A criança se levantou correndo, subiu no banco da escola, colocou a mão acima dos olhos, como se os protegesse do sol, e gritou: estamos cercados! Quatro amigos rolaram pelo chão ao ouvirem o aviso. De cima do banco ele tirou a camisa, amarrou-a no pescoço e, como se estivesse no alto de um barranco, saltou em direção ao infinito. Super-herói. Homem-pássaro batendo as asas fulminou os inimigos que, como todos sabiam sem ver, estavam atrás dos arbustos. Rolou no chão, era o inimigo abatido. Ficou um inteiro minuto imóvel enquanto os quatro amigos se multiplicavam entre pássaros, inimigos tombados ou guerrilheiros triunfantes. Às vezes, seres intergalácticos perigosíssimos. Passado o minuto em que as crianças eram os vitoriosos e os vencidos numa guerra infinita, simultaneamente, um deles, montado em um cavalo, galopou para detrás do banco-trincheira aos gritos de contra-ataque. Outros se aproximaram, não mais montados, mas cavalos mesmo: chicoteados, ágeis, rebeldes, indomáveis, alguns ainda se confundiam com o super-pássaro-herói; sem gravidade, peso ou chão. Sujeitos não antropológicos, atravessados por uma pluralidade de mundos que coabitam os mesmos corpos. Voz e visibilidade que transitam entre lados, gostos e coordenadas. Por vezes, o mundo pesa e eles caem; por vezes, é a gravidade que não exerce mais influência sobre os corpos e eles voam em suas mutações animalescas que aniquilam qualquer fronteira entre humanos e não humanos. Veem e são vistos simultaneamente. Improdutivos, desorganizam o espaço fazendo de cada objeto já outro – trincheira, barranco, banco, estribo. Param e retomam do zero a circularidade de um espaço que a tudo serve, um tempo sem finalidade que se renova incessantemente. Do lado de fora, na terra pesada, no tempo que avança, na ordem do alto e do baixo, no mundo humano, intensamente humano, a mãe grita: jantar.

De cabeça pra baixo, a seta que aponta para frente indica o passado, o pé flutua no espaço e a saia recobre o rosto. Os códigos nos fazem rir. Ver e transformar, montar o que machuca com o que se inventa. Perder as coordenadas com amigos desconhecidos, novos poderes – quem era adulto já não é, quem obedecia recorta o quadro, quem não escrevia escolhe o plano, refaz o movimento, desenha com imagens: cinema de brincar.

Devires não param de se atualizar uns nos outros. O que poderia ser não era sabido. Quem sabe mais? Todos! Neologismos, gagueiras, palavras bengalas, GLUP!, BRRRRR!, HAUHAUAHUA, gestos e movimento corporais: fica quieto e fala, diz o adulto surdo; silêncio, vocês não estão ouvindo a Jéssica falar! Que cara é essa?, diz o adulto perdido. Por toda parte explodem os estrangeirismos de seres que ainda pouco dominam uma só língua. Falar é perder o Dada universal. Tornar-se falante, leitor: em cada palavra uma repetição e uma mudança, uma memória e uma invenção. Até que alguém diga: copie apenas, isso tem história, isso tem tradição, isso tem função. A autoridade não precisa gritar, apenas apontar para os fundamentos que ela mesma inventou: com vírgula não se separa sujeito do predicado. O poder e a representação andam de mãos dadas, enquanto o ser e a multiplicidade inventiva são uma só e a mesma coisa. O menino-cavalo é tão real quanto o cavalo que os franceses comem, que os jóqueis batem, que gira no carrossel na praça do interior ou que puxa uma carroça em um filme do Béla Tarr. E enquanto dizemos às crianças que há um futuro por vir, elas nos dizem que falta no nosso mundo realidade no presente. É porque a vida do menino-cavalo não está em outro lugar que no meio das vidas de todos os primos, da diretora Marisa, do padre, dos policiais de quem ouvem falar pela televisão do quarto ou que encontram na esquina, dos avós que uma vez por semana chegam, dos lobos, dos políticos engravatados, do Bob Sponja com sua calça quadrada.

