lua clareando o ambiente.

E como se fosse uma rotina, passou a reencontrar-se com Rimbaud todas as noites, estava perdidamente apaixonado.

Das outras vezes, ainda tinha tempo de num gesto de carinho, segurar a mão do menino tentando impedir que ele não partisse. O velho, como nunca, suave e amoroso, apertava o menino contra o seu peito, afastando-o do perigo que é viver.


Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854-1891) foi um poeta francês. Produziu suas obras mais primorosas ainda na adolescência sendo descrito por Victor Hugo, à época, como “um jovem Shakespeare”. Aos vinte anos já havia desistido de escrever. Rimbaud influenciou a literatura, a música e arte moderna. Era conhecido por sua fama de libertino e por uma alma inquieta. Ainda adolescente, por um convite do eminente poeta simbolista Paul Verlaine (depois que Rimbaud lhe mandou uma carta contendo vários exemplos do seu trabalho), foi à Paris e residiu brevemente na casa deste. Verlaine, que era casado, apaixonou-se prontamente pelo adolescente calado, de olhos azuis e cabelo castanho-claro comprido. Os amantes levaram uma vida ociosa, regada a absinto e haxixe. Escandalizaram o círculo literário e a sociedade parisiense e viveram um tempestuoso caso amoroso. Rimbaud morreu de câncer aos 37 anos de idade.


Alex de Andrade é escritor e arte-educador, nascido no Rio de Janeiro. Publicou os livros de contos A suspeita da imperfeição, Poema, Amores, truques e outras versões e As horas; os infantis O pequeno Hamlet, A galinha malcriada, A menina e a sapatilha, O menino e a chuteira e A história do menino e os romances Longe dos olhos e Antes que Deus me esqueça.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.