Texto-resposta à reportagem “Pretos e Pretas estão se a(r)mando Relacionamentos afrocentrados numa perspectiva de aquilombamento dos afetos

Viver é uma arte!

Sabemos o quanto somos desafiadas todos os dias; o quanto é difícil nos mantermos firmes diante dos enfrentamentos e das ameaças que sofrem nosso corpo e intelecto; nossa moral, dignidade, trajetória e vida. Conhecemos e sentimos na pele, todos os dias, a dimensão profunda do patriarcado, do machismo tóxico, do racismo, dos preconceitos de toda ordem.

Somos atacadas por pessoas e instituições, pelo mercado e pelo sistema; pela lei, pela estrutura social, pelo que está a nossa volta. Lutamos incondicionalmente contra tudo isso para que possamos existir de forma plena e verdadeira nesse mundo e é doloroso lutar para sair dessa condição de inferioridade que nos foi imposta e a todo momento ser empurrada de volta para ela: a subalternidade.

Não nascemos nessa esteira e a ela não pertencemos. Antes, gostaria de dizer que somos gigantes, maiores do que as opressões e violências que nos perseguem e nos rondam; maiores do que os insultos, os abandonos e os afetos que nos feriram e nos ferem. Embora seja necessário, temos muito mais para contar sobre nós, nosso povo e nossa história, além do sofrimento, do silenciamento e da invisibilidade. Ainda somos, para a sociedade, o outro do outro, habitando o terceiro espaço, flutuando no vazio.

Ainda somos vistas como mulheres que sofrem de uma carência dupla por não sermos nem brancas e nem homens, o contrário, portanto, da branquitude e da masculinidade. Dessa forma, diferente do nosso, o status da mulher branca oscila, visto que é mulher, mas é branca. O mesmo acontece com o homem negro, que é negro, mas é homem, e para nós mulheres negras deixam sobrar apenas a base da pirâmide, sem oscilação.

Continuamos sendo colocadas abaixo, como o outro e nunca como si mesma, sujeito, protagonista, dona da própria voz e trajetória, mas não vagaremos nesse “não lugar” construído pelo olhar colonizador que continua agindo sobre nós, tentando nos dominar o corpo, o saber, as produções; nos definindo em comparação ao homem; nos subestimando e invisibilizando nosso trabalho.

Não somos invisíveis, nós existimos e estamos aqui séculos após séculos afrontando as estruturas. Este é o nosso tempo e todos os espaços nos pertencem. As mulheres que somos e queremos ser não está à sombra de nada, de ninguém, de homem algum. As mulheres que somos e queremos ser se movem e movem o mundo, não aceitam se ver diminuídas, recolhidas ao silêncio, afundando na quase anulada autoestima. Não aceitam o vazio, o limbo, a base, o terceiro espaço.

Basta! Esse mundo é nosso e estamos no fronte, seguindo nosso caminho, causando abalos sísmicos no sistema, conscientes de quem somos, de nossos poderes, de nossa ancestralidade. Nada impedirá nossa passagem, assim como também nada que tente nos atingir poderá passar impune diante de nós. Tudo é político, por isso as questões postas ante nossos olhos se refratam, apresentam raízes profundas, sabemos!

Estamos derrubando muros e barreiras; diluindo fronteiras e limites. Somos o atravessamento. Nosso coro ecoa e ocupar as mídias, virtuais e tradicionais, fazem parte, desse movimento, porque atuamos nos meios de comunicação, neles somos nós escrevendo a nossa história, versando sobre nossas pautas e demandas.

Agradeço, portanto, a jornalista Geisa Agrício pela reportagem “Pretos e Pretas estão se a(r)mando Relacionamentos afrocentrados numa perspectiva de aquilombamento dos afetos”, bem como pelo convite dirigido a mim para fazer parte desse seu trabalho, e ao Fotógrafo Rennan Peixe pela beleza de sua arte e olhar sempre sensível em suas investidas.

Eu, Luna Vitrolira, e Amaro Freitas, aceitamos o convite e cedemos a entrevista para falar sobre nossa trajetória pessoal e profissional pela importância da reportagem, pela confiança nos profissionais envolvidos e pela credibilidade do veículo, entretanto fomos surpreendidos com o resultado que nos deslocou, enquanto casal, para o esteriótipo do príncipe ou super-homem que faz a boa ação de resgatar a mocinha de sua história trágica e sofrida; da mulher que se apoia no homem para autobenefício, reconhecimento e ascensão social. Adianto, essa história não nos pertence.