Na sala de aula todos se colocam de frente para a tela formada por cartolinas brancas coladas umas nas outras. Não é 16×9, não é scope, não é full: é cinema! Cinema na escola com espectadores atentos, rindo quando os imaginamos dispersos. A criança e o cineasta são uma só e a mesma coisa. A professora e os alunos olham para um mesmo lado. A brincadeira já não tem dono – a bola não pertence a ninguém!, enquanto os restos e as invenções pertencem a tudo. Cinema que surge de onde diziam não poder sair nada: resistência em si. Resistência das interpretações unívocas e estanques sobre aquele espaço, sobre o que podem aquelas pessoas, sobre o monopólio da imaginação. 
Na ação performativa de inscrever com seus corpos uma outra realidade sobre a nossa, as crianças fazem, à sua maneira, política. Na passagem de um a outro, entre voar rasante sobre o solo e falar numa língua que desfuncionaliza a sintaxe das desinências verbais, as crianças fazem da brincadeira sua forma de ação política no mesmo mundo que o nosso.

Crianças em toda parte? Sim. Singularidades em toda parte, sim, mas antes processos de singularização como gostaria Guattari, sem isolamento algum entre territórios e fronteiras incessantemente demarcadas – você, criminoso, bagunceira, agitado, incapaz, favelada, pobre, gay, sapata. O cinema é maquinaria sensível e semiótica que não para de fazer parte das misturas que eventualmente se atualizam em um sujeito. Uma risada e uma montagem. No socieducativo eu filmo os vazios, as cores, as nuvens, o vento, a chuva, o verde. Tudo que vem de fora e faz buraco nisso aqui. Tenho imagens na ponta dos dedos, tenho liberdade, esfrego minha força no muro que limita meu território. Crítica e sensibilidade fazem parte do mesmo plano. Corpos de sensação que deformam a forma. Formas que se refazem com sensação na imagem. Há mundo demais há mais e mais. O cinema é experimental: Contagem, rebelião. Berlim, fotografia. Cela, máquina do tempo. O cinema é documental, é uma faca que corta o real, linha que reúne, separa, une. Novas distribuições. Filmar a realidade como forma de intervenção no que há. Olhos que param e veem: pele, marcas, idade na forma de corpo vivido. O rio encontra o céu, o pobre invade a riqueza, o tempo para – rápido demais – e não há mais relógio que dê origem ao tempo. Como escreveu Oiticica em 1960: “o tempo tudo inicia e tudo faz; até o próprio tempo se faz por si mesmo. A criação se faz, nunca se deixa fazer”.

Se esse território é destino – uma escola pública que todos dizem ser só carência: essa retórica não me destrói. O menino pegou a câmera e filmou o quilombo, o coco, as pessoas negras e bradou, isso é o quilombo! Isso sou eu! Isso é o quilombo, isso é o cinema! Isso é o quilombo, isso são todas! O cinema não é expressão individual, não é uma representação disso ou daquilo, mas uma entrada, com os indivíduos nas bagunças, mafuás alegres e irresponsavelmente inventivos. É um transformar-se/transformar-nos que não vai afetar apenas isso ou aquilo, os sexos, as raças, os estrangeiros, mas todas as alteridades “a sintaxe de uma escrita ou de uma música”. Campos de percepção e sensação que se alargam além do que é pré-contido, limitado, definido. Espaço transindividual, transobjetivo. Ser outro e ser eu, ser aqui e lá, ser terra e abandono, ser sendo, descansar e recomeçar a brincadeira. Política: Cinema de Brincar.

No quintal o milho cresce, a pipa no telhado precisa ser alcançada com uma vassoura, a vaca fala e faz leite de caixinha, o mangue vê com olhos de mangue, o rosto desaparece no contra-luz. Nebulosidade de signos que apresentam um mundo tão meu e já não mais. Por um minuto a criança olha a terra que escorre, olha a vendedora de suco, o varredor da rua, a foto da vizinha mais senhora – filma e lhe entrega a câmera. Subjetiva, objetiva, transubjetiva. Na saída da escola, é preciso filmar esses homens de verde, esses homens armados, por que aqui só tem homens? É preciso colocá-los em montagem, estender um fio com a aula de história. Dizer 64, dizer Comissão da Verdade, patriarcado, capitalismo. Abre a mochila: Napal, guerra química, Monsanto, carne fétida, bife, Rio Doce, ritalina. Mochila aberta: Ho Chi Minh, Mariguela, Kafka, Rosa Luxemburgo, Anitta, Comandante Marcos. Abra a mochila. Tomar no cu soldado, tomar no cu general. Cinema de Brincar.

