As revoluções atlânticas

As revoluções atlânticas afetaram a América Latina não apenas pela força de seu exemplo, mas também por seus impactos geopolíticos. Assim como a Revolução Americana desencadeou indiretamente sua versão francesa, a Revolução Francesa desencadeou, também de forma indireta, as lutas de independência na América Latina.
Os hispano-americanos prestaram muita atenção também às lutas haitianas que após três revoluções, demonstravam não apenas a independência pela erradicação do antigo regime absolutista dos Bourbons; mas a derrubada completa da escravidão, a destruição da economia de plantation mais rica do mundo, a implantação do governo dos negros e mulatos e, não coincidentemente, a aniquilação da população branca (Blackburn, 1988).

Nos anos de 1807 e 1808 as forças francesas invadiram e ocuparam a península ibérica, derrubando a monarquia espanhola e causando o exílio da corte portuguesa para o Rio de Janeiro. O cenário apresentava aos hispano-americanos algumas questões urgentes: aceitariam a conquista pela frança da Espanha? Rejeitariam o governo francês e permaneceriam leais à monarquia deposta? Ou seguiriam os exemplos da América do Norte e lutariam pela independência? Por isso os desdobramentos das experiências haitianas foram amplamente difundidos em toda a América Latina, entre as elites, as camadas populares, os escravos e as populações originárias (Córdova Bello, 1967).

Não é tarefa fácil estabelecer um critério com que demarcar o momento em que uma região ou território se transformará numa nação – a identidade nacional não é tão transparente e tão livre de problemas como acreditamos. Mas é possível demarcar o tempo-espaço desses acontecimentos na América Latina.

Os movimentos de independência hispano-americana não se originaram nos principais centros de trabalho forçado, africano e indígena, mas nas periferias, onde havia mais mestiços que indígenas e brancos, além de mais negros e mulatos livres que escravos. Em Buenos Aires, Caracas, Bogotá, Santiago, Cartagena e Calo, convocados por elites locais, esses grupos tomaram o poder das autoridades espanholas em 1809 e 1810, dando os primeiros passos para a criação de novas nações.

As informações do sucesso das investidas haitianas chega às periferias e torna clara as forças explosivas das sociedades fundamentadas no trabalho forçado, racialmente demarcado, e os fatores de risco de se fazer oposição e derrubar a autoridade central dessas sociedades.

Os movimentos na Hispanoamérica e Brasil

Por toda a América espanhola, a desordem e o tumulto das guerras deram aos escravos oportunidades sem precedentes para buscar seus próprios objetivos e interesses. Toda colônia do Novo Mundo que conquistou a independência pela guerra enfrentou a questão de armar ou não os escravos. Lutando por sua liberdade, os escravos desempenharam um papel fundamental na conquista da independência da América do Sul espanhola e, assim, desencadearam os processos de emancipação gradual.

Na Argentina, os federalistas conservadores e os que apoiavam um governo nacional centralizado, “unitário”, lutaram pelos apoios dos escravos e dos negros mulatos livres. Enquanto os unitários denunciavam o ditador federalista Juan Manuel de Rosas (1793-1877) pela continuação da escravidão e reabertura do tráfico de escravos. Rosas cortejava assiduamente as “nações” africanas, promovia negros e mulatos livres a posições de comando do exército e se colocava como protetor benevolente da população afro-argentina. Essas táticas, combinadas com a repressão implacável de seus inimigos, parecem ter sido eficazes na consolidação de apoios ao regime de Rosas. Um grande número de africanos e afro-argentinos servia em seus exércitos. Quando Rosas foi abatido pelas forças unitárias em 1852 e exilado, um dos maiores desafios enfrentados pelos unitários foi romper a conexão entre o ditador e seus partidários. A solução encontrada fora conquistar essas camadas, abolindo a escravidão na Constituição de 1853.

A guerra foi evitada no Brasil, em Cuba e em Porto Rico, uma vez que as elites não estavam interessadas em replicar as experiências do Haiti. Entre a década de 1790 e início de 1800, os governos de fazendeiros dessas colônias aproveitaram as oportunidades criadas pela destruição da economia açucareira do Haiti para aumentar drasticamente seus níveis de produção de açúcar e tráfico de escravos africanos. No Brasil, esses movimentos iniciais ocorreram por uma campanha maciça de desobediência civil, realizada em conjunto com os abolicionistas com base na população livre; como exemplo, a Revolução Pernambucana, de 1817, de caráter emancipatório.

O Caudilhismo e os movimentos autoritários

As disputas e investidas territoriais criaram a figura dos revoltosos liderados por forças que detinham à confiança dos locais, dos escravos e das camadas mais marginalizadas. Surgem os caudilhos, lideranças políticas populares que conseguem profunda admiração de seus séquitos das massas. Sendo essas manipuladas por essa liderança política. Essa figura perpassa também os conceitos da formação da identidade cultural latinoamericana a partir desses movimentos emancipatórios.