Em algum momento a história da humanidade definiu que havia um tempo e um espaço relativos que determinavam as coisas. Uma teoria eurocêntrica, diga-se de passagem. Propomos com este texto pensar então a relatividade do tempo e do espaço e como os seus cursos têm implicações diferentes para as diferentes mulheres; dito isto, precisamos enfatizar que esta conversa é direcionada a nós, que tendemos a lidar com o tempo de uma maneira muito específica, quase cruel. Uma conversa entre a gente sobre nosso espaço e como o construímos de maneira circular, concêntrica e concomitante com o tempo.

Pedimos inclusive ajuda do próprio Tempo. É no Tempo que tudo acontece. Ele não para e nem muda a qualquer instante. Por isso e por outros tantos motivos ousamos considerar que estamos no nosso Tempo, no tempo das mulheres negras! Apesar de ainda hoje observarmos acontecimentos e fenômenos que parecem não condizer nem com o tempo nem com o espaço em que vivemos, há uma mudança significativa em como conseguimos nós, as mulheres negras, transformar os lugares por onde passamos e, por isso, nossas marcas são tão explícitas que chegam a ferir os olhos menos treinados.

As feministas negras brasileiras, as mulheres negras da América Latina, Caribe e as Norte Americanas cravaram em cada chão por onde pisaram, penetraram os tantos ouvidos e olhos com palavras para que nós, hoje, tomássemos as penas da escrita, da poesia, da música, das artes para poder continuar falando de liberdade longe das imagens de controle. Imagens essas, diria Patricia Hill Collins, que nos ensina muitíssimo sobre como as opressões insistem em nos manter congeladas e sob seu domínio. Estereótipos racistas, afirmaria Lélia Gonzalés, quando analisou o papel das mulheres negras sob a ótica do machismo, sexismo e racismo, que tenta a todo custo nos devolver a desumanidade para assim exercer poder. Afinal, é tudo sobre poder.

Impossível. Como dissemos, o nosso Tempo é outro. É o tempo do trabalho, como bem nos lembrou Betânia Ávila, denunciando a pesada rotina das mulheres negras, rurais e da cidade que tem associado a sua vida ao tempo do trabalho. Betânia escreveu um artigo intitulado Vida cotidiana e o uso do tempo pelas mulheres que apesar de relatar as mazelas e explicitar que nós somos as que estamos na base, seu texto pode também nos trazer o lado positivo da dinâmica, se excluirmos os grandes fatores capitalistas e expropriadores da nossa força de trabalho, nós continuamos sendo a mola propulsora desta sociedade. Ao que Betânia nos diz:

O tempo da vida das mulheres é o tempo do trabalho

Isso dito a ouvidos pouco atentos parece balela, mas ouçam bem minhas caras mulheres não-negras que ainda assim nos leem: o tempo da vida de vocês não é o mesmo tempo da vida das mulheres negras – nem de longe. A começar inclusive pela história, na qual o trabalho dentro e fora das casas grandes sempre foi nosso – trabalho imposto, escravo, livre ou não. Assim, como o tempo de dedicação aos estudos, a literatura, ao aperfeiçoamento de qualquer que seja o ofício, para o bem ou para o mal, estamos sempre a fazer o dobro pela metade – seja do dinheiro ou do reconhecimento.

Portanto é falsa a premissa de que nos escondemos atrás de quem quer que seja: homens negros, mulheres brancas, homens brancos. O Tempo da nossa vida é o tempo do nosso trabalho, e disso, a branquitude sabe pouco, afinal o que esperar de um grupo inteiro que não consegue lavar seu próprio vaso sanitário? Qual expectativa depositamos em gerações inteiras que mal sabem como esfregar uma roupa branca? Definitivamente não somos nós a nos esconder atrás do trabalho de outrem.

Nossa trajetória vem abençoada por mulheres negras domésticas, libertas por si mesmas, tal qual Harriet Tubman. Nossa história é a de Maria Felipa, guerreira da Independência da Bahia. Nossos passos são os de Maria Firmina dos Reis, a escritora do primeiro romance brasileiro que denuncia a escravidão. Nossa herança e aprendizado vem das Mães de Santo, gestoras das casas de Axé, mantedoras da cultura e sustentadoras de comunidades inteiras.

Desconhece tudo isso quem legenda fotos como quem lava pratos com buchas cheias de gordura. Não entende nada disso quem mal sabe como se pega numa vassoura para retirar da casa cabelos lisos e loiros. Desdenha quem pensa que somente o seu trabalho – que jamais fora um trabalho reprodutivo – é o que tem mais valor porque foi conquistado a partir do Sufrágio.

Sentimos pouco e escrevemos muito! Assim como fazemos além do que deveríamos, afinal, como diz Mos Def, somos descendentes dos construtores das suas ruas e continuaremos fazendo neste que é nosso Tempo. Tempo dos recordes de vendas de livros (sim, somos nós!), dos cinemas lotados devido à nossas narrativas (Wakanda Vive!), tempo das nossas comidas encherem os pratos, da nossa poesia e arte inundarem as galerias e estantes das livrarias pálidas.

