Diante de Álvaro, quatro galpões: Capela A, Capela B, Capela C e Capela D. Todos de concreto, numa rua barulhenta, perpendicular ao cemitério. Partes do reboco sem casca, fios soltos nas paredes. No chão, pétalas de flores e asas de barata. Nem lâmpadas nem cadeiras, em compensação, garatujas de umidade em paredes ensebadas. À entrada, um arco largo e sem porta. Em frente a cada capela, uma espécie de antessala, quase uma varanda. Mulheres sobre um parapeito de cimento com leques de papelão nas mãos – prenda de uma famosa marca de cerveja – por causa do mormaço antes da tempestade. O céu baixo.

Os galpões em semicírculo como num teatro de arena, as pessoas ao redor de seus mortos em silêncio e de pé, as mãos suspensas em gestos interrompidos como personagens esquecidos em cena depois do espetáculo.

Todas as capelas em uso. Álvaro, indeciso diante da Capela B, a dela. No centro, o caixão aberto, o corpo da amada numa exaltação de crisântemos e círios. Só o rosto de fora. Muito branco, quase de cera. Soluços contidos e silêncios prolongados. Volta e meia, um fiapo de conversa ou uma breve irrupção de choro.

Lá fora, o movimento, o mormaço e o barulho da rua, avessos ao decoro do luto: Carros, buzinas, freadas, um vendedor ambulante: água-guaravita-mate-gelado. No sinal, um ônibus para a rodoviária. Uma televisão ligada em algum lugar: O seu sorriso ainda mais branco com o novo colgate Plax Whitening Tartar Control… Xingamentos: Porra, mermão!!! Nuvens passando pelos retrovisores dos carros, o trânsito engarrafado, a primeira rajada de vento.

Na capela B, Álvaro, pálido, agora ao lado do corpo. Dentro dele em duelo mortal, a dor e a raiva, o estômago, visivelmente enjoado. Maldito bife acebolado!

Súbito, uma mão quente no seu braço. O viúvo. Entre Álvaro e a amada, como sempre na vida e agora, na morte. Pêsames entredentes. Hm.

Os dedos do viúvo sobre a máscara de cera, algo descontrolado aí nesse gesto, um carinho meio desgostoso, meio apavorado. Pressão demais no polegar sobre os olhos, direto sobre os olhos. Álvaro, em silêncio. Mas dentro dele, no fundo, um grito antigo: Nossa! Cuidado! Mais cuidado, por favor!

De repente, uma carreta em frente ao cemitério. A carga pesada coberta por uma lona: Caixões. Caixões vazios. A carreta, entalada na curva bem em frente à capela. O motorista empapado de suor apesar do vento, um tiquinho para frente, um tiquinho para trás, num vaivém macabro. A carga, bamba. O pessoal nas capelas sem jeito, entre a imobilidade e o riso. Todos na espreita, “A carga! A carga!”, os olhos pregados na rua, as bocas entreabertas, como numa torcida: a perseverança do motorista contra a estreiteza da rua.

No fim, um alívio coletivo, o caminhão estacionado, os caixões nos lugares, as pessoas de volta à ordem das capelas, cada vivo com seu morto.

Álvaro, depois daquela confusão, agora sozinho bem perto do caixão. Quando, súbito, duas evangélicas com camisetas “Jesus-te-ama” e em folhas de papel com letras colossais: a oração para a morta. As mulheres ali, sem convite nem vergonha. Fora de hora e de propósito. Umas penetras. As penetras da prece. Para Álvaro, mais um estorvo, mais um obstáculo entre ele e a morta. E depois da reza, o caixão fechado, a procissão, tudo tão rápido e Álvaro para trás com a carta de despedida no bolso e o cansaço de toda uma vida com aquele amor tijolo no peito.

Com uma mão no bolso em volta da carta amassada e o outro braço em riste: um derradeiro aceno: adeus.


Carla Bessa é escritora e estudou teatro na UNIRIO e na Casa de Artes de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Em seguida, emigrou para a Alemanha onde trabalhou 15 anos como atriz e diretora. Hoje, vive em Berlim e é tradutora literária alemão-português do Brasil. Traduz autores renomados da literatura contemporânea alemã para as editoras WMF Martins Fontes e Estação Liberdade, ambas de São Paulo. Foi condecorada com várias bolsas de tradução e residências literárias na Europa. Estreou como escritora em 2017 com o livro de contos, “Aí eu fiquei sem esse filho”, pela Oito e meio, e tem vários contos publicados em antologias e revistas na web, além de escrever regularmente resenhas para o Jornal Rascunho. Em 2019 foi condecorada com o 3° lugar na categoria Conto do Prêmio Off-Flip de Literatura. O conto Sem verbo faz parte de seu novo livro, Urubus, lançado no âmbito da Flip 2019, pela Confraria do vento.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.