O inconsciente leitor: à margem da literatura e da psicanálise

que é frio é verde que também se move
chama arqueja grasna é halo é álgido
fios vibram tremulam
fios
é verde estou morrendo
é muro é mero muro é mudo mira morre

A verdade desta velha parede – Alejandra Pizarnik

Sob o título de O inconsciente leitor: à margem da literatura e da psicanálise, trabalho feito a quatro mãos, propusemos ao público da Casa Philos, na 17ª Festa Literária Internacional de Paraty, uma discussão acerca da leitura e da escrita, sob o viés da psicanálise. Insistindo no exercício de nos deslocarmos de um julgamento imediato sobre tais acepções, nosso objetivo era, junto à plateia, pensar como somos atravessados pelas experiências da leitura e da escrita, apostando num espaço um pouco fora da lógica a que estaríamos condicionados, quando tomamos um livro para ler, ou quando paramos para escrever.

De saída poderíamos nos imaginar na posição de sujeito que opera a ação de tomar um objeto (livro, texto) e ler: tomá-lo, decifrar o que ali já consta anteriormente como escrito, interpretar, compreender, apreender o seu sentido, adquirir um novo conhecimento e sair dessa experiência com um ganho. Nesse processo reconhecemos uma cronologia clara, que permite uma organização e uma garantia dos lugares de sujeito e objeto. No entanto, conforme pudemos trocar com o público da Casa Philos, a experiência é mais complexa do que isso. Muitas vezes a posição do leitor não consiste num lugar assim tão seguro: somos com frequência atropelados pela escrita de determinados autores, atravessados e tocados em pontos que não esperaríamos, é possível sentir a palavra cortar na carne, abrir o peito, revirar os sentidos. O sentido, inclusive, muitas vezes passa ao largo da leitura: há escritos que precisamos ler muitas vezes, há livros que se perdem no instante em que chegamos ao fim, há trechos que só depois de muito tempo poderemos entender, a partir de alguma outra experiência.

Eventualmente, na posição de leitor, é preciso ser mais objeto do que sujeito: suportar ser tomado pelo texto, para então separar-se dele; suportar ser olhado, ser lido, e até perder, mais do que ganhar, como propõe Blanchot em sua reflexão sobre a estrutura do espaço literário [1]. É a própria cronologia da experiência que fica em xeque quando essas posições vacilam: Blanchot sustenta que o livro só se produz como escrito por um efeito de leitura – é necessário um leitor para que o livro tenha sido escrito.

Dois pontos, sobretudo, sustentam essa discussão: falamos a partir de um lugar de margem que reconhecemos entre psicanálise e literatura, um litoral de terra comum, no ponto em que ambas fazem um trabalho em torno da palavra. Aqui, o em torno, precisa ser lido com atenção, pois indica algo radicalmente dissonante de ser um trabalho com a palavra, com ênfase para o artigo determinado: A palavra. A psicanálise, nos modos em que Lacan a toma a partir de Freud, assume a inexistência de uma nomenclatura que abarque todo o sentido do que se pretende dizer, o que lança todo ser falante às consequências de não poder dizer tudo – há sempre algo que resta, na medida em que remete sempre a uma outra significação, o que, por sua vez, relança aquele que fala no exercício de persistir em dizer. A palavra, não há. Dessa forma, a fala em uma análise contorna precisamente o que não pode ser dito, nos modos de um circuito pulsional [2] que, no esforço de apreender um objeto, somente o tangencia. Fica em sua margem.

Uma questão nos foi endereçada por uma ouvinte, e aqui a retomaremos da maneira como pudemos escutá-la. Partiremos precisamente dela, pois reproduz aquilo que pudemos transmitir em nossas falas, ecos residuais do que emitimos, mas, sobretudo, em vias de cernir o que a interlocução com quem ali assistia, de modo geral, trouxe de efeitos para nós desde então.

Por que eu me sinto mais confortável escrevendo e lendo as coisas que escrevo para minha analista do que falando em análise?