Uma legenda que extrapolou as informações dadas na entrevista teve a potência de deturpar o sentido fundamental da reportagem, mas não derruba o que construímos. Uma legenda de quatro linhas inserida de maneira irresponsável e aleatória feriu o objetivo do texto ao inserir nela valores patriarcais e racistas que subalternizam a mulher negra em benefício do homem, mas não nos derruba nem anula nossa trajetória.

Ataca diretamente a minha imagem enquanto artista e, sobretudo, minha moral e dignidade enquanto mulher negra, mas não me reduzirá à sombra das conquistas de outra pessoa. É um registro danoso, permanente e irreparável sim.

Uma informação distorcida que produziu notícia falseada a partir de abuso da manifestação de pensamento da imprensa mais irresponsabilidade editorial que resultou em uma narrativa negativa sobre o contingente negro. Mas repito, nós mulheres negras não subimos na escada de homens, nós construímos os nossos próprios alicerces. O que aconteceu não foi simplesmente um erro e isso não se resolve apenas com um pedido de desculpas.

Mas seguiremos firmes. O tempo do nosso trabalho é também o tempo do nosso amor. E como bem nos ensinou Toni Morrison, o amor primeiro é o próprio. Jamais deixaremos de novo nos dizerem que somos incapazes ou que não temos brio. Foi o Ilê Aiyê que nos disse há 50 anos que éramos capazes, inteligentes, guerreiras e lindas.

Foram os nossos que disseram “Beije sua Preta em praça pública” e desde então entendemos que afrocentrar é muito mais que ter uma preta ou um preto do lado de maneira romantizada: manteremos sempre a tradição crítica de construir a partir das nossas cosmovisões, de problematizar as nossas relações sejam elas hetero ou homossexuais. Seremos amor entre nós, com a destruição de toda forma de opressão: sem sexismo, sem violência, sem lesbofobia.

Seremos amor, trabalho e luta, mesmo que as tortas e brancas palavras queiram distorcer imagens. Seremos feministas negras, rompendo com todo tipo de opressão e subjugação, escrevendo nosso nome no Tempo, ontem, hoje e sempre, todo nosso.

Luna Vitrolira ocupando espaço no Tempo

Luna Vitrolira é escritora, poeta declamadora, atriz, performer, arte educadora, professora de literatura brasileira, pesquisadora de literatura oral, Mestranda em Teoria da Literatura, produtora e idealizadora dos projetos de circulação nacional Estados em Poesia, De Repente uma Glosa e Mulheres de Repente. Integrante da cena artística pernambucana e brasileira, Luna tem 27 anos e iniciou sua trajetória em 2004, aos 12 anos.

Aos 15 começou a se apresentar em feiras e festivais de literatura por incentivo de amigos e mestres da literatura pernambucana. Desde que iniciou sua carreira Luna Vitrolira vem se apresentando em importantes eventos literários por todo Brasil, como a Balada Literária (SP), FLUP (RJ), FLIP Paraty (RJ), Festipoa Literária (RS), Bienal do Livro de Pernambuco (PE), A Letra e A Voz (PE), SESC Circuito Nacional Arte da Palavra, viajando por todas as regiões do país, entre outros.

Como um marco de 10 anos de carreira Luna Vitrolira lançou, em 2018, pelo selo “LIVRE”, de Marcelino Freire e Vanderlay Mendoça – com projeto gráfico de Bruno Brum (SP) e arte de Manu Maltez (SP) – seu livro de estreia AQUENDA – O AMOR ÀS VEZES É ISSO, que já tem recebido destaque da crítica local e nacional assinada por nomes como Heloísa Buarque de Holanda, o próprio Marcelino Freire e Lourival Holanda. Além do livro, Luna Vitrolira se prepara para lançar seu primeiro disco autoral de música e poesia, baseado em sua obra, com show/espetáculo, homônimos.

Luna em seu trabalho artístico sempre apresentou posicionamentos politicos firmes. AQUENDA – O AMOR ÀS VEZES É ISSO enfatiza o protagonismo feminino no universo do amor, com fundamento racial, sob perspectiva dos feminismos, discutindo temas como a subalternidade, a solidão e a invisibilidade das mulheres negras; violências físicas, verbais e psicológicas nas relações afetivas; feminicídio, abuso, estupro, gordofobia e sexualidade; o prazer e o corpo como autopertencimento.

