Uma carta para Cida

O brilho duma janela,
Vista para as montanhas, tudo bem limpinho
E arejado. Trabalha muito pra isso,
chega morta, só quer tudo bonitinho.
Muito vidro, objetos rotundos,
Transparência cai bem, mas é melhor
um retrô pra não parecer loja, né?
Tapete importado, crochês,
Móveis franzidos, tudo bem
Coloridinho e alegre.
Cida vem às segundas, terças e
sextas, tem chave, é amiga,
faço tudo por ela, e ela
deixa tudo bem ajeitadinho,
do jeito que a patroa gosta.

Coisa mínima

Chove, tácito,
um arroio de
memórias
Rios
transbordam,
calhaus
se juntam à margem
Armamos botes
Queremos vida,
terra firme
Mas não há

Com quantos poemas se faz uma prosa?

Mexo nos cantos, nas quinas, nas múltiplas moradas, quíntuplos quinquênios heroicos, em busca da revisão daquele texto hagiográfico que, por fim, colocará o ponto final em seu devido lugar. Habitam nos pentagramas elevados enclausuradas moradas alquímicas e poemas-apóstolos, avizinhados das dos das quintas dos infernos. Há buracos nas entrelinhas, pequenas estrelas entre as linhas… pontos-finais no princípio do texto-precipício, abismo. O negócio do michê. Há pautas poucas, mas suficientes – exquisito enquanto tal: é bom ou ruim? Convites à posteridade, tentativa vã de fazer do presente eternidade. Dizer isso é como gritar da janela feito louca: habita em mim um grito abafado, de êxtase e cólera. Todos temos complexos, mas alguns simples. Nenhum se solve, nem resolve. Et coagula. Fala-se de entranhas, desejos e da superioridade da experiência cristã; fala-se de abjeção e desejo, de travestis felizes e do homossexual reprimido. A masturbação degenera o sistema nervoso: o retorno encarnado do recalcado social. Tetralogia da miséria: o inefável nos seixos dos seios da mãe terra, que chora ao ver onde chegou. Os outros dois volumes perdi de vista ou talvez meus olhos não sejam capazes de enxergar; hagiografias são pra gente grande, e eu não sou ninguém


Rond Assis (Belo Horizonte, Minas Gerais) é poeta, revisor de textos, bacharel e mestrando em Filosofia.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.