(pel)a cidade

um pequeno templo perdido, achado, escondido, reluzente, chamando-me suavemente em meio à cidade, no meio do miolo mais íntimo da urbe (essa orbe ao rés do chão, donde despontam pontiagudos edifícios), tão vasta, tão ocupada, com suas motocicletas, seus cheiros e suas hordas de turistas ávidos, apressados, anestesiados.

no templo, um homem. com sua camisa de mangas empapada em suor. por que mangas compridas, forasteiro?

a estátua dourada do buda. o tapete vermelho que feito sinal invertido aqui ao oriente, é um convite à humildade.

as mandalas circulares no teto de madeira escura encarnada, quase formando mandalas maiores, ou estrelas circulares de oito pontas: oito mandalas, e ao centro uma maior, todas douradas, como dourados os losangos que adornam as janelas de madeira preta.

costas à parede, meditando, frente ao ventilador (tanto calor em abril nestes trópicos que não são os meus; mas todos os trópicos também são meus, e o equador, e também os pólos), e após a meditação, feito personagem de Clarice, simplesmente sendo, ao lado da mulher em sua túnica branca que lê o jornal e não sabe quem sou, ou talvez saiba: que sei?

(pel)as praias

feito as birutas dos aeroportos, que de tanto chacoalharem pra onde o vento sopra viraram sinônimo de gente meio louca, é hora de seguir a loucura pra onde sopra o desejo. eu quero é me banhar. me encharcar. me afogar.

o porto se debruçando na foz do riozinho. o corpo leve: de dia, de noite, nadando, cruzando, mergulhando (descobrindo que dá para ouvir música embaixo d’água, com o celular na capinha), vendo cardumes enormes de peixinhos dançando na correnteza. na maré enchente e na maré vazante, a água sempre com gosto de sal. sim, eu bebo a água de onde mergulho pra saber o gosto. cada peixe com suas loucuras.

um píer para chamar de meu

um porto
uma praia, uma
paisagem inteira

um dia inteiro só meu
como se houvera sido
somente a mim
que ele se dera

aberto em tarde
em fruta em dengo
em sortilégios

da embriaguez
do mundo

os peixinhos mordem. talvez estejam defendendo esse território de nós, hordas de visitantes zumbis completamente enfeitiçados.

uma pequena baía rasa, uma rede pendurada à sombra, o mar ao fundo, e o silêncio. embaixo à mangueira, um recorte de céu como qualquer outro, mas único. o instante é sempre único, e laminamente pessoal.

o mar cantou-me
com sua voz talhada
em rugidos de mãe

uma canção
sem música

toda memória
(submersa)

sobre um barco
que se perdeu

simplesmente

porque perder-se
é um direito dos seres

há, pelo largo dessa praia, palmeiras de folhas com espinhos à ponta, e dão, lá no alto, uns frutos bojudos, de alaranjado vermelho, que lembram abacaxis, mas sem a coroa. os caídos ao chão se partem em gomos pela orla. têm cheiro bom, e um aspecto convidativo, quase voluptuoso. mas são duros a comer.

um lugar feliz
é onde se ouve
a risada de adultos
soando (ecoando)
como de crianças

(pel)as gentes

… e mesmo que eu não entendesse as palavras, o som me dizia algo que eu não conseguiria decifrar ali, tão cansado, mas que talvez se eu anotasse, foneticamente, talvez depois fizesse sentido, porque às vezes só depois o som e a fúria fazem sentido, e eu pedi uma caneta, rápido, angustiado em já perder os fonemas que não se grudavam na memória, e as crianças falavam, mas a senhora da venda não entendia que eu precisava — não queria, simplesmente: precisava! — de uma caneta, ou não tinha nenhuma, ou não se importava. talvez tudo junto. dentro da ausência: a memória. tento juntar cacos de fonemas, afiados e cegos, que cortam meus dedos sem sentido. sem sucesso. talvez depois…

epílogo

à beira do mar
à beira do abismo

(à) beira de tudo
porque tudo é beira

é preciso saber
quando seguir
e quando voltar


Thassio Ferreira (Rio de Janeiro, 1982). É poeta e contista, autor do livro de poemas (DES)NU(DO) (Íbis Libris, 2016) e de contos publicados nas antologias Prêmio VIP de Literatura 2016 (A.R. Publisher, 2016) e “Entre Amigos” (Sinna, 2016). Recentemente, seu livro inédito de contos “Cartografias” foi um dos pré-selecionados ao Prêmio Sesc de Literatura 2017. Tem poemas e contos publicados em revistas diversas como Philos, Germina, Mallarmargens, Revista Semeadura e Avessa.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.