Foi um caminho acidentado até aqui, ele pensa. Mais um emaranhado de descaminhos. Como aquele joguinho que ele me mostrou no minigame, antes dos celulares dominarem o mundo, como era mesmo? Peças de formatos recortados caíam do alto da tela e a gente precisava encaixá-las, cada vez mais rápido, e quando as peças encaixadas completavam fileiras horizontais a fileira desaparecia, e a gente ia encaixando aquela porra tentando impedir que se amontoassem até o alto, cada vez mais rápido, mais rápido, era um inferno aquele jogo. Tetris, eu acho. Quando as peças não encaixadas se amontoavam até o topo da tela a gente perdia, e tinha que começar de novo. É, foi assim com a gente, ele pensa, ligeiramente animado com a nova metáfora, que considera mais elaborada que a primeira. Nós dois tentando encaixar nossos recortes, nossos ângulos, nossas quinas, tentando aplainar, e amontoando um monte de peças até um ponto em que era necessário começar de novo, fingir que limpávamos a tela e que as peças desencaixadas não continuavam lá, em algum lugar: nas mãos subitamente em trégua e cansaço, no fundo das línguas, em vez de na ponta, nas paredes da vesícula biliar dele, que a minha já não tenho. Sei lá.

Ele gosta de usar palavras do seu tempo de engenheiro do exército, como aplainar, no meio dessas divagações que cultiva com esforço quando está com o filho, tentando se conectar com ele, nada engenheiro, nada militar: tentando encaixar sua dureza naquele mundo sensível que ele até hoje não entende bem como o filho construiu para si.

Percorrem a exposição em silêncio. O filho muito concentrado, atentíssimo a cada fotografia. Ele mergulhado em si, observando as molduras apenas o suficiente para estar ali, junto do filho. Participar do mundo daquele homem que ele ama de um jeito incompreensível para si mesmo. O silêncio entre os dois: um misto de trégua e carinho. O cansaço de tantas diferenças amontoadas que eles insistem em tentar conciliar, porque esse amor incompreensível pede sem fim, e cansa muito não conseguir desamar quando o amor é tão complicado. Mas o cansaço não cansa. O amor: maior. E por vezes o silêncio que aplaina mais que as palavras.

– Pai, tem uma exposição. De fotos. Quer ir comigo?

A coreografia já dançada outras vezes, com variações. Depois das surpresas que impôs ao pai para chocá-lo, ele agora sabe que provavelmente virá a pergunta sobre do que se trata a exposição. E sabe também, com muita calma, com a vontade do amor maior que o cansaço do amor, que se a pergunta não vier, como não vem, ele terá a força e a disciplina de lhe dizer, como diz – com muita calma, com a vontade do amor: o artista se chama Alair Gomes. São fotos que ele fez nos anos setenta e oitenta de rapazes se exercitando na praia de Ipanema. Talvez ele não devesse dizer rapazes, pensa antes mesmo de terminar a frase. Conhece os fantasmas que rondam o pai, aquelas velhas ideias: monstros no armário tocaiando jovens desprotegidos, desvirtuando-os, como há tempos ele ouviu o pai dizer que fora seu caso, entre acusatório e suplicante que ele admitisse que sim, que ele fora desvirtuado, um jovem inocente, logo ele: menos inocente do que engenheiro. Apressa-se em tentar uma outra forma de dizer, um outro encaixe: aquela época em que a galera começou a malhar, sabe? Tinha uns aparelhos na praia, mais simples do que os de hoje, e os caras – cara é uma palavra menos inocente, menos alarmante – faziam barra, abdominais em pranchas de madeira. O Alair tirava várias fotos e depois juntava de um jeito que sugere uma história, como se ele narrasse algo com as fotos. Ficaram bem famosas. Os truques. Os gatilhos que ele já conhece: dar nomes aos fantasmas, para que assustem menos o pai, e trazê-los à claridade da fama, essa legitimação quase absoluta dos nossos tempos.

Um pedaço de silêncio. Tentando se encaixar.

– Eu vou.