O primeiro artigo autoral de Freud [3], publicado em 1900, Interpretação dos Sonhos, trata dos fundamentos do inconsciente. É importante afirmar que em momento algum nessas páginas, Freud diz o que é o inconsciente. Mas ao falar dos sonhos, ainda que sem estabelecer uma definição, nos mostra o inconsciente. Estabelece-os como uma escrita hieroglífica, ou seja, uma escrita feita de imagens. As cenas esquisitas, sem pé nem cabeça, sem lé com cré, são escritas pictóricas, condensações de desejo inconsciente, e representações de uma mensagem que, ali, se encontra cifrada. Desse modo, as imagens do sonho não são desenhos, são escritas de frases feitas com palavras [4].
Lacan, ao retomar Freud e convocar os analistas de sua época a serem coerentes e fiéis ao seu ensino, resgata o campo da fala e da linguagem, cuja importância estava obliterada tanto do estudo quanto na prática clínica [5]. Nesse exercício de ler Freud, portanto, ele nos transmite fundamentos que já residiam em seus textos, mas vinham sendo descartados: o inconsciente é estruturado como linguagem. Essa precisa formulação se constituiu como um aforisma lacaniano, repercutindo, aí, o que é essencial na psicanálise – é uma indicação que sustenta todo o ensino e a prática clínica lacanianas, o que incide na forma de escutar e intervir em uma sessão de análise.

Todo e qualquer sujeito está submetido e atravessado pela linguagem, o que nos coloca na difícil posição de não falarmos, mas sermos falados, ou falhados, pela linguagem. O que se pretende dizer é, de saída, atropelado pelos acidentes, pela contingência, sempre presentes e pulsantes ao falarmos. É desses acidentes que um ato falho surge, que uma troca de nomes surge, que um esquecimento se produz, que o inconsciente se apresenta. É numa falha, ao sermos falados e não falarmos, que o inconsciente se revela. É nos pegarmos surpresos ao escutar aquilo que se revela como radicalmente diferente do que se pretendeu dizer. É se encontrar e se desconhecer com estranheza nos efeitos provocados por dizer algo dissonante do que queria. “Não era bem isso que eu queria dizer!” – falamos sempre mais ou menos, mas nunca exatamente o que queríamos dizer.

Uma frase dita não é um evento pontual – ela tem uma incidência no tempo. É só num momento posterior que a sua significação se produz. Há um hiato impreciso entre o que se fala e o que se escuta disso. Muitas vezes, algo dito em análise só terá feito sentido depois, como se só pudesse ser escutado no espaço fora da sessão, ou mesmo em sessão posterior.

Em psicanálise, a partir da constatação freudiana de que o inconsciente é atemporal, trabalhamos com uma dimensão outra em relação à cronológica [6]. As famosas “sessões curtas lacanianas”, ganharam uma fama vazia, que reproduz como uma arbitrariedade do analista em cortar uma sessão, algo que, por outro lado, é da ordem de uma intervenção analítica. Ou seja, não é à toa que se interrompe a sessão em um ponto, seja ele equivalente aos X minutos de um relógio. Se estamos dizendo que o tempo do inconsciente é outro, é porque é preciso que um corte incida em uma determinada palavra, para, retroativamente, remeter o que foi dito antes como frase, ou seja, dar ao que foi dito antes o estatuto de frase. Produzir um corte na aposta de que essa palavra ou isso que foi dito possa ressoar, ali e fora, para evitar que se passe distraída por ela. É marcar uma leitura precisa.

Esse corte não necessariamente se faz sob a forma de suspensão da sessão. E é interessante perceber que muitas vezes esse corte se faz por aquele que está dizendo, como o caso de uma paciente que, ao se escutar dizendo a mesma palavra que sempre repete, é pega na repetição que a coloca no mesmo lugar em suas relações: “de novo essa palavra!”, exclama, surpresa.

De modo que há, portanto, um trabalho de leitura em análise. A análise é sustentada pela transferência, o laço analítico, que, ao acolher o tudo dizer, escuta o inconsciente se dizer. É nesse ponto mesmo de surpresa, de se escutar designada com a mesma palavra, é que é possível o trabalho em análise. É precisamente nesse desconhecimento radical de encontro pelo desencontro do que se pretendeu dizer, que o sujeito precisará se reconhecer.

