O ser humano é, antes de tudo, um ser de reprodução. Nesta constância, devem-se levar em conta dois fatores que caracterizam este fundamento: O âmbito material, expresso pelas condições físicas, ambientais e, propriamente dito, materiais com que a criança advinda haveria de ter como estado subsistencial de matéria física, enquanto bem essencial para alicerçar-se ao mundo. A outra dimensão, distintamente mais ampla do que a primeira, é o enfoque social, que se justifica pela forma com que a criança virá a comportar-se e se relacionar no decorrer de sua vida com o outro perante a esfera em que vive. Quem mais atreveu-se a porfiar tal problemática foi o pensador e sociólogo francês Durkheim, o qual se debruçou acerca da simples questão: como as sociedades podem manter-se e se reproduzirem? O epílogo em que chegara fora de que, para haver uma precisa retórica de paz e harmonia em vigor, haver-se-ia de dar atenção à maneira como os novos membros são inseridos e subsumidos nas sociedades. Este último termo é levado à flexão plural pela e para melhor afirmação da teoria anterior, a qual se justifica na peroração de que cada sociedade ou grupo retém suas próprias normas, culturas e moral.

Desta maneira, insere-se o conceito básico da educação: Formar homens e mulheres que sejam durante seu transcurso vital livres, conscientes e responsáveis, proferidos num conjunto de valores que estabelecem o critério da dignidade e do caráter social do ser humano. Assim, no início e no fim está e calcorreia a educação, como direito e condição pregressa à cidadania.

Pode-se dirigir para um mais remoto adágio daquilo cá retratado quando se trata deste fator, que cria e ascende o humano presente no mais íntimo de cada ser humano. A raiz etimológica do verbo educar, de tal modo, provém da origem latina, na qual e conota um sentido de vir de dentro para fora, emergir, educare acompanha a acepção de trazer, conduzir. Logo se constata que educar é ostentar para fora, na forma inamovível da ação, algo que já está direcionado no interior do ser humano, que, de maneira e outra, já carrega consigo, compreendido entre si, bem como o reconhecimento do próprio eu, semelhantemente ao qual tantos filósofos buscaram arduamente em suas vidas. Sócrates já traria desde cedo este conceito próprio da palavra educar quando afirmava nos diálogos Platônicos que “o educador é um parteiro, tira o humano do humano”.

Efetivado o que temos até aqui como por básico, contrapõe-se à análise a inserção tecnológica no processo educativo do párvulo cidadão. Esta, por mais inovadora que possa aparentar ou tornar-se a ser, tende em seus estreitos somente a limitar-se no informar o ser humano. Jamais poderia educar no sentido lógico, complexo e conjuntivo da palavra. A educação passaria e passa, perspectivamente, em um âmbito muito mais além… Objetando isto, porém, seria hoje quase que inevitável à vida social subsistir sem o meio eletrônico e digital, sem a esgotada razão e afirmação tecnológica. A (in)popular linguagem digital é discorrida correntemente em toda zona por ela abrangente; não aderi-la seria permanecer engessado sob décadas vetustas. De tal forma, a mesma apoderou-se e circunscreveu a cadeia global, conseguindo unir um som, uma imagem e um texto e um único vocábulo conclamado prestigiadamente por bit.

Há, clara e formalmente, a visão de tantas e inúmeras possibilidades que estes recursos vieram a dispor, referentes à acessibilidade de grandes partes para frutificarem em conhecimento, difundindo o científico e ampliando o comum, mas nunca sequer a tornar-se artefato educador, com início e fim; por ventura, vale-se do ressalvo que margeia somente perspectivamente a índole informadora. Deve-se dispor de prudência. A mídia eletrônica, que também é elencada no interior deste caráter aqui abordado, notifica publicamente, muitas vezes, somente aquilo que a interessa. Se algo lhe tocar ou mesmo puder comprometê-la, logo exclui-se da pauta. Quem, por exemplo, sabe que os meios tais como rádios e televisão são serviços de domínio público, sendo assim que não hão donos privados e, além do mais, dependem de concessões temporárias? Mais a fundo, quem saberia o término de tal concessão?

