Este trabalho tem como objetivo analisar as características do romance policial espanhol na obra El Laberinto Griego (1991) em que o detetive Pepe Carvalho retorna ao mundo literário, em mais um intrigante caso, através da escrita de Manuel Vázquez Montalbán.

Primeiramente precisamos distinguir o romance policial clássico do romance policial negro, diferenciação esta encontrada nas palavras de Colmeiro (1994) que caracterizam o romance policial clássico como um romance-enigma que faz do crime um ato artístico, estetizando a violência , diante da qual o detetive se mantem racional e indiferente, quase sobrenatural diante dos demais homens, se apresentando como um herói romântico dentro de uma estrutura cômica, em que o plano estético se sobressai e o quebra-cabeças criminal é montado através de fórmulas determinadas, restabelecendo a ordem moral e social, e culminando no famoso “felizes para sempre”.

Corroborando Colmeiro (1994) expressa:

Los principales convenciones de este subgénero consisten em la inefabilidad e invulnerabilidade del investigador, cuyas facultades son superiores al resto de los mortales, la utilización de um método de encuesta supuestamente científico y racional, los sucessivos sospechosos inocentes, la sorpresiva resolución final del problema em que se descubre al culpable em “la persona menos sospechosa” (COLMEIRO, 1994, p. 56).

Por outro lado, temos o romance policial negro, sobre o qual iremos nos debruçar ao longo deste trabalho para compreendermos a figura anti-heróica do detetive Pepe Carvalho criada por Montalbán. Assim, vista como uma continuação ou mesmo como uma reação ao romance clássico, o romance policial negro inverte a ordem e apesar de manter o jogo estético do crime, o plano ético se sobrepõe, fazendo dos problemas morais diante da realidade e decadência da sociedade uma justificativa para o crime.

Desse modo, a partir das ideias de Frye, que apresentam as faces do romance policial espanhol, em que o clássico permeia o universo romântico e cômico, e o negro se constrói no trágico e irônico, Colmeiro (1994) postula que:

El protagonista del “romance” es típicamente heroico e idealizado por encima del resto de los hombres (posee cualidades supernaturales), por oposición al protótipo “irónico” que es anti-heroico, marginado y perdedor, situado por debajo del lector. La estrutura del “romance” tende hacia la idealización, la “irónica” hacia la verossímilitud de lo real. La estructura “cómica” celebra al restablecimiento final del orden moral y social tras haber sido transgredido y puesto em peligro por el malvado antagonista del héroe protagonista, mientras que em la estrutura trágica la empresa del héroe está abocada al fracasso debido a las limitaciones o debilidades del protagonista, el cual resulta finalmente aislado de la sociedade (COLMEIRO, 1994, p. 65).

Nessa perspectiva, adentramos os antigos bairros industriais da Barcelona de 1991, que se desconstruía para se reconstruir como uma nova Barcelona preparada para as Olimpíadas de 1992.

Se la imagino abandonada em aquel paisaje em ruinas, a la espera de la piqueta o de la excavadora que abría las carnes de la vieja Barcelona para dar a luz uma nueva ciudad que sepultaba buena parte de su mejor y su peor memoria. (MONTALBÁN, 1991, p.110).

Em mais um caso, o investigador privado Pepe Carvalho recebe a visita da exuberante Claire Delmas, acompanhada de seu amigo Lebrum, com a incumbência de encontrar o grego Alekos, que Claire denominava como o homem de sua vida.

Como o poema de Luis Cernuda [1], que “el deseo es uma pregunta/ cuya respuesta no existe, / una hoja cuya rama no existe, / un mundo cuyo cielo no existe” (Poesía 123), na obra, Pepe Carvalho se aventura num mundo de perguntas sem respostas e se vê afetado pela irracionalidade do amor, diante do silencio de seu relacionamento com Charo, que continua no exercício de sua profissão de prostituta, e diante da atração que o detetive sente por Claire, que não resulta em nada.

Contuvo el deseo de ir en busca de Lebrum y Claire, no fuera a llevar tras los talones de su deseo a Contreras y los suyos o no fuera a romper los pocos deseos que le quedaban. Uma vez cumplido el recorrido por el labirinto, Claire y su griego, Lebrum y el suyo, habían ultimado el sentido de su indignación, de su viaje y cada cual habría partido dejándole a él la obligación de aconpañante de otros buscadores de verdades imprencscindibles. (MONTALBÁN, 1991, p.134).

Um paradoxo sentimental que revela a dualidade e fragilidades do ser de um detetive que se vê afetado pelos desejos das demais personagens; traços que Montalbán faz questão de representar na figura de Pepe Carvalho, fazendo dele um anti-herói, um homem como qualquer outro. Corroborando Colmeiro (1994) aponta:

El protagonista de la novela policiaca negra es um hombre de este mundo, cuya fortaleza física y moral (su “dureza”) no es incvulnerable a los ataques de que es objeto constantemente (…) el investigador no es un héroe en sentido tradicional. Muy al contrario, la visión “irónico-trágica” de este mundo al revés exige que el personaje central de la novela sea marginal a la sociedade. (COLMEIRO, 1994, p. 70).