Luna Vitrolira revisita a história das prostitutas sagradas para questionar a perda das referências femininas de força, beleza, poder, ancestralidade, prazer e sobretudo de liberdade, trabalhando esses conceitos associados ao universe do sagrado feminino e aos temas que envolvem a relação histórica da mulher com a sociedade. Dessa forma, Luna ratifica o retorno das Deusas e aprofunda a discussão em torno do tema “amor”, tão caro à humanidade, em tempos de feminismos, visando contribuir para a conscientização e sensibilização através da arte, bem como para desconstrução da ideia de um tipo amor que violenta, subjulga, inferioriza as mulheres, usado para justificar o feminicídio e naturalizar comportamentos opressores herdados de nossas instituições colonizadoras – sociais, políticas e religiosas – patriarcais e racistas.

Como dito anteiromente, Luna Vitrolira tem 11 anos de carreira como escritora e performer. Além dos seus trabalhos aqui já mencionados a artista ao longo de sua trajetória desenvolveu vários projetos em parceria com outros artistas da cena de Pernambuco, como os grupos São Saruê, #4urubueacarniça, Não os Queríamos Sagrados, Sala de Estar, De vidro, Elas em Cena e atualmente está circulando com A Dita Curva, espetáculo feminista que conta com um grande elenco do qual fazem parte Isadora Melo, Flaira Ferro, Isaar França, Sofia Freire, Anninha Martins, Ylana Queiroga, Paula Bujes, Aishá Lourenço e Lais de Assis.

Luna é essa mulher firme, versátil, multifacetada. Artista que faz acontecer e que vem construindo seu caminho, alçando seus voos e fazendo história na literatura pernambucana e brasileira. Luna Vitrolira é referência. Não há quem não reconheça o seu poder, a potência do seu trabalho, a beleza da sua pessoa. Heloísa Buarque de Holanda, crítica literária admirada e respeitada em todo país, sobre Luna afirma:

“Não me esqueço da primeira vez em que vi Luna Vitrolira dizendo sua poesia. Luna não deixava dúvidas sobre seu talento, sua força e seu poder no dizer. Luna era bela. Bela como mulher, bela como poeta, bela como ativista da palavra. Ouvindo e vendo Luna expressando sua garra, sua alegria e sua dor naquela hora, eu ouvia também a palavra silenciada de muitas mulheres reverberando e se manifestando através da força performática da poeta. Luna conquista seu lugar de fala, desenha seu território e inventa como se fazer representar pela palavra poética reagindo à universalidade da representação masculina.

Naquele momento, testemunhando o alcance da poesia e da presença de Luna, percebi a beleza radical deste novo momento político. Percebi ainda a potência da voz das mulheres reafirmando o contorno desse lugar de fala, uma voz que se posiciona, que alcança afirmação plena. Me encantei com esta poesia feminista, que vai pra rua, que invade espaços, que se faz ouvir. Me deixei levar por esta poesia sem medo.

A poesia de Luna é direta, objetiva, comunicativa, política, quebra silêncios, promove reações imediatas. Mas também fala de amor. O amor que não pode ser dito, que não se permite virar poema. É esse amor que Luna exibe em alto contraste, criando com a letra, com o ritmo, com o corpo e com sua voz dissonante, o que as mulheres não estão mais dispostas a esconder. Nunca vou me esquecer da primeira vez em que vi Luna Vitrolira dizendo sua poesia.”

Luna não carrega silêncios, pelo contrário, está aí denunciando o que as mulheres negras ainda sofrem nesse Brasil do século 21 e vem fazendo a diferença com seus trabalhos nos lugares por onde passa, seja palco, praças, ruas, festivais, feiras, colônias penitenciárias femininas, hospitais. Luna solta o verbo, oferece poesia às pessoas, adentra casas, mentes e almas, se comunica. A vida de Luna Vitrolira é a sua poesia, o seu trabalho e o seu tempo. Luna Vitrolira ocupa o seu espaço. Marcelino Freire, amigo e irmão de Luna de muitos anos, editor do seu primeiro livro diz:

“Luna é espantosa. Desde que a conheci no Recife. Ela estava com 16 anos. Na verdade, estava ela com quase 50. Poeta tem a idade de bicho. Multiplicada. A alma nasce velha. Atenta e antenada. Aprendo com a poesia que ela escreve. E recita, por aí, aos quatro ventos. Sem paciência. Do jeito que eu gosto. Luna Vitrolira dá vexame. Seu amor “bate no mesmo prego / até acertar o dedo”. Insiste, não se entrega. Esfrega na nossa cara o atraso de que somos feitos. Vem de uma geração de artistas que dá gosto ver. Para valer, ganhando as ruas. Faz como eu, meu bem, diante de Luna, sempre. Ajoelha e reza.”

Depois de tudo isso, o que ainda nos faltaria de dizer? Pois então nos ajoelhemos e rezemos diante de Luna Vitrolira e de todas as mulheres Negras desse mundo. Nosso tempo vem longe. Respeito e amor pelas nossas. Asé!

Luna Vitrolira

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.