O capitalismo fracassou em fazer a economia política andar junto com a economia subjetiva, escreveu Lazarrato. A brincadeira, o desvio, o lúdico; o cinema não tem outro fim: reforçar o fracasso. No seu filme-carta a jovem presa imagina para o mundo, escreve papiros com nomes, desenha amores, futuros, faz cantar revoltas. No festival de cinema ganha um prêmio, mas não está lá: não pode assinar o filme, não pode aparecer, não pode. A lei a proíbe de imagem. A lei a proíbe, pois é preciso proteger os jovens. É preciso proteger os jovens das imagens, deles mesmo que não sabem o que fazem. Tire o cinema daqui, nos diz o diretor da escola administrada pela polícia militar. Abro a mochila? Abre, é o sistema! Filmar o sistema: fazer ver as pessoas, fazer perceber as falhas, fazer descrever os métodos que esvaziam os processos subjetivos, fazer mapear as grades, fazer codificar as câmeras de vigilância nas  salas de aula que protegem as pessoas. Tire o Farocki daqui!

Por todo lado, em toda parte, algo aparece e individua. Uma criança aparece, uma professor professora, um cineasta cinema. Mas, é brincadeira – tudo sobra. É preciso cuidado, de outra forma, perdemos a circulação do que não individua. Brincando, no susto sobra algo – um sujeito, um livro, uma frase, um gesto, um filme – brincando, cinemando, camerando, produz-se estoques de individuação, distante das invariáveis subjetivas. “A brincadeira é arena de atividade dedicada à improvisação das formas gestuais, um verdadeiro laboratório de formas de ação ao vivo”, escreve Massuni. A saída da centralidade do individuado-endividado é a política mesmo: pé na porta, a câmera está na sala da diretora, atravessando a grade, saindo da escola, tela grande, partiu. Partilha do sensível? A brincadeira sempre riu da fronteira. Compartilhar o desacordo, mulheres-cavalos, guerreiros selvagens, lobos loucos, os silêncios duráveis, os restos. “A literatura é delírio”, escreveu Deleuze. O cinema é delírio, podemos dizer: “o delírio não diz respeito à pai-mãe, não há delírio que não passe pelos povos, pelas raças e tribos, e que não ocupe a história universal. Todo delírio é histórico-mundial, deslocamento de raças e continentes”.

Rir e agredir o que separa. Em todo canto uma infiltração sempre veio trazer a água. A infiltração – dentro e fora – é a política. “Ao investir nas condições de criação e produção, estaremos tomando uma iniciativa de consequências imprevisíveis”, disse um ministro chamado Gil em 2003. Sim! Estivemos atentos aos sucessos e fracassos das políticas de consequências imprevisíveis: contra a fome, a inclusão das e nas universidades, do direito à moradia, da valorização trabalho, do salário, da expansão da vida. Nosso olhar atual para as questões estruturais e de classe nos permite dizer que hoje a herança recente já vem sendo destruída. As novas reformas garantem que a desigualdade social se radicalize e se perpetue. O menino-pássaro, em 2003, com 7 anos começava uma vida na escola – olha as periferias, as mulheres, os negros e as minorias. Hoje tem 22, passou por 2013, revolução sensível: ocupações em escolas, feminismos, movimentos populares, trans-tudo. Não há reforma atual que nos retire esse novo mundo tomado. Esse mundo transtomado. Não há máfia que nos neutralize e renaturalize os preconceitos e abusos sempre insuportáveis e já não mais legitimados. Em oposição à anestesia –  o sem aestheseis, o sem sensação – a política, para existir, demanda a afecção, a aestheseis, a estética. São as novas paisagens sensíveis – cavalos, mangues, olhares, câmeras, guerreiras – que possibilitam o surgimento de novas individuações.

