O tropel dos cavalos

I

Meus versos são indomesticáveis
Como o tropel dos cavalos
Sobre as faces frias das páginas em branco
Meu rubor renasce com a rota múltipla
Com que cavalgo as lâminas mortais do medo
A coragem é ultrapassar o lado obscuro da chama.

II

Meus versos são do mundo
Com eles navego as águas tortas do caminho
Não é um mero aplainar das coisas gastas
Mas cavalgar o animal que há em mim
Prestes a alcançar o infinito e as faces mortas.

III

Percebo que o tropel é verdadeiro
Margeando as faces esquálidas do papel
Trazendo-lhes harmonia e ritmo
Onde antes eram o desassossego e a violência.

IV

A canção de outrora aquece meu saber
Na expiração do gesto expurgo os fantasmas da vida
O tropel se escraviza pelos espaços vazios
Da brancura imaculada que serpenteia meu fogo interior.

V

Tudo se esvai nas letras mortas da vida
Uma ciranda de tropéis cavalga meu destino
Que é feito de pedra e lama
Busco sonhos impossíveis
Como a arca com tesouros de chaves e segredos.

VI

Não descubro os olhos dos véus das letras
Antes me escondo na caverna dos sentidos
Faço-me de morto
Quando na realidade a imortal chama
Balança no meu peito de poeta.

VII

O tropel dos cavalos não se amaina
Descubro que estão cegos de tanto poetar
Na varanda ácida da memória
Que se esquece das surpresas gritantes
Os meus versos se desesperam na hora fatal
Em que a chama de dentro se apaga na noite escura.


Alexandra Vieira de Almeida é poeta, contista, cronista, resenhista e ensaísta. Tem Doutorado em Literatura Comparada (UERJ). Atualmente é professora da Secretaria de Estado de Educação (RJ) e tutora de ensino superior a distância (UFF). Tem cinco livros de poesia, sendo o mais recente A serenidade do zero (Penalux, 2017). Seus poemas foram publicados nos importantes meios de comunicação: “Revista Brasileira”, da Academia Brasileira de Letras, “Jornal Rascunho” e “Suplemento Literário de Minas Gerais”. Publica constantemente em antologias, revistas, jornais e alternativos por todo Brasil e também no exterior. Tem poemas traduzidos para vários idiomas.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.