O feminismo é um espaço de disputas desde o tempo das Sufragistas, quando Sojourner Truth fez seu famoso discurso “E não sou uma mulher?”. Mulheres negras contestavam o lugar em que a luta pelo voto feminino se encontrava: as pautas levavam em conta o modelo de vida e as necessidades de mulheres brancas, sem pensar em “mulheres” no plural. Essa forma de se pensar a mulher como uma categoria no singular, sem modos plurais de existir, é até hoje a principal disputa dentro do feminismo.

Da mesma forma que vemos até hoje as críticas internas ao feminismo branco feito por mulheres negras, precisamos prestar atenção também a outras sujeitas invisibilizadas pela narrativa hegemônica.

Na década de 1970 as disputas se pluralizaram, principalmente com a emergência do movimento LGBT após a Revolta de Stonewall. O feminismo cis-hetero-branco sempre alegou que suas pautas de desigualdade perante aos homens deviam ser prioridade, e que as pautas lésbicas, por exemplo, desvirtuavam a luta. No filme If These Walls Could Talk 2 vemos de forma bem explicativa, no capítulo protagonizado por Michelle Williams e Chlöe Sevigny, as complexidades desse momento político no qual feministas heterossexuais rejeitavam lésbicas, e lésbicas hippies femininas rejeitavam, por sua vez, as tradicionais butchs – lésbicas masculinas que se vestiam com os trajes tidos socialmente como “de homens” (de terno, gravata e calça social, ou com bomber jacket e jeans, à la James Dean). As mulheres masculinas eram lidas, portanto, como aquelas que abraçavam os signos culturais do homem opressor, como se masculinidade e feminilidade não fossem ambas construções artificiais e culturais que existem no patriarcado.

Existe um livro que sempre me instigou e se tornou pra mim uma espécie de livro de cabeceira. Não tem tradução dele no Brasil e o acabei encontrando em uma viagem a Buenos Aires em 2010. O título é Female Masculinity (1998), de um autor trans chamado Jack Halberstam – na época ele assinava como Judith Halherstam. O autor desenvolve uma espécie de historiografia das manifestações das chamadas “masculinidades femininas”, na história social e na cultura – desde as mulheres que vestiam ternos e gravatas na cultura butch dos cafés lésbicos europeus da década de 1920, passando pela cultura drag king norte-americana ou por personagens masculinas presentes no cinema. Procurem nas imagens do Google sobre o bar de Paris nos anos 1920 Le Monocle: são imagens maravilhosas sobre as masculinidades alternativas que existiam nas sombras da era moderna cis-hetero-patriarcal.

Jack defende uma ideia que eu considero extremamente importante para o feminismo, a de que “a masculinidade não deve e não pode ser reduzida ao corpo do homem e a seus efeitos”, explicando que pretende mostrar como que a masculinidade feminina está longe de ser uma “imitação da virilidade”. A Masculinidade Feminina é tão importante de ser estudada ou debatida porque ela desvela, ou, ao menos, nos dá uma pista, de como é construída a masculinidade.

Podemos evocar a popular frase de Simone de Beauvoir “não se nasce mulher, torna-se mulher”, e aplicar aos homens “não se nasce homem, torna-se homem”. A pretensão de neutralidade da masculinidade hegemônica encarnada na virilidade é posta em cheque pelas masculinidades alternativas – desde homens trans, passando por pessoas transgênero não-binárias ou mulheres lésbicas masculinas. A masculinidade é um aglomerado de signos que podem ser ressignificados, de acordo com os corpos que os utilizam.

O autor nos confronta com algo que parece superimportante para o nosso debate contemporâneo. Ele diz que prestamos pouca atenção na masculinidade feminina enquanto mostramos muito interesse na feminilidade masculina. Pensemos na cultura brasileira LGBT contemporânea: temos diversas personalidades importantíssimas que são de alguma forma a expressão dessa feminilidade masculina – bichas efeminadas e as maravilhosas travestis da música, as nossas drag queens, como Pabllo Vittar, que foram definitivamente para o mainstream. Isso é ótimo, isso dá visibilidade a mulheres trans e feminilidades alternativas em um país campeão em assassinato de travestis e transexuais. No entanto, onde estão as masculinidades alternativas na cultura e nos nossos debates? Halberstam argumenta que a indiferença generalizada em relação às masculinidades não-hegemônicas tem claras motivações ideológicas, “e tem servido de apoio a complexas estruturas sociais que vinculam o masculino à virilidade, ao poder e à dominação”.

A capa do livro de Halberstam na edição em espanhol é ilustrada com uma fotografia de uma pessoa forte, com calça militar, enquanto a contracapa revela que essa pessoa possui seios. Ao carregar esse livro pelas ruas ou até mesmo dentro de casa, ouvi diversas frases de inquietação ou de enojamento. “Nossa sociedade demonstra muita inquietação no fato de existirem mulheres masculinas”, está escrito em uma das páginas do livro.

Não é à toa que as mulheres cis-hetero acabam se tornando agentes da vigilância da norma de gênero. Outro dia eu estava assistindo à defesa de tese de um grande amigo na PUC-Rio e fui fazer xixi. Ao puxar a porta na minha direção para sair banheiro, uma jovem universitária com uma blusa com um símbolo feminista empurrava a porta por fora, na intenção de entrar. Quando ela me viu, levou um susto. Pensei que por se surpreender com o impulso da porta (que acumulou a minha força e a dela). Ledo engano. Na realidade, ela se assustou com a minha figura, com a minha aparência andrógina. As duas amigas que vinham atrás disseram em voz alta e tom de escárnio e em meio a risadas “nossa, achei que fosse o banheiro masculino!”, e a que tinha se assustado comigo falou “eu também!”.

Essa é uma cena bastante frequente. Existe um pequeno texto de Paul B. Preciado que se chama Sujeira e Gênero: Mijar, Cagar, Masculino, Feminino, que fala justamente sobre o banheiro público como esse lugar de vigília de gênero, e como mulheres femininas tratam a presença de mulheres masculinas nos banheiros públicos como algo a ser recriminado, ou rejeitado, nem que seja com a sutileza de um olhar de reprovação ou de inquietação.

Já passei por essas situações algumas vezes, enquanto só precisava satisfazer minhas necessidades mais básicas enquanto um ser. Se isso é tão frequente e se mulheres, feministas ou não, oprimem pessoas transgênero masculinas, lésbicas masculinas ou caminhoneiras que frequentam o banheiro feminino, não é hora de debatermos essa opressão? Espero que essa seja a minha contribuição ao dia do combate à LGBTQIfobia. Um feminismo interseccional e plural, que acolhe pautas e tensões, e que não invisibiliza determinadas vivências.


Adriana Azevedo é feminista e crítica cultural com trajetória de sete anos em pesquisa acadêmica sobre representatividade de minorias sexuais e de gênero no audiovisual, nas artes e nas produções culturais contemporâneas.

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Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.