A América me faz pensar no livro Le Passe Murraille, de Marcel Aymé, cujo conto principal descreve a existência de um burocrata capaz de ultrapassar paredes e muros. Tal feito era mirabolante e assustador na medida em que expunha “o outro de nós mesmos”.

No norte da América, discute-se acerca de uma gigantesca muralha que separa o território mexicano do norte-americano, sob a queixa de uma porosidade indevida na fronteira entre estes dois países. Também no Haiti ou em Cuba, pelo mar, os poros se abrem e refugiados se atiram em margens praianas há décadas. Em toda a Terra, os corpos estão em movimento e os países com maior influxo de imigrantes retraem-se.

Deste encolhimento provém o exercício de fechar os olhos para além das colunas erguidas. Quando dois corpos se aproximam, há mais do que calor, há o ruído dos sentidos, como os sons de duas cidades ou os feixes de luz sobre ruas e calçadas.

É perenemente questionável se a literatura tem a responsabilidade e o poder de representar a realidade. Entretanto, ela tem o de criar sentidos e sensações capazes de atirar o leitor — no caso desta coletânea — em vinte infinitos países. Porque nada é igual para ninguém. Vinte escritores brasileiros viajaram, cada um, para um país diferente. Países que, juntos, formam um continente que se processa non-stop em infinitas revoluções por minuto, soltando-se das amarras da influência europeia, instigando a valorização de suas pluralidades, oferecendo ao resto do planeta a versão mais jovem de uma contraconquista da colonização, que, ao mesmo tempo, deixou o legado da escravidão e da profunda desigualdade, parâmetros constantes numa análise mais
aprofundada do quadro.

Em “nosotros”, projeto que estreia no dia 5 de setembro, temos 20 contos por autores brasileiros que nem sempre dão a chave da porta mas que permitem ao leitor furar paredes e muros e revelarem os nosotros nos passos de outros.


Katia Bandeira de Mello Gerlach, natural do Rio de Janeiro e radicada em Nova York, formou-se em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É mestre em Direito Internacional Privado pela Universidade de Londres e pela NYU School of Law, e professora de Direito na Fundação Getúlio Vargas. Integra o corpo docente da Univer- sidad Desconocida do Brooklyn sob a direção de Javier Molea. Publica no jornal Rascunho, na revista Cenas (Centro Cultural Raimundo Carrero) e na revista Philos. Publicou os livros: Jogos (ben)ditos e folias (mal)ditas, Colisões BESTIAIS (particula)res, Forrageiras de Jade e Forasteiros.

Posted by:Jorge Pereira

Produtor cultural pernambucano baseado no Rio de Janeiro. Fundador da Casa Philos e editor-chefe da Revista Philos. Curador de festivais literários e de arte contemporânea.