conheci sua mãe depois que ela voltou da União Soviética.
ela fez uma festa à fantasia na casa dela”
assim você me disse,
assim eu espremo os cravos nas costas de minha avó
cravos tão profundos
habitantes de buracos
que tiro com delicadeza, algodão e álcool
para não marcar
mas eles sempre voltam
no mesmo lugar
como tudo o que você me disse

fiz massagem com arnica nos pés de minha avó
desinchou,
mas o inchaço sempre volta
como tudo na memória

eu conheci minha mãe depois que ela voltou da União Soviética
nós estávamos juntas
à deriva
numa jangada remada por ela “mais” eu
ela me dizendo: “você precisa ter sintonia!”
parei
porque eu sempre paro quando alguém me diz o que fazer

eu parei deitada
à deriva
olhando da barriga dela o céu fundindo na cabeça
os olhos cantando:
“zum, zum, zum, lá no meio do mar
zum, zum, zum, lá no meio do mar
é os vento que nos atrasa
o mar que nos atrapalha
para no porto chegar
zum, zum, zum”
— deve ser por isso que eu
gosto de máscaras
y fantasias


Sophia Pinheiro (Rio de Janeiro, Brasil). Doutoranda em Cinema e Audiovisual do PPGCine (Programa de Pós-graduação em Cinema e Audiovisual), da Universidade Federal Fluminense, mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal de Goiás (2017) e graduada em Artes Visuais Bacharelado em Design Gráfico pela mesma universidade (2013). É pensadora visual, interessada nas poéticas e políticas visuais, etnografia das ideias, do corpo e marcadores da diferença, principalmente em contextos étnicos, gênero e sexualidade. Atua principalmente nas seguintes áreas: processos de criação, antropologia, artes visuais (ilustração, gravura, cerâmica, design gráfico), intervenções artísticas urbanas, arte & tecnologia, fotografia, vídeoarte e cinema. Participa do grupo de pesquisa Documentário e Fronteiras. Ganhou dois prêmios como artista visual e cinematográfica no Fundo de Arte e Cultura de Goiás (2015), participou do VIII Prêmio Pierre Verger de Ensaio Fotográfico (2016) e ganhou o 23º Prêmio Sesi Arte e Criatividade em 2º lugar na sessão Obras Sobre Papel (2017). Seus trabalhos artísticos já foram expostos no nordeste, sudeste e centro-oeste brasileiros além de países como Argentina, Paraguai, Espanha e Alemanha. Recentemente realizou sua primeira exposição individual “MÁTRIA” em Barcelona (ES). Atualmente circula com seu primeiro média-metragem “TEKO HAXY – ser imperfeita” codirigido com a cineasta Patrícia Ferreira, é professora da Academia Internacional de Cinema (RJ) e artista bolsista do programa Formação e Deformação – Emergência e Resistência 2019 da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (RJ).

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural pernambucano baseado no Rio de Janeiro. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.