à alma

Minha alma tem jeito e corpo de mulher
Costuma arranhar as paredes rabiscando alguns desenhos sem fim
Tem costas largas pra suportar a dor surrada vida a fora
Minha alma tem cheiro e olhar de mulher
Anda seguindo meus sonhos
Atreve-se a cuidar dos meus pesadelos
Grita, sussurra, canta, geme.
Treme quando vem o amanhecer
Gosta de me acalmar, mas às vezes me esquece.
Minha alma tem pele e pelo que se arrepiam ao meio dia
Que me faz acordar em meio a tantos goles de cafés amargos
De cigarros tragados à meia noite
Bagunça minha cama até vazia
Estoura-me com lembranças essa minha alma
Balança numa gana intempestiva
Convida-me a atravessar os meus porquês
Dizendo que o passado é o presente
Embrulha – me feito agulha
Destrói meu caminhar no desafio
Canta na sala e toca piano e bate o pandeiro deixando no meu travesseiro um ser qualquer
A minha alma sabe que o homem ao lado quer me comer
Descobre que o assedio, o estupro, o mundo estúpido
Precisam urgente de denúncias
Ah, minha alma não é só minha.
Tem força e raça
E é nossa!

todas as noites

Um olhar carinhoso dentro de um riso no canto da boca
Que contava as horas pra que a cama cantasse os gritos e gemidos rompendo a manhã.
Sem saber que a vida às vezes é só desalento
Por muitos dias tentei terminar a poesia
Dentro de mim eu me escondendo envolta em medos
Até que parei e não pensei em mais nada
Apenas confessar o espanto de um poema que já explodia.
Descobri que eu era forte. Podia mudar minhas próprias estrofes.
Ele achou que eu fosse frágil
Eu esperei ele voltar
Ninguém podia imaginar um olhar meu tão forte
Quando ele voltou
Eu não quis.
Agora não. Experimentei que sofrer era só por uns dias.
Ele despedaçou- se.
Eu tinha brilho nos olhos.
Resolvi lutar por mim.

amanheceres

Pra tudo há um jeito
Jeito de lembrar e de apagar da memória.
Jeito de memorizar sonhando.
Jeito de não recordar as dores. Esse jeito todas as mulheres queriam.
Jeito de seguir a vida, de esquecer, abraçando o corpo nu diante do espelho pequeno.
De sorrir com os olhos.
De sentir desejos de se descobrir.
Jeito de segurar à vida, a luta, a disputa, de despertar a puta em si.
Os jeitos foram criados por que no primeiro sol da manhã, o despertar grita:
Geme, treme, cria, abre – se.
Não há outro jeito.


Sandra Modesto é mineira de Ituiutaba. Graduada em Letras, professora aposentada, autora de dois livros e colaboradora de diversas revistas literárias. É cronista no portal Crônica do Dia e membro do Mulherio das Letras. Foi uma das autoras finalistas do concurso dos 50 anos do CEAT e publicada numa edição especial da Revista Philos para a Flist 2019 – Festa Literária de Santa Teresa, em parceria com o Centro Educacional Anísio Teixeira, que homenageou Chico Buarque.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.