Os cavalos-meninas-guerreiras arredam desfazendo-se dos pelos, das crinas desgrenhadas, dos chinelos de borracha, dentes expostos. As asas do herói caem; num desmaio. O campo de batalha retoma suas coordenadas espaciais urbanas. Há carros, semáforos, gente cheia de mau-humor por toda parte. Rotina, dever, horário. Alguns pães frescos e sacolas de plástico. Amanhã cedo tem escola. Na casa, antes da refeição, é preciso lavar as mãos – mesmo os guerreiros mais bravos! É preciso também fazer lição, conferir a mochila, futebol se ensina, dança se ensina, decorar o verbo to be. I am, you’re, he is, she is, it is. I am-ing. Como estar no infinitivo sem nunca ser eu mesmo? Como ser-se? Ser este? Ser esta? Ser-se cavalo, menina, flecha, montanha, helicóptero. O tempo avança depressa e com ele chega o cansaço das batalhas. São muitas. Vencer o sono da manhã, vencer os laços do cadarço, vencer o ônibus, às vezes dois ou mais, vencer as horas sentadas, a fome incontrolável que bate às 9h e ainda não é intervalo, vencer o mal-estar de não saber a resposta adequada diante do problema de matemática e uma sala cheia de espectadores, vencer pais exaustos, vencer uma casa nem sempre confortável, vencer a terra que anda meio arrasada, vencer o excesso de açúcar e o autoritarismo mediático. Em Goiás um caminhão tomba no rio com 10 mil litros de sangue de boi. O sangue se tornaria ração para peixe. Filé aquático. São muitas as batalhas até que outra vez o campo dos pássaros, magos, dos elefantes cósmicos, das moscas mutantes, das imagens retorcidas, dos sons de arrepios e das cavernas secretas irrompa, até que alguém grite e abale a fissura nos tempos e espaços do mundo mesmo e dos outros mundos que se fabricam indistintamente: cinema de brincar.

Processos subjetivos em disputa, atravessados por discursos, arquiteturas, leis, regras, enunciados científicos, filosóficos, multiplicidade de linhas que forjam e transformam os sujeitos e que não podem ser mapeadas a partir de uma “hipótese repressiva”. Um processo subjetivo não é uma obra de arte, mas ele não dispensa a criação com o mundo, na mesmo intensidade que arte. Cinema na escola é a força da imprevisível, a descoberta do mundo sem a funcionalidade que se quer em uma pontuação qualquer, sem a centralidade do empreendedorismo ou do todos contra todos. Empoderamento é ocupar o lugar existente. Cinema de Brincar e os mundos que não cessam de aparecer com as crianças-voadoras. No pátio da escola a câmera passa de mão em mão, na montagem as imagens não têm donos. Você faz planos fixos, eu em movimento, você grava sons humanos e ela sons não humanos. Quem são humanos? Imagens coletivas, invenções não individuais. Como dar rasteira nas armadilhas semióticas? Na brincadeira, não me farás dizer nada! Não me farás organizar nada! Produzirei só de sobras, restos, excessos: paisagens em que se multiplicam, seres e formas de ser, embates, subversões, revoluções. 
As crianças deixaram a sala, deve haver algo mais interessante em algum lugar.


Isaac Pipano pesquisa, ensina e faz filmes. Doutor em Comunicação com a tese Isso que não se vê: pistas para uma pedagogia das imagens (PPGCOM UFF | Paris 3) e coautor do livro Cinema de Brincar, com Cezar Migliorin, com quem também codirigiu o documentário de longa-metragem Educação (2017). É um dos idealizadores do Inventar com a Diferença: cinema, educação e direitos humanos, projeto de formação audiovisual difundido pelos 27 estados brasileiros, envolvendo instituições também na Bolívia, Chile, Uruguai e Argentina. No coletivo apenasbaleia dirigiu coletivamente os filmes Andante (2016), Imóvel (2015) Berlin (2014) e co-escreveu o roteiro do longa Um Filme de Verão (2018), de Jo Serfaty. Publica poemas e ensaios no blog lentamarchaparaoleste.com.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.