O acadêmico Eduardo Portella afirmou certa vez que o cronista tem um apego provinciano à metrópole. O aparente paradoxo se define no movimento do flanêur, que busca, no frisson da cidade, a perspectiva da vida ao rés-do-chão, como definiu outro estudioso da literatura brasileira, o grande Antonio Cândido.

Nos 42 textos reunidos nas páginas de O Andarilho (Casa Philos, 2019), Paulo Emílio Azevedo filia-se a essa tradição com um olhar original, peculiaríssimo. A rua aparece como espaço de embate. De um lado, os vínculos afetivos, a cidade na qual tocamos e pela qual somos tocados. Antigas barbearias, o pão na chapa com café fresco, uma criança mascando chiclete. Do outro, a urbe gourmetizada, que apaga identidades — e potências — em nome da assepsia do “novo”.

“Encanto-me com as coisas simples da vida — esse é meu jeito de andar pelo mundo”, escreve o autor, como uma espécie de profissão de fé. Em sua caminhada, Paulo Emílio perscruta pequenezas que não raro passam despercebidas no ramerrame do cotidiano. Os títulos das crônicas, grafados em letras minúsculas, já sinalizam a procura pelo tom menor, por iluminar a transcendência do que é aparentemente banal.

O Maracanã pode tomar a forma de um quintal em Macaé. Assim como a Festa de São João pode voltar à memória no palato, a reboque do sabor do pé-de-moleque de Dona Efigênia, ou do quentão de Seu Luís. Sem pressa, porque Paulo Emílio bem sabe que a correria é inimiga do cronista. E tempo, ele mesmo diz, “é diferente de relógio. Ter tempo é não ter relógio”.


Marcelo Moutinho é escritor e jornalista, nascido em Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, em 1972. É autor dos livros Ferrugem (vencedor do Prêmio da Biblioteca Nacional, Record, 2017), Na dobra do dia (indicado ao Prêmio Oceanos, Rocco, 2015), A palavra ausente (indicado ao Prêmio Portugal Telecom, Rocco, 2011), Somos todos iguais nesta noite (Rocco, 2006), Memória dos barcos (7Letras, 2001), além do infantil A menina que perdeu as cores (Pallas, 2013). Escreveu matérias, artigos e resenhas para a revista Bravo! e o suplemento literário Ideias (Jornal do Brasil) e hoje colabora com o jornal O Globo.

Leia um dos contos do livro “O Andarilho”, de Paulo Emílio Azevedo publicado pela Casa Philos na Flip 2019.

A arte de morrer diariamente no Rio

Saí chateado da Barra da Tijuca, por volta das três da tarde. Estava no médico. O destino era Nova Iguaçu para uma reunião às sete da noite e ver Sol, minha afilhada – é impossível usar de eufemismos para Sol, ela é única.
Tive dúvidas em pegar a Amarela por conta do tiroteio que houvera mais cedo, logo pela manhã. Mas, arrisquei assim mesmo porque a volta seria longa demais. No caminho uma jornalista me liga pedindo informações para uma matéria – pararia o carro num posto, mas passei do ponto, do posto. Imaginando que seria algo rápido segui através do viva voz. A mulher falava feito uma tagarela e não consegui interrompê-la. Perdi a entrada e quando menos percebi estava chegando ao Fundão.

Entro pela Linha Vermelha e vejo um engarrafamento quilométrico em direção à Dutra – o Rio é uma cidade de sensações; pura arte: morrer pode parecer cena de teatro. Dez por cento de bateria. O GPS me sugere pegar um atalho por Caxias – tenho três bons companheiros lá, na pior das hipóteses rolaria um café e abraços garantidos. O cabo do carregador dá mau contato – eu tinha quatro horas (com folga) para chegar à casa do meu amigo Max, pai da Sol.

Desço por Caxias, a bateria acaba. Paro num posto e peço para carregar o celular; o mano é gentil. Preciso de um banheiro. O trabalhador indica: “lá nos fundos, segue reto, depois direita e num cantinho à esquerda você vai ver”. Achei o bagulho estranho, mas a vontade era grande.