Ele hesita um pouco. É sempre difícil saber o quanto dizer. Que os rapazes estão sempre em sunga, ou pelo menos sem camisa. Que as composições no mais das vezes sugerem uma tensão sexual criada pelo fotógrafo. O Alair. Mas ele cala. O cansaço. Afinal, o que se espera de fotos na praia? Daquele filho que já tanto disse, gritou, cuspiu tantas palavras. O pai sabe, ele pensa. Ou que tire suas próprias conclusões.

O pai sabe. Não completamente, mas sabe. O que não sabe, pressente, encaixando as palavras, os silêncios, o passado. E vai. Esforçando-se naquele exercício de amor: amoldar suas fronteiras às do filho. Rapazes exercitando-se na praia, pois bem. Vamos. Eu vou.

Em silêncio, ele se aproxima do filho, que admira mais demoradamente uma sequência específica de fotos. Não lhe interessa muito, a princípio, aquelas três imagens na moldura, como nenhuma das outras. Interessa-lhe o filho. E reconhece nele pequenos sinais cujo significado já aprendeu, a contragosto. O rapaz passa a língua nos lábios, discretamente: primeiro o de cima, depois o de baixo, sem intervalo. Recolhe a língua. Tem o olhar vidrado mirando as fotografias. Sorri de leve, inclinando a cabeça. Aperta com a mão direita a falange do dedo médio da mão esquerda.

A coreografia já dançada outras vezes, com variações. Antes que sua disciplina de engenheiro, de militar, possa impedi-lo de olhar o que prende a atenção do filho, ele olha, talvez numa esperança eternamente frustrada – e que ainda assim insiste em subsistir – de ver o que nem mesmo acredita que verá, e que ali, em meio àquelas fotografias, é ainda mais improvável. Talvez uma vontade atávica de entender o filho, quem sabe um dia ele consiga, num lampejo qualquer, entender: o desejo daquele homem tão carne da sua carne mas tão diferente dele, ali defronte a uma imagem em preto e branco que ele pressente como quem sabe – ele já sabe há tanto tempo – do que se trata.

Ele mira a foto: o rosto de Valter mirando o espaço para fora da moldura. Algum ponto atrás de seu ombro esquerdo, parece. O Valter? Sim, ele reconhece, sem nenhuma dúvida: o Valter. E um rapaz ao lado dele, o corpo (teso) em perfil, o rosto em direção oposta, olhando para trás de Valter, para o fundo da foto, quase totalmente de costas, mas ainda reconhecível, ao menos para ele: ele. Ambos de calças e sem camisa, um dia qualquer em Ipanema, saindo do quartel, ele nem lembrava que um dia, mas lembra. Ele. E o filho que olha sua foto, pés descalços na areia, o corpo alongado ao sol, aquele rapaz dos anos setenta ou oitenta preso numa fotografia de quem mesmo, qual a porra do nome desse fotógrafo que o meu filho me trouxe para ver, e o filho novamente passa a língua nos lábios, discretamente, primeiro o de cima, depois o de baixo, enquanto aperta com a mão direita a falange do dedo médio da mão esquerda.

(peças caem muito mais velozes do que ele é capaz sequer de tentar encaixar, até cobrirem toda a tela)


Thássio Ferreira (Niterói, Rio de Janeiro, 1982) escritor radicado no Rio de Janeiro, publicou os livros de poesia (DES)NU(DO) (Ibis Libris, 2016) e Itinerários (Ed. UFPR, 2018). Editor e curador da Revista Philos de Literatura Neolatina. Tem poemas e contos publicados em revistas (virtuais e impressas) e antologias, como a Revista Brasileira (nº 94), da Academia Brasileira de Letras, Escamandro — poesia tradução & crítica, Gueto, Mallarmargens e Germina. Seu conto “Tetris” foi o vencedor do Prêmio Off Flip 2019, e seu livro inédito “Cartografias”, finalista do Prêmio Sesc 2017. Participou da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) em 2017, a convite da Liga Brasileira de Editoras — LIBRE, e em 2018 e 2019 como realizador e debatedor da Casa Philos.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural pernambucano baseado no Rio de Janeiro. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.