Apresentamos uma amostra comovente de poesia escrita por migrantes centro-americanos da Casa do Migrante em Coahuila, México, alguns dias antes de atravessar a fronteira. A seleção dos poemas foi feita por Jorge Andrés Gordillo López, um voluntário ativo para quem “a poesia se manifesta no migrante com a emoção daquele que descobre ‘o dizer’ de diferentes formas, não sempre com o uso correto da gramática ou ortografia, mas com a alma daquele que anda e percorre, daquele que vive a incerteza e complexidade do próprio homem”.

A Casa do Migrante de Saltillo é um abrigo que fica na capital do estado de Coahuila – Saltillo (México). Por mais de doze anos e depois de muitas dificuldades, ameaças, apoio e encontros, acolheu pessoas, principalmente centro-americanos em estado de migração. Além de fornecer assistência humanitária, o local oferece acompanhamento para o migrante que precisar, pois tem escritórios cuja função é assessorar sobre diferentes assuntos como: vinculação, documentação, área jurídica e psicológica, entre outros.

Este abrigo se ocupou da difusão da situação migratória no país através de várias conferências nas instituições acadêmicas, eclesiásticas, culturais e chegou até a rede de parceiros da Philos. Como resultado dessas conferências, a casa tem recebido várias doações, roupas, comida, dinheiro, medicamentos, livros, etc. Isso também levou ao envolvimento da sociedade civil local nos assuntos relacionados aos migrantes. Vários grupos e pessoas, a partir do trabalho social com a Casa, se ocuparam de oferecer aulas de inglês, desenvolvimento humano, ioga, debates sobre direitos humanos e diversas oficinas que são realizadas em diferentes períodos.

Jorge López, voluntário ativo desde julho de 2012 adscrito ao “Serviço de Jovens Jesuítas Voluntários”, tem trabalhado junto com migrantes em uma oficina de escrita e uma campanha para impulsionar a leitura dentro do abrigo. Um elo fundamental para eles é a leitura do poema “A besta” de Daniel Rodríguez Moya, que os aproximou da poética de sua realidade. Como resultado da oficina vários migrantes escreveram poemas que narram a viagem que realizaram partindo de seus países de origem para os Estados Unidos.

“A poesia se manifesta no migrante com a emoção daquele que descobre ‘o dizer’ de diferentes formas, não sempre com o uso correto da gramática ou ortografia, mas com a alma daquele que anda e percorre, daquele que vive a incerteza e complexidade do próprio homem. Em cada verso dos poemas, manifesta-se a busca pelo sonho e a contínua incerteza no caminho da vida. A poesia se torna uma batalha contra o esquecimento, ela faz presente a importância e responsabilidade de cada homem no curso da história. Os poemas são escritos como uma demostração de resistência frente ao extermínio e expulsão que persegue o migrante centro-americano durante sua viagem, suas vozes se trasladam para o papel a fim de tornar sua realidade conhecida e manter sua existência viva frente ao imediatismo e à opressão que existe. A fome, o frio, a miséria e a grandeza humana são os principais motores dos poemas, a sensibilidade dos migrantes descreve como o homem, exposto à sobrevivência se relaciona com a vida, a morte e o destino da nossa raça, já nu de imagens, simulações e mentiras”.

Essa seleção de poemas feita por Jorge Andrés Gordillo Lopéz foi escrita pelos migrantes na sua estadia na Casa do Migrante e a tradução ao português é de Sabrina Graciano. 

Uma mochila
poema de Antonio Romero Montoya

A lua e a bússola guiando meu caminho.
Seu rostinho desenhado entre estrelas e luzes, que coisa tão bela.
Para muitas pessoas eu não sou nada mas eu sou feliz porque eu sei que você me ama.
Eu sei que você ainda não fala mas eu sinto suas palavras esperando a minha chegada,
isso me dá forças para continuar vivendo.
É por isso que eu não me importo com tudo o que estou sofrendo.
Dos meus erros eu aprendi, eu não sou um foragido tudo o que eu quero é estar com você lá.
Meu amor verdadeiro: Maddy te amo para sempre.