Quem conhece que todos têm o direito à palavra, a voz e ao dado tempo elucidar o próprio pensamento nestes canais que, além mais, são assegurados constitucionalmente? Tal fato implica somente aos grandes mandatários do recurso; ao cidadão de paz e bem repassa-se o outro lado, em branco, da história.

Voltando o texto ao meio digital (ouso pedir perdão pela implicante redundância), dispõem-se de ter presente três dimensões que, avaliando-se pessoalmente, mudaram em décadas para cá. Seria a primeira dela chamada de distância; alude-se, como exemplo claro, a tomada de viagem que far-se-ia em outros tempos à Europa, ou mesmo o tempo em que uma carta levaria para chegar a destinatários no velho mundo. Presentemente isso acontece em espaços de segundos, dado num mesmo e único instante. A segunda dimensão útil arrazoada é o sentido de espaço; em outros tempos vigorara-se e gloriava-se, por exemplo, a acomodação majestosa propiciada por bibliotecas, que, por ventura, conteriam em seu arquivo edições únicas ou mesmo títulos e escritos ímpares que cheiravam conhecimento. Atualmente há tudo isso transcrito (inodoramente) frente à tela de quase todo aparelho no qual busca-se permear acesso. Por último, traz-se esta dimensão, que é, excentricamente, a que mais converteu seu decurso e ainda vem mudando à análise: O insólito tempo. O filósofo medieval Agostinho de Hipona assim dizia que se não lhe perguntassem o que era o tempo ele sabia, mas se lhe perguntassem, ele já não o sabia. Isso porque o tempo é a própria percepção de que, enquanto racionais e humanos, teríamos dele.

Essa última afirmação no recôndito do continente cibernético também se modificou. Marcado assiduamente pela busca imediata do imediato, o olhar sobre determinada página social, lendo nela a mesma notícia que já havia-se visto anteriormente, logo é ela rejeitada; já considerar-se-á a mesma como velha, taxativa, saturada… Não houveram novas notícias, continua sendo a mesma coisa de sempre, ajuíza-se. Categórica e aparentemente, debruça-se à virtude humana, como de seres em busca de constante informação. Se assim for, inerentemente estar-se-ia a vigor da formação de pessoas sempre mais ansiosas. A notícia ou informação, simplesmente, necessita estar na tela, como se pelo contrário poderia se assegurar que pessoa qualquer que nela não estiver ou aparecer tem poderio figurativo a uma possível eleição de pleito, usando de certo exemplo para uma possível clarificação do pensamento.

Deve-se ter e levar em conta que a mídia, seja ela eletrônica ou digital, constata e influi poderosamente ao repassar suas forças matizes e as versões que sustentam (na maioria, embasadas e especadas no modelo capital). Ela deve estar ao serviço da pessoa e não vice-versa, como mentirosamente é-nos interposto. Ergue-se aqui o questionamento chave enquanto se aborda o caráter informativo dado na tecnologia: A consciência é um processo contínuo de buscas por respostas. Nesta prospectiva, ser consciente é ter a capacidade de refletir, perguntar-se a si mesmo e indagar-se, sendo que a condição de liberdade só a estes últimos é pertencente. Felizmente a internet pode dar tudo, qualquer resposta. Ela somente não pode dar a principal coisa quando atribuída ao meio epistemológico: A pergunta, prior e sustentáculo do viés educativo.

Vendo anteriormente a origem da educação, que se emana com o “quem sou” e “por que, logo, o sou”, os quais brotam marginalmente na fecundidade do estro, o educador, em seu papel e direito, tem como premissa o prisma da indagação e a autonomia de pedir. Ele não pode dar respostas se não antes ensinar a questionarem-se as respostas. Tem o direito de mostrar e indagar até mesmo a matemática, potenciada como a ciência da exatidão, por exemplo, quando diz que um mais um é dois. Portador do papel educativo, ele deve desvelar esse fator contrapondo o resultado que casualmente poderia ser três ou talvez mesmo um, como a soma de duas gotas de água, em tal protótipo.

