Um dia de múltiplas comemorações marcou os 69 anos do Mestre Zé Negão. O baluarte recebeu mestres, artistas e brincantes, no último sábado, 10 de agosto, no Canto das Memórias Mestre Zé Negão, situado no loteamento João Paulo II, em Camaragibe (PE). Confraternizaram com Zé Negão os mestres: Ciriaco; Galo Preto; Zé Maria; Tio Antônio; Antônio; Juarez e Ulisses, além do Maracatu de Baque Solto Cruzeiro do Forte; Lia de Camaragibe, Dona Maria de França; dos grupos Chinelo no Chão e Coco Kpoerê.

Cleiton Lima PE
Mestre Zé Negão por Cleiton Lima PE

Na ocasião foi comemorado também os 16 anos do Laboratório de Intervenção Artística (Laia) e os 13 anos da sua Sambada, ambas ações idealizadas pelo Mestre, que traz consigo a forte e notável presença de seus ancestrais, tanto em sua aparência quanto em sua forma de expressão, o que o fez um mestre extraordinário e admirável. Sua voz marcante, sua vitalidade e energia encanta a todos.

Mestre Zé Negão é músico, compositor, percussionista, educador, artesão e líder comunitário. Traz em seu mangaio o Coco de Senzala, atualmente o único expoente dessa vertente de Coco aqui no Estado. Essa tradição foi herdada de sua terra natal e de seus ancestrais, este brinquedo faz referência aos antigos costumes de seu povo, versando sobre a lida com a terra, sobre as dores do trabalho escravo e as alegrias das libertações. O coco é acompanhado por atabaques, congas, alfaias, mochila, pandeiros, berimbau e caxixis e/ou ganzá.

infância

Mestre Zé Negão nasceu em 1950, pelas mãos de Dona Eunice, parteira local, próximo a esquina do antigo poço dos holandeses, no município de Goiana, Mata Norte de Pernambuco. Descendente de avós escravizados, Zé Negão passou sua infância e adolescência trabalhando como cortador de cana nas usinas da região. Naquele universo ouviu pessoas mais velhas cantarem coco, congo, cavalo marinho e ciranda. Incentivado também por sua tia, D. Armira, que sempre festejava em uma brincadeira local intitulada “Pretinhas do Congo”. Essa expressão cultural é parecida com o Coco. O tempo passou e logo o mestre foi adquirindo respeito e admiração pela cultura tradicional e popular, tornando-se um brincante e aprendiz, entendendo a ancestralidade das manifestações populares do seu povo e seus meios de existência.

 

cultura e política

Militante e ativista político, há 40 anos Mestre Zé Negão deu início ao Projeto Negão, através dele formou grupos de percussão e dança, ministrou oficinas e palestras e realizou uma série de ações culturais na comunidade. Figura quase singular na cidade, o Mestre Zé Negão passou, em 2006, a integrar o Laia (Laboratório de Intervenção Artística), onde atua como coordenador e articulador comunitário além de ser um dos principais responsáveis pela fundação e acontecimento da Sambada da Laia, ação que comemora os aniversários de Mestras e Mestres e também reúne mensalmente brincantes da Cultura Popular do Estado em um espaço dedicado a sua difusão e preservação no Território Periférico. Incansável, há cinco anos criou o Espaço Museal e Comunitário Canto das Memórias Mestre Zé Negão

prêmios e homenagens

  • 2008 Reconhecido como Griô de tradição oral pelo Ministério da Cultura;
  • 2011 Homenageado pelo Governo do Estado de Pernambuco;
  • 2017 foi o homenageado no Ciclo Junino da cidade de Camaragibe/PE;
  • 2018 Contemplado nos prêmios estaduais Ariano Suassuna, Ayrton de Almeida;
  • 2018 Agraciado no prêmio Nacional Culturas Populares os quais legitimam a relevância do Coco de Senzala para o patrimônio cultural imaterial nacional

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.