Um sonho, de pai para filho
poema de Juan Ramón Martínez de Honduras

Eu saí do meu país, Honduras, deixando minha mulher grávida.
Ignorei o que as pessoas diziam: no caminho roubam, sequestram e matam.
Isso não me detive.
Cheguei a Veracruz, Terras Águas, lugar temido.
Vi um pai com dois filhos, nós compartilhávamos o mesmo destino.
Lembro, entre as nove e dez horas da noite um garoto se parou sobre o trem,
os galhos assassinam, o puxou do trem.
Consternado eu pensei em voltar, minha mulher grávida: meu ânimo.
Uma linda notícia: meu filho nasceu!
Continuarei!
A noite costumava ser triste, longe da minha família, com Deus.
Cuida de mim, Deus, do trem, em um segundo eu poderia perder minha vida, assistas meus compatriotas que vêm detrás e aqueles na frente de mim.
México: o vale da morte do migrante.
Nós procuramos o bem-estar de nossas famílias só, nós não fazemos mal a ninguém, estamos de passagem.
-Deus, abençoe os mexicanos sempre.
Todos meus irmãos salvadorenhos, guatemaltecos, nicaraguenses e belizenhos.
Deus esteja com eles.
Com amor a todos os pais e os migrantes.

Uma canção
poema de Ernesto e Vicente

Senhor eu gostaria de te perguntar se o que eu vivi significa alguma coisa?
-Um homem mutilado.
-Mulheres estupradas.
Quando a massacre se tornou uma notícia chata para as pessoas?
Senhor, deixa-me ir com você e atravessar as fronteiras do mundo.
Senhor, ainda eu não tenho meu visto, nem passaporte.
Senhor, leva-me com você para o céu, eu sou um migrante, não me cobre taxa.
Senhor me ajude.
Nossa estrada é uma caçada sangrenta.
Nosso sangue cobre as terras mexicanas.
Nosso destino, um sequestro e a dor para nossas famílias.
Senhor, ainda eu não tenho meu visto, nem passaporte.
Senhor, leva-me com você para o céu, eu sou um migrante, não me cobre taxa.
Senhor, leva-me em um trem para o céu e não me pergunte se eu tenho um visto, não me roube, não me bata, eu te peço isso só.

Sem título
poema de Luis Ángel Orellana Esquivel de El Salvador

Entre lágrimas e abraços é difícil esquecer minha mãezinha que eu devi deixar na minha casa.
Aquele vinte e dois de março, não esquecerei
a viagem parece uma história de nunca acabar.
Lembro aquela noite, chuva e frio enquanto eu viajava no trem, um pesadelo.
Fiz uma fogueira, ela me dá um pouco de calor.
Sinto saudades do meu querido lugar, O Salvador, lembro dele com muito amor.
Pátria, pátria que me deu amor, reconforta-me o desejo de te ver novamente
porém, eu tenho que fugir da morte.

O migrante da terra distante
poema de Fernando de Nicarágua

O migrante da terra distante caminha andante e perseverante em direção a uma terra remota e ansiada. Ele espera um dia chegar são à terra prometida que mudará seu destino, um migrante distante.
Todo migrante sofre a nostalgia de deixar sua família,
não é importante quantas lágrimas, penas e sofrimentos aconteceram no seu caminho
o migrante distante continuará para frente com a testa alta sem perder o horizonte do seu destino.
O norte é a sua esperança para mudar sua vida,
Jesus Cristo ilumina seu caminho
o migrante distante chegará a seu destino.

Sem título
poema de Rosa Marily Velásquez

Era 19 de abril, eu lembro bem, eram nove horas da manhã.
Deixei minha mãe em um mar de lágrimas e minhas duas irmãs.
Enquanto eu saía de casa uma delas pendurou nos meus braços e o meu coração quebrou em mil pedaços.
Nós vemos o coiote, chegando à fronteira, a migração nos detém e esse é o começo da corrupção na viagem, eles tiram tudo de nós.
Continuamos.
Chegamos à casa do emigrante, grande alívio.
É semelhante a nossa casa, eles nos deram comida, saciaram nossa sede e nos deram um lugar onde dormir.
Que coisas tão lindas acontecem no meio da escuridão.
As pessoas que nos acompanharam na casa, sejam abençoadas por oferecer um lugar para quem precisar.
O homem não vive de pão só, também da palavra de Deus.

Se você soubesse
poema de Junior

Se você soubesse como é difícil andar por este caminho
ficar longe da minha pátria e minha amada família
você não me perseguiria, você me abraçaria e acompanharia o meu choro.
Se você soubesse
como é difícil se sentir sozinho enquanto eu durmo sobre os trilhos
você diria: sinto muito, estamos juntos, serei seu amigo,
eu sou um solitário e para você eu sou um desconhecido.
Eu tenho o direito de lutar pela minha vida onde eu quiser, porque como você eu sou um ser humano.
Se Deus disse: amem-se como irmãos, que não haja divisão entre vocês.
Se você soubesse de mim…
Se eu pudesse, mudaria as fronteiras e estaríamos livres para atravessar.


Publicado originalmente em em espanhol pelos nossos parceiros da Revista eletrônica de literatura – Círculo de Poesía, do México. 

Posted by:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.