krisis

deixar o abismo
progressão da doença
corte
enquanto o espaço interno oprime-se em constante esforço em se conter
em força sem substância, cor ou peso que se esforça contra as bordas orlas
decisão
as sendas do ser e não ser
paredes internas
que acaso um dia deixem que o
sentido
corte um talho uma
fissura
pro que está dentro
fure a flor da pele

sem título

vazando pelos poros do tempo
um contorno do que espera
simultâneos sons
suspeitam estilhaços
o indizível inespera espaço
repete
repete insensato escurecer
afasta o que parece sempre que controla
se era um tempo o que dissipa o forte amanhecer da dor
se era um molde insondável de tragédia que
repete
basta o sol
olha o sol
veja a cabeça no seu colo
é um sol só
coloca-te no colo de teus braços
catapultado ser
no instante da
falha

sem título

encara a plenitude
ela não vem
ela é muro
e o pescador ainda espera
o que não volta
e o que canta escolta
o pouco
o que se conta é pouco
em volta
ele não volta
e quando volta
depois de tanto
ainda espera estar a salvo
do mar
mas o mar


Rodrigo Tadeu Gonçalves (Jaú, 1981) é professor de Língua e Literatura Latina na UFPR, editor, tradutor e autor do livro de poesia Quando o verão (Kotter em coedição com a Patuá, 2018). Em 2017, publicou com Guilherme Gontijo Flores o livro Algo infiel: corpo performance tradução (ed. Cultura e Barbárie / n-1). Nos dois livros, Rafael Dabul fotografa. Com Flores também fundou em 2015 o coletivo Pecora Loca, que põe poesia e tradução em música.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural pernambucano baseado no Rio de Janeiro. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.