Tal concepção de identidade cultural teve um papel crucial nas lutas pós-coloniais que transformaram nosso mundo latino tão profundamente. Ela está no núcleo da visão do projeto político pan-africano, por exemplo. A concepção de identidade cultural continua sendo uma força muito criativa e poderosa em formas emergentes de representação entre povos ainda marginalizados. Nas sociedades pós-coloniais regidas pelos movimentos mais ditatoriais, a redescoberta dessa identidade, em geral, é objeto do que o pesquisador Frantz Fanon (1968) chamou de:

[…] procura apaixonada […] orientada pela secreta esperança de descobrir, para além da miséria atual, do desprezo por nós mesmos, dessa demissão e dessa renúncia, uma era extraordinariamente bela e resplandecente que nos reabilite ao mesmo tempo aos nossos próprios olhos e aos olhos dos outros.

Novas formas de práticas culturais nessas sociedades buscam esse projeto pelo simples motivo de que, como disse Fanon, no passado recente “ao colonialismo não basta encerrar o povo em suas malhas, esvaziar o cérebro colonizado de toda forma e todo conteúdo. Por uma espécie de perversão da lógica, ele se orienta para o passado do povo oprimido, deforma-o, desfigura-o, aniquila-o”.

Esses movimentos se ampliam e mostram sua permanência histórica, têm tido um papel crucial na emergência de muitos dos mais importantes movimentos sociais de nossas épocas – feminismo, anticolonialismo e antirracismo.

O perfil autoritário e paternalista, como autoridade política local, do “caudilho” – presente desde as primeiras décadas do século XIX até o início do século XX, surge no processo de independência das nações latinoamericanas que não assumiram o regime imperial. A partir disso, e das guerras por independência, o caudilhismo surge como um modelo político de sucessão da administração colonial.

Com o sucesso das investidas pró-independência, os líderes militares passaram a assumir a estrutura político-administrativa dos locais recém-libertados, no processo de expansão e emancipação das nações latinoamericanas. Não sendo este um modelo político estruturado, não apresenta princípios ideológicos definidos ou mesmo organizados, tendo o caudilho a “responsabilidade” de assumir uma figura autoritária e opressora aos demais, sejam eles liberais, progressistas ou de qualquer movimento contrário ao processo repressor que empenhavam.

A falência do caudilhismo como modelo se deu nos primeiros anos do século XX, quando a revolução tecnológica e os fenômenos de migração dos povos, diásporas modernas e os movimentos de migração das populações europeias para a América Latina, fazendo com que algumas reformulações do processo “caudilhistas” fossem empregadas para que assim, se adequasse aos processos políticos que se instalavam. Esse movimento trouxe, de certa maneira, o enfraquecimento dos poderes regionais e a centralização deles numa estrutura estatal. O que motivaria, décadas depois, os regimes ditatoriais que tomaram a América Latina – as milícias regionais se instituem parte da Guarda Nacional, assume o poderio armamentista e configuram sua manutenção nas estruturas políticas e sociais das nações; a saber dos movimentos autoritários no Estado Novo de Getúlio Vargas, por exemplo.

É preciso pensar também na cartografia da hipótese caudilhista e seus desdobramentos na composição de estruturas até mesmo culturais. A essas relações de poder autoritárias, trata-se de um componente propriamente cultural quando se observa do ponto de vista de uma reflexão filosófica propriamente latino-americana, para além dos inventos de um movimento de construção de novas repúblicas fundamentadas em princípios de soberania popular, igualdade racial e política original baseada nas histórias, capaz de trazes à luz as obscuras potências desses movimentos emancipatórios e suas figurações vorazes e ditatoriais. Não é suficiente, portanto, mergulhar no passado do povo para aí encontrar elementos de coesão em face dos empreendimentos falsificados e negativos do colonialismo.


Jorge Pereira é curador e editor-chefe da Revista Philos.


Bibliografia: [1] BLACKBURN, Robin. Overthrow of Colonial Slavery, 1776-1848. Nova York, Verso, 1988, pp.161-264. [2] CÓRDOVA BELLO, Eleazar. La independencia de Haiti y su influencia em Hispanoamérica. México, 1967. [3] ANDREWS, George Reid. América afro-latina (1800 – 2000). Tradução de Magda Lopes. São Carlos, São Paulo: Editora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), 2014, capítulo 1, pp. 83-116. [4] FANON, Frantz. Sobre a cultura nacional. In “Os condenados da Terra”. Tradução de José Laurêncio de Melo. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1968, p. 174 – 175. [5] GEGGUS, David P. The Impact of the Haitian Revolution in the Atlantic World. Columbia: The University of South Carolina Press, 2001.

Posted by:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.