Assim, pelas ruas de Barcelona, em um labirinto atrás do tão procurado grego, Pepe Carvalho vai encontrando as peças do quebra-cabeça, mas sem conseguir os encaixes, uma vez que Claire e Lebrum, ambos buscavam a um grego, Alekos e Mitia. E quando o labirinto chega ao fim, ao raiar do dia Alekos é encontrado morto, e Pepe Carvalho se torna suspeito por haver procurado o grego incansavelmente durante dias.

Nesse enredo o detetive perde sua imunidade e se torna vulnerável como qualquer outra das vítimas, pois, com uma moral ambígua e um desprezo em relação a sociedade na qual se encontra à margem, inclusive diante da justiça, o detetive é afetado em sua vida pessoal ao se envolver com a investigação. Fato este que fica evidente na figura de Pepe Carvalho ao longo da obra:

El hombre es un animal racional que tiene remordiemientos y se complace además em construirlos, lentamente, em cumular cosas de las que va a arrepentirse, gestos, silêncios, como los que él estaba acumulando em su relación con Charo. Y por un momento tuvo el propósito de no seguir corriendo tras l sombra de Claire, de dejarla a su suerte, resumiéndola flerte em su andar erguido, com aquellos ojos geológicos y transparentes. (MONTALBÁN, 1991, p.134).

Desse modo, levados por seus desejos, Claire, que na realidade não tinha esse nome, se recusava a aceitar que seu grande amor a havia trocado por um homem. E Lebrum não poderia conviver com o fato de que o jovem que ele ajudara, cuidara e tinha como seu, agora se aventurasse mundo a fora ao lado de outro homem.

Alekos huyó de Paris herido de muerte y cometió la irresponsabilidade de llevar consigo a Mitia. Desde entonces Claire y yo les hemos buscado, cada uno com um objetivo diferente. Ella queria comprovar que Alekos no era de otra o de outro y yo que Mitia estaba a salvo y podia recuperarlo para completar mi obra. (MONTALBÁN, 1991, p.172).

Pepe Carvalho, diante do desfecho da busca, apenas lhe resta reconhecer que “Cada uno de ustedes me mintió a su manera. ” (MONTALBÁN, 1991, p.171). Entretanto ainda havia um crime a ser desvendado, pois uma pergunta ainda ecoava e inquietava a mente do detetive, quem havia matado o grego?

Fue Claire. No permitió que yo lo hiciera por ella. Alekos era suyo. Esa propriedad no peligraba a causa de outra mujer o de un hombre, sino por el cerco de la muerte. Claire llevaba la inyección preparada em el bolso desde que habíamos llegado a Barcelona. La recuerda com los brazos cruzados sobre el bolso y el bolso sobre el pecho? Era como proteger la contraeucaristía. Allí llevaba toda su piedad y toda su soberbia hacia Alekos. (MONTALBÁN, 1991, p.1715).

Assim, com maestria, Montalbán não apenas constrói um intrigante labirinto amoroso envolto no mistério de um crime, como ultrapassa as características clássicas e revela o mau e o bem de uma sociedade que se diz justa, mas que negligencia um crime, por ser apenas mais um estrangeiro viciado que é assassinado. Nessa rota de análise Samuel Amell expressa:

…lo que menos nos interesa en las novelas de Vázquez Montalbán es la resolución del misterio que presentan. […] lo que importa es el resto: el cuadro social que sus obras reflejan (La novela negra y los narradores españoles actuales, (AMELL, pág. 97).

Nessa perspectiva Pepe Carvalho se constrói dentro de El Laberinto Griego como um detetive que vive as mazelas e os problemas sociais da Espanha de forma atemporal, fazendo das obras de Montalbán um reflexo da realidade espanhola e uma crítica e testemunho dos problemas político-sociais.

Diante disso, temos as palavras do próprio Manuel Vázquez Montalbán, expressando que o romance policial negro é “…un discurso realista revelador y distanciador, partidario de que la novela pueda enseñar a mirar y por tanto a conocer nuestra sociedad…”(MONTALBÁN, 1989, p.9).


Maiara Schwertner de Mattos é acadêmica do curso de Letras Português/Espanhol da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE, campus Foz do Iguaçu.


[1]. MONTALBÁN, Manuel Vázquez. El Laberinto Griego. Ed. Planeta. Barcelona, 1991.
[2]. MONTALBÁN, Manuel Vázquez. Contra la novela policíaca. nº 512-513, 1989.
[3] COLMEIRO, José F. La novela policiaca española: teoria e historia crítica. Prólogo de Manuel Vázquez Montalbán. – Barcelona: Anthropos: Santafé de Bogotá: Siglo del Hombre, 1994.
[4] AMELL, Samuel. La novela negra y los narradores españoles actuales. In: Revista de Estudios Hispánicos, Nueva York, tomo XX, n.° 1.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.