Estou sentado no banco de concreto da quadra e penso no seu dente meio quebrado. Um pedaço mínimo de intimidade que demorei um ano para receber. Uma ausência tão pequena, tão quase já no escuro da boca, e que, por isso, pôde se tornar minha. E nossa.
Hoje eu soube que reprovei por falta. Quando me encontraram, lá perto da outra quadra, a que fica perto do banheiro masculino, já tinham me procurado na sala de aula, no estacionamento, nos corredores. Eu sorri quando vi a coordenadora chegando, sabia que não era notícia boa, nunca era, não pra mim. Não pra gente. Fui seguindo e sorrindo, reparando em tudo. Avisos pelas paredes, portas bege, bebedouro sujo.
A sala era pequena, cheia de intenções e dedos. Eles te pegam pra matar, mas você sabe que não morro assim. Ouvi o que queriam me falar, escutei sobre todas as evidências dos meus absurdos. Os absurdos, Davi, eles nunca tiveram fim. Você não melhorou. Mesmo depois de tudo que aconteceu. Reprovou o segundo ano, se meteu naquilo tudo, causou uma baderna horrível, Davi. Não vamos nem chamar sua mãe, Davi. Porque não tem mais recuperação, segunda chance. Você tá entendendo, Davi? Eu tô entendendo sim, tô sim. Eu sorri.
Eles ficaram com mais raiva. Me entregaram uma folha com carimbo, assinatura, me disseram que já podia ir. Vim sentar aqui no banco de concreto da quadra. A primeira vez do seu dente, dentro dos meus olhos, em interrogações.
Estou pensando em você, não só no seu dente. Por seis meses, fomos dois excluídos. Mas que alívio foi a exclusão acompanhada. Antes de você, tudo era uma camisa cheia de botões, uma daquelas camisas que um pai veste. Tudo era um quarto pintado de verde floresta. Todas as coisas eram feitas de bustos de homens que se conhece em metal, concreto, talvez mármore? Homens com bustos em praças. Homens com nome e sobrenome endereçando ruas.
Eu não entendia nada antes de você.
Nosso banco de concreto me faz pensar no seu cabelo crespo muito baixo, inspirado em algum desses homens que indicam as modas do futebol. Lembro agora, nesse injusto momento, das palavras que saíram tão calmas ao encontro do meu rosto. Davi, isso é normal. Calma. Mas como é normal? Você não entende, você nunca que ia entender, Welligton. Eu exclamando contra você. Você nunca que ia entender. E seus olhos tentando segurar uma risada. Eu entendo sim, Davi, eu também sou. É? É como? Eu nem sei o que é isso, como você é? Bi, Davi. Eu sou bi que nem você.
Bi.
Sexual.
A palavra lenta na minha cabeça.
Não conseguindo correr atrás da sua figura vestida com camiseta do Icasa, bermuda de tactel, chuteira, cabelo raspado, brinco na orelha, corrente de prata, sorriso de canto de boca, todo um rascunho. Mas quando te alcancei, depois do silêncio que nunca vou conseguir recontar, o seu dente quebrado apareceu pela primeira vez.
Como é possível que dois sejam amigos por um ano, comam juntos na escola todos os dias, saiam com garotas, juntos, em tantos finais de semana, falem sobre a família, conversem sobre filmes e compartilhem aqui e ali algumas bandas, mas um dente meio quebrado nunca tenha dito oi? Nem quando você ria de chorar ouvindo Sweet Child O’Mine e eu dançava ridículo.
Olha, mesmo com todo o sofrimento que surgiu, eu agradeço todos os dias pelo sonho que me fez tão angustiado ao ponto de te falar que eu não sabia o que estava acontecendo. O sonho com as garotas da escola que saíam do quarto e deixavam a porta aberta para que dois desconhecidos entrassem e tirassem minha roupa. Só mais um de muitos outros, só mais um motivo, uma dúvida, no meio de uma vida toda, não que seja longa, de momentos em que me apaixonei por outros meninos e não soube dizer que aqueles gostares não eram eu quero ser como ele eu admiro o jeito como ele toca guitarra eu acho que ele é muito inteligente.
E, sabe, é tão fácil perder o fio dessa costura torta. Gostar de Aline, gostar de Fábio. Sonhar meu último sonho, não aguentar os botões, os bustos e gostar de você, Welligton. Welli. Dentinho meio quebrado.
Agora que estou aqui, reprovado por falta, com o ano perdido em dois sentidos diferentes, excluído de tantas formas e sozinho, eu penso nos seus pés cheios de calos e bolhas. Eu lembro de como você voltava do treino, entrava na minha casa dando boa noite pra minha mãe e, depois que fechava a porta do meu quarto, pra gente, claro, jogar videogame, seus pés paravam no meu colo. E, como se minha mãe soubesse, ela trazia a comida com a anunciação vinda de longe toda Davi abre a porta eu tô com a mão ocupada é a janta é o almoço é a merenda vai logo não sou tua pariceira. Nós dois soltávamos o beijo.
Eu nunca quis te soltar.
Quando a gente está num cômodo muito pequeno, todo fechado, e as paredes são verde floresta, e tudo é botões e sobrenomes, a gente não quer soltar quem abre um buraco na parede junto com a passagem. Mas você sabe, eu sei, todo mundo que finge não saber também sabe. Não cole a vida de alguém na sua vida.
Welli, você cansou de ter sua carne superbondeada na minha. E tudo bem, hoje tudo bem. Mas estou aqui pensando em tudo que fiz quando senti a dor, a primeira dor que parecia martirizante e que me fez pensar é isso então, minha alma vai escapar pelos meus ouvidos, eu não consigo, eu vou bagunçar tudo. Eu realmente usei essa palavra nos meus pensamentos. Bagunçar.
A coordenadora disse que os absurdos nunca tiveram fim, que mesmo depois de tudo que aconteceu. É verdade, Welli. Mesmo depois que bati na porta da sua casa de madrugada, mesmo depois que falei para sua mãe que você tinha se afastado de mim, mesmo depois que ela pensou que era coisa de amizade e eu forcei ainda mais, até que seu pai entendeu que não era amizade, mesmo depois que você teve que explicar que gostava sim de mulher, mas eu liguei pra sua casa e falei Dona Meire você sabe o que é bissexual, bi-cê-qui-su-a-u, o Welligton gosta de homem também, gosta de mim, bêbado, bêbado, e depois que desabafei com vários colegas de sala, que fingiram entender, mas já eramos excluídos, já desconfiavam, foi só deboche, e você não apareceu mais na escola, eu fiquei sozinho, não assisti mais aula, você sumiu, minha família também soube, também sabe, eu não sei onde você está, eu mal sei onde eu estou.
Estou aqui. No banco de concreto. Nosso banco. Pensando no seu dente meio quebrado, no seu cabelo crespo, na sua camiseta do Icasa, nos seus pés cheio de calos, no seus olhos que riam, na sua risada dançando com “And if I’d stare too long, I’d probably break down and cry”.
Uma ausência tão grande.


Jarid Arraes (Juazeiro do Norte, 1991) é escritora, cordelista, poeta e autora dos livros “Redemoinho em dia quente”, “Um buraco com meu nome”, “As Lendas de Dandara” e “Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis”. Curadora do selo literário Ferina, atualmente vive em São Paulo (SP), onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres e tem mais de 70 títulos publicados em Literatura de Cordel.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.