As ondas levavam conchas, pedaços de madeira, plásticos, restos de alimentos e inumeráveis objetos. Era um movimento permanente, então, era preciso estar atento à maré. Se levava tanta coisa, poderia levar uma criança descuidada brincando na beira do mar. Assim poderia ser em qualquer lugar, diziam. Foi ali que a menina cresceu, caminhando entre terra e água quase que diariamente, esperando o pai, os irmãos e os homens do mar retornarem com os pescados que seriam comercializados.
Quando completou os anos básicos de ensino, a mãe a mandou para a cidade, com as bênçãos do pai, para que pudesse continuar a estudar. Chorava todas as noites pelas lembranças da família, do cheiro do peixe e da areia que quase entranhava sua pele, como se fosse possível preencher seus poros. Ao abrir a veneziana do minúsculo quarto que habitava, jurava sentir a maresia em suas narinas. Era o mesmo odor salgado, de algas e sargaço que apodreciam ao sol. E se perguntava como poderia, dada a distância entre a nova morada e onde havia crescido, carregar memória tão real.
Se formou na universidade. Foi trabalhar na plataforma em alto-mar. Nada havia sido planejado daquela maneira, tudo aconteceu dadas as circunstâncias, mas era o mar, sempre o mar, ocupando a vida e cada passo de sua história. Mas aos poucos foi adormecendo dentro de si essa vivência, se perdia o seu encanto habitual: era uma fórmula química de moléculas, uma formação geológica, a zona costeira, nomes e expressões que a deixaram mais e mais distante da paisagem de seus primeiros anos.
Se antes retornava à vila familiar sempre que havia a possibilidade de descanso prolongado ou férias, sem que ela percebesse, as viagens se tornaram mais espaçadas. Mas quando chegava à sua aldeia, já não voltava à praia onde havia catado conchas, se banhado e aguardado o retorno do pai da jornada de pesca. Se limitava à casa – melhorada com os recursos que enviava – que abrigou seus pais na velhice. Cada irmão havia seguido seu caminho: um foi viver em outro país, outro deixou a pesca quando pôde comprar uma carreta de transporte, e a mais velha foi ser professora no interior. Mas nessas visitas de sua vida adulta permanecia o menor tempo possível, por se sentir pouco conectada àquele passado. Pensava nos amigos, no namorado, no dinheiro que poderia ter se fosse dedicada ao emprego. Pelas próprias ambições insistiu, inclusive, para que os pais deixassem o local e fossem viver na cidade, sem nenhum êxito.
Depois que eles morreram, a casa permaneceu fechada, esperando um comprador. Ela sabia das dificuldades que teriam: há anos se falava no avanço do mar sobre a vila, destruindo ruas e casas mais próximas à linha da costa. A de seus pais ficava a centenas de metros da praia, talvez estivesse a salvo da erosão, mas não da calamidade econômica que se abateu com o fechamento das poucas pousadas e o deslocamento de parte da população para outros lugares.
O fato é que quando foi demitida, após uma década de trabalho na plataforma, tinha uma quantia razoável que lhe permitiria viver um ano sabático, sem se preocupar com emprego, tampouco com a venda da casa dos pais. Arrumou as malas e retornou à vila. Ao chegar, teve a sensação de que ali já não vivia mais ninguém. E, ao se aproximar da casa, entendeu o porquê do deserto humano que havia se instalado. Parte da rua havia sido engolida pela erosão, e não faltavam muitos metros para que a água do mar encontrasse a casa e dela fizesse o que fez das demais.
Mas o calor era diferente e o que mais a incomodava.
Será que está mais quente, ou é a paisagem da memória, na distância dos anos, que é mais fria?

Nada do que você aprendeu na universidade parecia ser útil agora. Ou servia apenas para aumentar a sua agitação. Ao adentrar a casa e ver o estado das paredes úmidas e corroídas pelo salitre se apavorou, e chegou a achar que não permaneceria ali nem mais um dia. Mas logo esqueceu o que havia decidido há poucos minutos: espanou a poeira dos móveis e retirou as cortinas para serem lavadas. Voltou a pensar na partida quando percebeu que a internet era intermitente, e passava mais tempo desligada que funcionando. Mas nem esse problema foi relevante para que tomasse a derradeira decisão. Logo estava enfeitiçada pela canção da natureza, envolvendo tudo, como um grito que atravessa a atmosfera e deixa maravilhada a mais inútil criatura.
Mesmo a casa se revelava uma entidade viva, pulsando pela matéria que a formava. E se ao adentrar nela mergulhou nas lembranças da infância, as reminiscências não se sustentaram por muito tempo, se esvaíram pálidas como uma duna de areia.
Com o tempo você percebeu que havia vida pela cidade, que muitos resistiam, esperando pela próxima casa a ser devorada pelas águas. Que não se importavam com a iminência do fim. E se tudo parecia assustador num primeiro momento, ao escutar o ronco que a alcançava no silêncio do lar, nos sonhos, no marulho das ondas e na agitação permanente e cada vez mais próxima, no mais misterioso pensamento íntimo refletia a beleza dessa marcha inexorável. Na certeza da morte, de que nenhuma dor é para sempre, é que pôde sentir a paz.
Não haveria governo, não haveria guerra, não haveria mentira, não haveria maldade, não haveria ódio, nem mesmo um tiro da mais poderosa arma, que resistisse à erosão lenta e permanente.
Foi assim que permaneceu, estoica, à espera do fim. Até que o mar mudou seu movimento.


Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, em 1979. É autor da coletânea de contos “A oração do carrasco” (2017), finalista do Prêmio Jabuti de Literatura. Tem contos traduzidos e publicados em revistas especializadas na França e EUA. Seu mais recente trabalho é o romance “Torto Arado”, vencedor do Prêmio LeYa 2018.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.