Tanto é comum sabermos que as pessoas têm e portam consigo estados mentais conscientes e que destes quais circundam-se de crenças, sensações, sentimentos, desejos e emoções. Tal-qualmente é declarável óbvio que ambas possuem um estado físico, partindo de seus corpos, do qual incluem-se membros e, sendo adjacente consigo, o cérebro. Ousar falar sobre este assunto, entretanto, sempre causa estranheza em seus interlocutores, pois acaba-se falando de propriedades tanto invisíveis quanto inacessíveis para nós, seres humanos. Aos filósofos, sempre foi de demasiado interesse debater questões como essas, ou mesmo questionar-se sobre os dissídios admitidos entre mentes e objetos, mente e universo, ou mesmo, usando de uma linguagem simplista, mas indagadora, sobre o porquê nunca fora possível realizar até hoje um transplante de cérebro ou sequer de uma única parte de um cérebro.

Para se compreender e obter respostas sobre as questões interpostas usar-se-á das filosofias tradicionais da mente. Esse ramo da área concebido dentro do extenso corpo da filosofia compreende estudos relativos a natureza da mente, seus eventos e propriedades mentais, bem como a semelhança de tal com o corpo material. Destas concepções, surgem-se diversas visões com diferentes referenciais, impondo novos pontos à tomada de reflexão. É de ressalvo conferir que esta questão filosófica permeia o seio da humanidade desde muito antes do Anno Domini de nossa era. Parmênides de Éfeso (sec. V a.C.), filósofo grego, já indagara debruçando-se acima desta questão, aludindo que haveria apenas e, tão somente, uma identidade. Platão (sec. IV a.C.), posterior a ele, em discordância, advogava que haviam duas entidades distintas no ser humano, sendo estas compreendidas como mente e o corpo.

Logo, o primeiro cá destacado remetia-se a uma visão monista, versada também como fisicalismo, enquanto a segunda alegava a concepção dualista, onde a mente parte do cérebro e é uma entidade superior a este, não podendo ser, portanto, reduzida ou amortizada.

Deste modo, ainda hoje a filosofia da mente tem ocupado um degrau acima no status da discussão filosófica. Essa interpassa os campos de cultura, da psicologia e computação. O presente artigo abordará as principais teorias concebidas durante a história e suas provenientes variantes, dadas quais, embasadas em seus principais pensadores, e evidenciadas em suas basilares posições, apreensões, críticas e objeções, dar-nos-ão ou iluminarão nosso caminho até almejarmos uma resposta.

O dualismo começa a se evidenciar na história, como adverte-se anteriormente, ainda nos escritos Platônicos. Seu termo é visto pela primeira vez na Veterum Persarum et Parthorum et Medorum Religionis Historia, tratando sobre a doutrina de Zoroastro, assegurado por seus dois princípios ou divindades: O bem e o mal, ambos que estariam em uma luta permanente. Mas fora, posteriormente, o filósofo francês René Descartes que traria à tona a assimilação do espírito com a consciência, diferenciando-o do cérebro. Essa ligação – mente e corpo -, a qual ainda hoje concebemos, dar-se-ia, segundo o mesmo, através do tálamo, uma pequena parte do cérebro.

Segundo essa visão, um estado difere em essência do outro; o próprio difere-se dentro de si, sendo compreensível ao mesmo tanto a visão dualista de substância, a qual alega que os estados mentais estão separados do físico, e quanto a visão dualista de propriedade, que defende que existem duas propriedades, sendo estas os estados mentais ou espirituais e os materiais ou físicos, ambos pertencentes a uma mesma substância subjacente, no caso o corpo.

Ainda incluso do dualismo, subsistem-se dois estados ou versões que o dividem: O Interacionista e o Epifenomenalista. O estado interacionista apreende que a mente afeta o corpo e o corpo, por conseguinte, afeta a mente. Já o estado epifenomenalista dá conferência de que os estados corporais podem afetar causalmente ou mesmo produzir inteiramente os estados mentais, sendo que os últimos, nesse caso, não podem afetar o primeiro. Por fim, ainda existe o Paralelismo, visão que afirma que de maneira alguma possam existir relações causais.

O materialismo, por outro lado, teve seu primórdio nas culturas antigas e tornou-se popular no pensamento ocidental, presente ainda na Escola de Mileto (VI a.C.). Os pré-socráticos, posteriormente, aqueles que promoveram a concepção atomista da estrutura da matéria, dariam um novo fôlego a essa visão materialista. Mesmo hoje, dentro do filosofia o materialismo tem seu embasamento nos princípios de que nada se pode afirmar se não pelo viés da matéria, na qual todas as coisas são compostas pela matéria e que a ela é a única substância. Em proposição o materialismo pertence, então, a classe da ontologia monista, ou seja, tem sua base em uma única possibilidade da natureza das coisas. Ademais, ele se subdivide em behaviorismo (Radical e Lógico); teoria da identidade; funcionalismo.

No campo psicológico determinado à análise do comportamento, denominado de behaviorismo, ainda hoje é muito criticado. Pode-se caracterizar, de maneira breve, o filósofo behaviorista como aquele que defende que as explicações sobre o comportamento humano deveriam ser resolvidas na base de evidências refutáveis, e não sendo somente a partir de abstratas especulações. Contudo, um behaviorista radical estará sempre pronto, desse modo, a rejeitar as referências às causas mentais, sem mesmo se importar com o quanto estas mesmas possam ser, em seu contexto, plausíveis ou não. Este prevê, que a medida em que os psicólogos se aproximarem mais de apresentar entendimentos referentes às questões de estímulos e respostas, eles irão cada vez mais considerar possível explicar o comportamento sem necessitar da postulação de causas mentais.