Tem algo de inquietante nisso, de um estranho familiar, para empregar o termo que Freud usa [7]. Nesse instante de se escutar naquilo que não se pretendeu dizer, o inconsciente se lê. Uma palavra que surge em análise, um sonho relatado ao analista, um lapso: são fenômenos, efeitos do inconsciente se estruturar como linguagem, que se colocam como um desastre da cadeia associativa. É se surpreender por dizer a mesma palavra, é encontrar, no seu dizer, o que se lê uma vez mais.

Que estranha é essa sensação de se perceber sendo falado… Nesse momento, retomo a pergunta endereçada a nós, na ocasião da apresentação na Casa Philos: Por que eu me sinto mais confortável escrevendo e lendo coisas para minha analista do que falando em análise?

“Falei muito sobre o escrito. Não sei o que seja.” Concluirá Marguerite Duras em O azul da echarpe [8]. “Memória sem lembrança”, diz Foucault sobre o efeito de leitura que essa escrita provoca: o que leio se perde, o que permite o espanto se refazer a cada leitura: do lugar de leitores, precisaremos sempre montar alguma forma para dizer o que é esse encontro com a escrita de Duras.

Podemos perguntar, junto com ela, o que designaria uma escrita. Uma escrita, em qualquer que seja o campo em que ela se insere, o que pode ser? Uma escrita literária, a escrita da ciência, escrita na psicanálise. No que consiste essa operação que produz um escrito?

Duras formula: depois que não se pode perder mais nada, é aí que se escreve. Ela toma precisamente esse ponto de perda como ponto de partida: “A partir do momento em que se está perdido e não se tem mais o que escrever, mais o que perder, é aí que se escreve.” (DURAS, 1993 [1994, p. 21]) [9]. Marguerite Duras nos mostra, com sua escrita, uma importante operação de rasura, onde a mesma narrativa é reescrita muitas vezes: a história de sua vida, impossível de ser contada, pelo nível de horror que carrega, se escreve e se escreve uma vez mais, produzindo outra história, uma por cima da outra, de modo que realidade e ficção passam a tecer uma trama intrincada.

Escrever.
Não posso.
Ninguém pode.
É preciso dizer: não se pode.
E se escreve.
É o desconhecido que trazemos conosco: escrever, é isto o que se alcança. Isto ou nada. (DURAS, 1993 [1994, p. 47])

A escrita permite rasuras, possibilita reescrever, apagar, escrever por cima, desfazer os percursos linguísticos que nos levaram até determinado ponto. Na escrita, supostamente, se poderia des-dizer, suprimindo a falha ao ser falado e trocar um nome pelo de uma pessoa que jamais se supôs dizer. A fala, contudo, nos surpreende, somos pegos por aquilo que foi escutado e não podemos voltar atrás em um dizer. A escuta analítica testemunha os desvios e contingências de uma livre associação, recolhe-as e as transforma em trabalho. Ao se furtar de buscar um sentido, a escuta se depara com um dizer que passa a não poder mais subsistir ao que foi dito, efeito do inconsciente se veicular num lapso de linguagem, em uma frase escrita em um sonho… falar é suportar que não se detém um domínio, e que estamos, na verdade, alheios ao que pretendemos expor.

Mas escrever, como nos mostra Duras, é igualmente arriscado: trata-se de uma operação que parte da perda – mas de que perda? Começamos a nossa conversa em Paraty perguntando o que é ler, e procuramos sustentá-la, uma pergunta em aberto, sem solução imediata: assim ela se mantém, ainda. Se há uma leitura possível em psicanálise, esta não se faz nos modos de uma compreensão do texto, que visa extrair os sentidos de uma narrativa, onde se possa efetivamente extrair um saber sobre o que foi dito. Uma leitura que conte com o inapreensível e o ilegível: é nesse ponto que surpreendemos na escrita literária – em seu modo de desviar e operar uma manipulação e um uso da linguagem muito particulares – uma via para nos aproximarmos disso.

