Um vale de jade imenso rasgado
por ondulantes nuvens violeta
a flor do sangue da terra: o quadro
onde os olhos são luz o sem querer

Não se necessita ser abelha
para sabê-lo: o mel destas paragens
tem o delicado toque
do rosmaninho e do alecrim
a frescura da erva bravia
o gosto vincado do pólen vagabundo

A iminente explosão das giestas
orlando as encostas deslumbradas
tão silentes no seu sonho de incêndio
é porta aberta ao mistério maior

De tão pouco tudo por si cintila e basta
Como se acrescenta nova medida
à medida já perfeita? Lembra:
um estio redondo cabe inteiro
num olhar fremente de ternura

Não estranhes se recusares
o corpo do desejo a insustentável
carga dos cristais moídos
a sombra da longuíssima noite
de agudos punhais:

quando de tão nobres águas se bebe
o mão só tolera
o peso duma carícia


Pedro Belo Clara (Lisboa, Portugal, 1986). Ocasional prelector de sessões literárias, colaborador e colunista de diversas publicações portuguesas e brasileiras, autor de três blogues e de seis livros, entre poesia e prosa.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.