O behaviorismo lógico caracteriza-se por ser uma teoria sobre a teoria dos estados mentais, contando e advogando tal teoria semântica. Sua força encontra-se ao traduzir uma linguagem mental para uma linguagem de estímulos e respostas (exemplo: a vontade de beber água, onde quando eu a sinto, busco bebê-la). Deste modo, a causação mental é manifestada através de uma manifestação corporal.

A teoria da identidade, aos psicólogos que por tempo estavam insatisfeitos com a visão behaviorista, acabaram adotando a teoria em vista das abordagens consideravelmente mais satisfatórias referentes aos termos mentais nas explicações psicológicas. Para estes, os termos mentais são, em sua essência, estados neurofisiológicos, tornando possíveis que as explicações que envolvem os tipos de estado tenham uma existência genuína, podendo, deste modo, funcionar como causas genuínas. É defendida também como sendo uma doutrina referente aos particulares mentais, sendo subdividida sob dois tipos de fisicalismo, o exemplar e o de tipo. Assim, no exemplar, a tese que se sustenta é de que todos os particulares são neurofisiológicos, enquanto no de tipo, alude-se que todos os particulares que possam potencialmente existir seriam neurofisiológicos. Em suma, a tese central do fisicalismo – exemplar e de tipo – é de que o único mundo possível e existente é físico.

O funcionalismo, caracterizado como um conjunto de teorias propositadas em defensa da análise de comportamento e seus fenômenos mentais, sendo estes estados funcionais definidos em termos do papel causal, consiste em não defender, especificamente como a teoria da identidade o faz, que os fenômenos metais não são estados materiais simples. O próprio o compreende como sendo cargos das relações causais existentes entre os inputs que um organismo recebe do ambiente em que está inserido e outputs que são repostas para estes estímulos.

É necessário, contudo, aprofundar para que seja entendido de modo alargado. Num primeiro período, deixa a elucidar que há uma abordagem dos conceitos mentais – natureza essencial dos estados mentais que é per si neutra diante do dualismo e materialismo. Admite, para tanto, que os estados materiais, os estados do cérebro, como também do sistema nervoso central, é que satisfazem esse “natural essencial”.

Nos tempos modernos, a filosofia vem a discutir se o funcionalismo, que partiria do campo da psicologia, pode e é capaz de responder questões de ordem dos estados mentais. Para um funcionalista ter alguma expectativa ou sensação que vai acontecer algo não significa se de fato aquilo que vai ocorrer é apenas um estado causal funcional. Jerry Fodor enfatiza sobre a existência de dois aspectos dos estados mentais que, para o mesmo, é importante: o conteúdo intencional e o conteúdo qualitativo, dos quais, a partir de então, vêm-se a indagação sobre qual seria o melhor para responder as questões metais. Deriva por este meio a busca de compreender a questão de como a mente é capaz de pensar e alcançar acontecimentos externos e ainda de detectar que está com dor é e pode ser a mesma coisa. Desse modo, como pode a mente produzir algo que não se fez a devida experiência? Segundo um funcionalista, também, uma crença serve suficientemente para que se tenha uma segunda do ponto e vista causal, como por exemplo, se eu creio que Sócrates é homem e que os homens são mortais, eu saberei que Sócrates também é mortal. Isso tudo pode parecer verdadeiro a primeiro modo, mas a questão é como isso é suficiente na caracterização de um estado mental, se, e somente se, realmente qualquer estado mental que tenha esse papel causal for, automaticamente, uma crença.

Lembrando a icônica frase de Newton quando o mesmo relata que só pode deslumbrar o longe pois esteve apoiado sobre ombros de gigantes, deve-se recordar que toda essa reflexão tem como base grandes referenciais que ainda hoje, graças a contemporaneidade do assunto, são capazes de sustentar o dito discurso sobre as coisas. Assim, podemos compreender um pouco mais desse baluarte da filosofia que busca demarcar o campo mental, dada a tamanha significância que o mesmo não só apresenta à filosofia, como também à psicologia evolucionária, à lógica e à inteligência artificial.

Pode-se dizer, por fim, em paráfrase de Wittgenstein que: “sobre o que não se pode falar deve-se calar, mas, sobre aquilo que se pode, não obstante, há muito ainda para nos ser dito…”


Gustavo Meneghini (Nova Prata, Rio Grande do Sul, 1998). Seminarista católico da Congregação Religiosa Josefinos de Murialdo, atualmente residindo em Brasília – DF, cursando o curso de Filosofia na UCB.


[referências]

[1] BONJOUR, Laurence; BAKER, Ann. Filosofia: textos fundamentais comentados. 2. ed. Porto Alegre, RS: Artmed, c2010 .p.200
[2] FODOR, Jerry. O problema Mente-Corpo. Scientific American, vol. 262 (janeiro de 1990).
[3] FOSTER, John (1989). A Defense of Dualism. In J. Smythies & John Beloff (eds.), The Case for Dualism. Univ Pr of Virginia.
[4] HYDE, Thomas. Veterum Persarum et Parthorum et Medorum Religionis Historia. Editio Secunda, MDCCLX.
[5] SKINNER, B. F. Sobre o Behaviorismo. São Paulo: Cultrix, 1974. pág. 7-11. Introdução.
[6] ZILIO, Diego. Fisicalismo na filosofia da mente: definição, estratégias e problema.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.