Tempos sombrios esses que vivemos. Houve tanta mudança progressista, libertária e empoderadora nas últimas décadas, acelerando a distribuição de privilégios e assustando a aristocracia decadente que, infelizmente, ainda controla a economia e a política mundiais.

Estamos passando pelo último (espero) grito da supremacia branca heteronormativa patriarcal e ela está desesperada para voltar no tempo e reafirmar seu poderio sobre nossas mentes e corpos. No entanto, vivemos na era da informação e vozes nunca antes ouvidas, hoje, reverberam entre milhares, às vezes, milhões, por meio de redes sociais e aplicativos de conversa e encontros. Calma, os livros também resistem.

As mudanças acontecem cada vez mais rápido e as perspectivas de futuro ficam mais e mais nebulosas. Cabe a pergunta, então, que futuro estamos construindo e a quem ele pertence? Caminhamos rumo a uma nova ditadura ainda mais opressora ou rumo a um tempo de liberdades e direitos garantidos às pessoas de acordo com suas diferenças e necessidades?

Difícil prever, mas mantemos a luta. Já diria Simone de Beauvoir que basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Nada nos é dado, nada é garantido. Principalmente quando vivemos sob o jugo de um governo despreparado, mal intencionado, profundamente corrupto e rendido aos interesses de empresários.

A obra ‘O Alfabeto e a Deusa’ de Leonard Schlain trata da questão da adoração das mulheres nas sociedades pré-históricas, associando essa mudança de paradigma e a supremacia patriarcal à exaltação do pensamento lógico e linear que acompanhou a popularização da escrita alfabética (que utiliza o lado esquerdo do cérebro e o pensamento racional).

Escrever e ler são atividades lineares, abstratas, centralizadoras e dominantes – todas elas conectadas ao macho caçador/matador. Assim, a alfabetização destituiu os valores do lado direito do cérebro e a Deusa, resultando em sociedades dominadas pelo homem onde o abuso das mulheres é comum.
[Sobre] o lugar ocupado pelas mulheres na sociedade grega. Hesíodo contribuiu para a difamação das mulheres em sua descrição de Pandora como responsável por espalhar todos os males que afligem o mundo. Várias deusas gregas não têm mãe, nascendo diretamente de Deuses. O que as estórias de Adão e Eva, Pandora e Efigênia ensinam às meninas do Ocidente? O que essas mesmas estórias ensinam aos meninos?”
Onde quer que o alfabeto chegue alguma forma de loucura também se inicia. Cada vez que a civilização avançou nas ciências e no conhecimento, auxiliada pela escrita, uma guerra ocorreu. As mulheres sofrem em conseqüência das leis criadas por homens que são alfabetizados e que se esqueceram da justiça feminina. –

O Alfabeto versus a Deusa, SCHLAIN, p. 3.

Assim, seria a literatura ícone da cultura masculina? Por essa análise e pela avassaladora quantidade de escritores homens, sim. Portanto, cabe às mulheres (e aos corpos estranhos, não usuais, não-binários e afins) apropriar-se dela, usando da força feminina, da intuição e da criatividade para virar o jogo e usar o alfabeto em favor do feminismo e da luta por direitos.

As mulheres estão conquistando lugares nunca antes alcançados, provando que força intelectual e física não são de exclusividade masculina, que existem diversas maneiras de se alcançar um resultado e que são muito mais que objetos para o prazer masculino, mas sujeitos ou melhor, sujeitas plenas de potência, força e vontade de fazer acontecer. O futuro pertence ao feminino e o feminismo vem garantir esse cenário.

Afinal, o homem do futuro é a mulher.


Bia Salomão (Rio de Janeiro, Brasil). É filósofa, feminista e figurinista, fundadora da Sinestesia Mutante. empresa que promove experiências sensoriais e co-fundadora da Braba Productions e da Precious Plastic Rio, iniciativa de conscientização e ressignificação de resíduos. Especialista em Arte e Filosofia pela PUC-Rio, graduou-se em Filosofia pela Universidade de Brasília. Hoje, pesquisa e faz curadoria de arte, feminismo, moda e sustentabilidade como ferramentas de educação libertadora, transformação social e empoderamento.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural pernambucano baseado no Rio de Janeiro. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.