o jardineiro e o poeta

“Vamos e corramos sem olhar para trás”, o conselho dado a Candide no limiar de uma hora antes que o queimassem.  “A sombra de uma diligência o levará, os homens precisam se por a andar”, aconselharam-no; cada nervo descarregará o disparo elétrico.

Em certos jardins otimistas, um jato de água solitário queima entre as pedras durante o crepúsculo.  O sol afunda nas fontes, busca o descanso de seu fulgor.  As flores se curvam sob o vapor noturno.  As noites desencantam-se no torpor matinal.  O jardineiro sorri; ele se sabe mais feliz do que o poeta.

Vamos, poeta, corra sem olhar para trás, purifique-se.  Você não supera alguns metros de tempo semi-divino, o processo da pele (o couro curtido de um leão o cobre) e esta sua celeuma com a higiene.  Higiene-sanidade-asseio são sinônimos em viagem.

Investiguemos as medidas de limpeza dos anjos e das carrancas e a frequência de beijos nos corpos banhados, o toque das mãos nos sabonetes e perfumes, no derrame das essências oleosas que os amaciam, nos panos sobre as suas vergonhas, nos líquidos que os dissolvem, em Sherazade e nas Mil e Uma Noites:

“Queimaram-me enquanto me interrogavam,
e viram que ao infortúnio sou resistente;
foi por isso que me carregaram com as mãos
e das beldades, beijei até os dentes.”

Beijar até os dentes e manter a higiene restringe-se aos indivíduos inodoros.  Salvos por invulgar sobriedade, saltimbancos fugidios, eles saltam sobre as labaredas.  O dito, aqueles que não fedem nem cheiram.

Entre o esqueleto e o oxigênio: o órgão que exala.  O organicista toca A Paixão de São Mateus (a sua descrição é a de um homem com lentes para miopia, depende do sopro do magnífico instrumento para respirar, já não sai da Catedral há cinquenta anos, padece de anemia mas revela a sua melancólica indiferença ao sol, um lagarto domesticado, um homem que, apenas pela música, sacode a terra onde a baleia e o papagaio-do-mar tem sérios problemas de comunicação).

Não se justifica viver se não for pelos poros ou para sacudir a terra.  Enquanto o dia descender sobre si, preparem-se, as asas, para que os espíritos alegres acelerem o voo rumo aos jardins otimistas.  O papagaio-do-mar não depende da baleia para insubordinar-se ao vento.  Ele é surta cor e mirabolante.

Pensar órgãos e jardins: jardineiro ou poeta.  Quem planta versos de cartilagem em corações metálicos perturba os desalmados com tremores sentimentais.  Ao jardineiro, é dispensado criar perfumes florais, a natureza acontece nos gramados: consciente da beleza das rosas (o amor usa uma coroa de rosas sem espinhos) e da murta, a erva-da-inveja-e-do-mal.  O poeta, por sua vez, precisa ressuscitar um corpo após o outro, em sucessão; não importa qual Musa sorri dentro da lágrima transformada em espinho, ele compõe o caule que fere.

No tocante à ciência do olfato oculto, o jardineiro inala a brisa dos banhos coletivos às almas, elixir das chuvas tropicais. Nuvens, almas, anjos e abelhas flutuam como os galhos odoríferos erguidos nos corredores celestiais traçados por Coleridge numa noite benfazeja de outono e arquitetura.

(Um rosto pode usar infinitas carrancas para cobrir o seu vazio sem chegar a corar o semblante exterior. O thou wild Fancy, check thy wing! No more. Em sua fantasia bravia, reparar na asa! Nada mais.)

o jardim das delícias

O Jardim das delícias, por Jorge Pereira

As tardes são sempre de tisanas nos prados secos de Cascais: chás de tília, erva-doce, camomila, morangos silvestres colhidos nas ribeiras dos morros enquanto sopra o vento frio anunciando o fim do dia.
Maya colhe pequenas pedras negras para compor um terrário, declina-se sobre os descampados, deixa mostrar inocentemente os rubros seios. Percebe as dedaleiras e suas cores, reflete-as: -Como são belas! Os lábios trêmulos das flores são prelúdios para ausências futuras, sofrimentos indizíveis da alma, silêncio pungente como a cor da noite sobre o mar.
As flores não são apenas o órgão sexual das plantas, são poetisas. E como todos os poetas, fingem. Algumas flores abrem-se no início do dia e recolhem os férteis raios do sol; mas há aquelas que exprimem filosofias, abrem-se ao cair da tarde para sentir emanar a força do céu estrelado. Essas, que se abrem misticamente após o esmorecer, tendem a curar. E não o fazem pela complacência de suas almas, mas pelo que nelas há de mais insensato: seu instinto natural.
As flores arroxeadas são as que mais lhe atraem, são de seus matizes que deriva o prazer que Maya sente. Não há gozo intelectual em admirá-las, apenas fraqueza, temor. Mesmo que não nos convenha deixar que as almas se enfraqueçam pelo temor ou amoleçam pela compaixão. Por isso é que os homens e os deuses vivem na feliz ignorância das coisas, especialmente da própria ignorância.
Colhe as pedras que deseja, limpam-nas nas rebarbas do vestido carmim, esfregam-nas com as palmas das duas mãos, suja-se de barro e, por fim, as coloca dentro dos bolsos. Ao longe, os marinheiros em seus barcos ébrios ao alto mar, acendem as lamparinas e indicam para Maya que é chegada a hora de voltar para casa. Não muito distante dali, ouve-se o ressoar do sino da capela de São Sebastião, é o segundo chamado de regresso.
Do alto do morro, no caminho de casa, aprecia o mar e sua ilusão necessária; o altivo e cruel mar que salga as flores insólitas com as lágrimas de seus olhos solitários. O mesmo mar que reluz o céu em suas correntes cristalinas, tão efêmeras que não se revelam a qualquer criatura.
Para Maya havia a promessa do mar de banhar os cais sem pretensão nos dias santos, nos dias de reis; de não fazer enigmas, não surpreender nas primaveras. Mas aquele não era dia de santo, nem de reis. Era tempo de calmarias e esperas, de ar frio e suave frescor de chuvas, noites de verão, restos de naufrágios, sonhos esquecidos, doce-sal, frutos amargos, vastos desígnios desejos de palavras tênues, tenras, como a linguagem das flores e das coisas mudas, como a ternura das pedras. Maya refugiava-se ali, em meio as sazonalidades, onde as palavras descalças lhes davam fugas.


Kátia Gerlach e Jorge Pereira são editores da Philos. Ela advogada, ele biomédico. Ele escreve do Rio de Janeiro e ela de Nova Iorque, as Correspondências são parte dos e-mails trocados entre eles.

Posted by:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.