Cheguei num buraco sem luz, relaxei. Nesse encontro com Deus que é urinar quando se está muito apertado, senti algo subindo nos meus pés. Dei um salto de calças abertas com o filho da puta do rato, rato não; aquilo era uma ratazana criada com comprovante de residência Posto Shell Estrada Viaduto Caxias-Brasil s/n.

Estava agora todo mijado. Pensei como visitar minha afilhada desta forma. Cena ridícula – pensava também na jornalista; ela com um café fresco na redação, eu aqui matéria-prima.

Voltei ao carro, o celular já com mais de trinta por cento – o cabo sem mais tretas, felizmente. Lembrei-me que tinha uma bermuda e uma cueca no porta-malas. Criança e poeta sempre andam com uma roupa reserva – ambos só fazem merda.

Tentei trocar no carro, mas meu vidro é claro e, bem em frente, havia muita gente no ponto de ônibus. Veio à lembrança o buraco onde vivia o rato; não havia outro modo senão enfrentá-lo. Sabia que seria um momento difícil, histórico. Entrei no buraco e propus um acordo: “você fica aí, eu aqui. Se você vier para cima, vou reagir”. Ele entendeu. Enquanto mudava a roupa me olhava como quem diz “cagão, desse tamanho com medo de um rato”. Antes tivesse dito “mijão”. Mãos lavadas, roupa limpa, celular com metade da carga, alívio.

Segui pela Brasil. Mais um engarrafamento monstruoso. A essa altura eram 18h30. O celular voltou a descarregar próximo a entrada de Nova Iguaçu (NI). Não me lembro como se chegava à casa de Alana Medeiros – a mãe da Sol, a pessoa responsável por suportar as loucuras de Max; as loucuras de ter um padrinho como esse para sua filha.

Parei em mais um posto, tinha fome; uma fome entre vírgulas. Fazer dieta low carb no dia a dia da cidade é para quem tem disciplina de monge – quem fica pedindo num pé sujo “olá pode fazer um ovo para mim, mas sem pão?”. Parece deboche. O gordinho fritou dois ovos com queijo. Dei-lhe um beijo e o chamei de meu herói – gordinhos nunca são heróis de porra nenhuma; achei justo que ele sorrisse.

Segui a estrada e o acelerador; entrei pelo centro de NI, perdi-me seis vezes (sem GPS) até chegar. Max foi me receber no portão. Sol me olha e diz: — Dindo você está com o cheiro da fralda da minha boneca.

Talvez fosse do talco, ela é muito gentil. Sol só usa eufemismos para agradar o outro. Era oito e meia da noite, havia pão e café fresco me esperando.


Paulo Emílio Azevedo é professor, Doutor pela PUC-RJ em Ciências Sociais com especialização em Antropologia do Corpo. Escritor, criador no campo das artes e consultor em Educação e Cultura. Recebeu diversos prêmios, entre eles “Rumos Educação, Cultura e Arte” (2008/10) pelo Instituto Itaú Cultural e “Nada sobre nós sem nós” (2011-12) no âmbito da Escola Brasil/Ministério da Cultura para a publicação do livro “Notas sobre outros corpos possíveis” (2014) – com este concorreu a final do Prêmio Rio Literário (2015) na categoria “Ensaio”. Sendo um dos introdutores das práticas do poetry slam no Estado do Rio de Janeiro, vem desenvolvendo uma série de ações no campo da poesia falada e performance. No ano de 2016 foi um dos escritores convidados pela FLIP Paraty/RJ, em 2017 integrou o grupo de escritores na Printemps Littéraire Brésilien/Paris Sorbonne Université e em 2018 representou o país na Journée d’Etudes Cultures, arts et littératures périphériques dans les Amériques: une approche transnationale de la production, la circulation et la réception em Lyon (França). Em sua principal investigação com a Literatura está o reconhecimento do gênero/método Reestruturalismo. Atualmente, prestes a se tornar PhD conclui sua pesquisa se utilizando da metodologia cartográfica, construindo por sua vez uma cartografia da palavra em Núcleos de Vigília Cidadã no projeto Territórios do Petróleo/PEA-BC. Com este completa dezessete livros escritos, sendo dezesseis disponíveis ao público, uma vez que o primeiro “Street dance, das garagens ao palco” (1998) ainda não foi publicado. É pai de Hiago, o qual considera sua obra-prima.

Posted by:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.