Na escrita de outra mulher, a poeta Alejandra Pizarnik, reconhecemos elementos importantes para pensar a escuta e a leitura em uma análise. Suportar nada entender parece ser o modo possível de se estender na leitura de sua poesia. Ela transita pela dimensão do indizível, do que certamente não se pode traduzir. Contudo, esse estilo forja, no fio da aniquilação do sentido, a possibilidade de algo transmitir, como se nisso mesmo que não se pode entender ao se ler, residisse a força e a potência do que ali, diz. E é precisamente por isso que algo pode se transmitir, de modo singular, a cada um que a lê.

Assumir que, a cada leitura que se inicia, uma nova se coloca como necessária no horizonte, nos modos de um circuito pulsional que contorna o objeto, e não o apreende, é uma maneira possível de se posicionar diante de sua poesia. E a dimensão da verdade, que, tal qual Lacan [10] enfatiza, como não-toda, atropela toda nova leitura: dizer, logo em seguida, sobre o que acabou de se ler, parece impossível. É como se se perdesse o que se capturou na vírgula que se segue.

Aí surpreendemos uma margem entre o modo de leitura a que o leitor é inevitavelmente convocado e a escuta analítica. Em ambos é preciso resistir a se orientar e apreender algum sentido no que está sendo dito, suportar restar no texto, na palavra que faz engasgar a sequência da frase, na palavra que faz interromper a associação, e poder se deter, ali, por ela. Trata-se de se submeter ao texto, e, em outra ponta, ao que está se escutando em um dizer. Nos moldes de uma escuta flutuante, que se atém às superfícies de um enunciado, sem se fixar em um referencial prévio, lançando-se, assim, às surpresas e contingências que emergem, ponto em que um dizer surge e atropela o falante, revelando, nas suas emergências, algo de si.

Uma perda, portanto, em várias camadas: primeiro, da verdade, a nível de origem, uma vez que a palavra já não será capaz de apreendê-la; pode apenas contorná-la, dar a ela uma forma de ficção. Depois, de uma posição interpretativa, onde supostamente seria possível dominar o sentido e apreendê-lo – o que pressupõe uma verdade. E então, uma perda do tempo cronológico, organizado em princípio, meio e fim, para assumirmos uma outra relação com o tempo, em que o texto não está pronto, mas se escreve no momento em que se lê, para então se apagar. A partir do momento em que não se tem mais o que perder, retomemos Duras: é aí que se escreve.


Marina Sereno é Mestre em Teoria Psicanalítica e doutoranda no Programa de Pós-graduação em Ciência da Literatura da UFRJ.

Michelle Pastorini é Mestre e doutoranda no Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica da UFRJ.


[notas]

[1] (1989) BLANCHOT, M. Ler. In: O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
[2] “Pulsão” é um conceito forjado por Freud, como tentativa de dar nome à ligação entre corpo e psiquismo, mais precisamente, às consequências que advém pelo fato de estarem ligados. Toda pulsão visa um objeto, que sempre remeterá a um outro, na medida em que este nunca poderá ser apreendido – é objeto perdido por essência. Circuito pulsional, portanto, diz do modo como se tenta apreendê-lo, mas, como Lacan bem acentua, isso se faz como um tangenciamento, ficando o objeto, inapreendido, como cavo e vazio, resto desse percurso. (LACAN, J. O seminário livro 11 – Os quatro conceitos fundamentais, 2008)
[3] (1900) FREUD, S. A interpretação dos sonhos. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicólogicas Completas de Sigmund Freud, vol. IV. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
[4] (1921) SAFOUAN, M. O inconsciente e seu escriba. São Paulo, Papirus, 1987.
[5] (1953) LACAN, J. Função e campo da fala e da linguagem. In: Escritos. Rio de Janeiro, Zahar, 1998, p.238-324.
[6] (1915) FREUD, S. O inconsciente. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XIV.
[7] (1919) ______. O estranho. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XVII.
[8] DURAS, M. O azul da echarpe. In: A vida material. São Paulo: Editora Globo, (1987) 1989.
[9] DURAS, M. Escrever. São Paulo: Rocco, (1993) 1994.
[10] (1973) _________. O aturdito. In: Outros escritos. Rio de Janeiro, Zahar, 2003, p. 448-497.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.