eu tinha 16 anos a primeira vez que vi all about eve.
bette davis em seu auge, aquela obra prima do cinema mundial, finalmente entendendo várias frases que eram canonizadas e utilizadas em diversos contextos e que antes não entendia, fasten your seatbelts, quando eu tinha 16 anos, o almodóvar já tinha lançado todo sobre mi madre, um filme que dialoga com all about eve, um filme sobre outro filme, um filme sobre uma peça, um filme sobre atrizes que interpretam atrizes, it’s going to be a bumpy night, eu já quis ser atriz, talvez eu ainda queira, o palco, as luzes, com 16 anos eu era parte de uma companhia amadora de teatro, o frio na barriga antes de entrar em cena, desprender-se da máscara ao voltar pra coxia, confundir-se constantemente com os outros colegas do espetáculo, será que eles gostam mesmo de mim, será que eles estão atuando, fundir-se constantemente com os outros colegas de cena, me lembro daqueles exercícios que a diretora passava, todo mundo sentado no chão, de olho fechado, pertinho um do outro, sintam o corpo ao seu lado, toquem, explorem, procurem conhecer o colega de vocês pelas mãos, hoje eu vejo que aquilo foi o ensaio de uma suruba, mas na hora me entreguei ao exercício, passei as mãos por todos aqueles corpos, tão diferentes do meu, o teatro é uma forma de chegar ao outro, mas um dos colegas foi longe demais, me tateou muito, na hora pensei ser parte do exercício, mas não era, todo mundo de olho fechado, em silêncio, as respirações ofegantes, vários corpos de 16 no máximo 17 anos, a vida ainda não começou, as dificuldades ainda não chegaram, o mais difícil até agora é decorar as falas e não desmaiar na frente da plateia, o mais difícil é simular uma emoção, o mais difícil é a empatia, o teatro é uma forma de se tornar o outro, nem todos os colegas entenderam isso bem, cheguei em casa e me senti muito estranha, não conseguia saber porquê, hoje vejo que foi a primeira vez que entendi os limites entre realidade e ficção, não era possível, será mesmo, ele tinha se aproveitado da ficção para violar a minha realidade, mas naquele momento não pensei nisso, não pensei em nada, uma culpa latejante me invadiu, tomou conta dos meus dias, não conseguia mais relaxar nos ensaios, a linha tênue entre atuação e vida ficou embaçada, foi aí que vi o filme, a malvada, essa tradução horrorosa, porém ambígua, quem seria realmente a malvada, bette davis ou anne baxter, de alguma forma esse também era um filme sobre as fronteiras entre arte e vida, as atrizes em eterna tensão, bette davis estava fazendo o papel de bette davis, naquele momento eu também quis fumar, ela fumando era tão chique, era tão tudo, mas com 16 anos eu não tive coragem, era ainda muito medo, tudo estava muito distante, hollywood, os grandes palcos, as plateias lotadas, tudo isso se embaçava, e uma moça de 16 anos é muito pequena, pequeníssima, sou só uma filha, uma filha que poderia facilmente morrer em um acidente de carro correndo atrás de atrizes famosas buscando um autógrafo, ah, isso não, não antes de eu mesma me tornar mãe, é isso, preferiria perder um filho do que ser a filha perdida, eu mereço a dor, minha mãe não, mas naquela idade não havia como compreender, ainda hoje é difícil compreender, então desisti dos palcos, saí correndo da companhia para nunca mais voltar, me conformei a ser para sempre plateia, e fiz um curso técnico de enfermagem.


Bruna Kalil Othero (Belo Horizonte, 1995) é poeta e pesquisadora, autora dos livros de poesia Anticorpo (2017) e Poétiquase (2015), além de ter organizado a coletânea A Porca Revolucionária: ensaios literários sobre a obra de Hilda Hilst (2018). Seu próximo livro, ainda inédito, Oswald pede a Tarsila que lave suas cuecas, foi selecionado pelo Ministério da Cultura no Prêmio de Incentivo à Publicação Literária, 100 anos da Semana da Arte Moderna de 1922.

Posted by:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.