Licita-se que enquanto adentrado no sistema mostre que a tecnologia é importante no processo formativo, mas que este não depende diretamente dela para existir, buscando propagar, antes de tudo, uma concepção crítica, a ponto de fazer com que o elemento que é educado, no caso educador e educando, ambos, perguntem-se o porquê de empregá-la ao meio e até que ponto se pode haver o uso dela e por que restritivamente haveria de ser com ela? Educar é inverter estes papéis, acabando com o modelo de inserção que vem de cima para baixo, em uma forma piramidal, e mostrar que se pode conceber esse mesmo paralelo em forma de círculo onde todos debatem colocados sob um mesmo nível; educar é tomar nas mãos a ferramenta e não ser tomado às mãos pela ferramenta; é, de uma certa forma, investigar os investigadores, bem como já dizia o velho poeta romano Justino.

Tecnologia e educação em suas constituições genuínas não se completam. Divergem. Tecnologia e informação unem-se, bem como educação e indagação. Imaginar-se-ia o eletrônico no processo de formação do pensamento científico: nunca haveriam meras possibilidades de ascensão. Sem ter a capacidade, que é só humana, de formar pensamentos e cortejando-os em discussão, a educação passaria à condição de objeto depositado em telas de aparelhos, vindo a tornar-se escravizadora, sistemática e comum, outorgando equivalentes e idênticas informações em relevância das mesmas pesquisas. Nunca se conheceria o novo. Tornaria sim pessoas “aparelhadas”, acomodadas e treinadas para engolir a forma de pensamento pronta, introjetada pela mão do sistema. Quem pensou igual, conta-nos a história, nunca ousou mudar mundo e logo não o mudou. Se por acaso ainda discordarmos, podemos incumbir-se dos grandes nomes que conhecemos, todos foram, pensaram e agiram diferentemente daquele modelo comum de ideologia que era veiculada e vigente em sua époque. Essa forma de pensamento denomina-se, entre todas, libertadora, a qual nunca antes fora reproduzida e agora seria, em sua magnitude prática, fator e condição para uma nova era existencial; é em si entendimento único, tendo como princípio e sustento a si próprio, fomentado pelo decorrer da crítica da pergunta, seja ela existencial ou utópica, mas que desabilita e confunde a pessoa, provocando reflexões que a exonerem da posição de Xeque no tabuleiro vital.

Todo educador há de ser maior do que a tecnologia que o diminui. Se este não for e permanecer estático, tristemente já fora superado. O ensino que obtemos deve ser questionado, juntamente com o papel de inserção tecnológica nele intermetido. Assim, no dizer de Milton Santos “[…] uma escola que não forme verdadeiros cidadãos, tornar-se-á um celeiro de deficientes cívicos”. A mídia não deve ser início e nem fim. Pode-se concebê-la como contributo. A história dos três porquinhos, por exemplo, pode ser a mesma no livro e no vídeo. Somente destaca-se que no primeiro a criança atenua à capacidade de imaginar o local, criar as figuras dos personagens, cores e enredo, além mais… Na segunda, porém, ela já recebe tudo isso debilitada e perfeitamente pronto, com as determinadas cores, tamanhos, proporções, sonoridade, formas e movimentos.

Dizia Sartre que “não importa o que fizeram de nós: importa o que nós fazemos do que fizeram de nós”. Equivalendo-se de e enquanto sujeitos de mudanças em constante mudanças, somos, sumamente, seres capacitados ao condizente racional. É impreterível ser reprodutores daquele pensamento veiculado, hegemônico e forjado pelas elites. O protagonismo parte da educação e esta tem e é início, meio e fim em si mesma e nas ações vindouras em sua decorrência. Ao contrário da tecnologia, ela é capaz de imaginar e criar a realidade; ela tira a trama de trás do cenário. Assim, enquanto humanos e livres, todos senhoreiam o direito escolher entre uma, nenhuma ou compactuar as duas, mas, ante disso, cortejam a virtude de indagar-se a que porquê se referem quando acedem às ditas e já, se assim pudermos dizer, definidas escolhas.


Gustavo Meneghini (Nova Prata, Rio Grande do Sul, 1998). Seminarista católico da Congregação Religiosa Josefinos de Murialdo, atualmente residindo em Brasília – DF, cursando o curso de Filosofia na UCB.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.