Como ações e práticas sustentáveis podem, de fato, ser um movimento realmente integrador na sociedade capitalista?

Acredito que me faço esta pergunta pelo menos uma vez por dia, na tentativa de me convencer à seguir ninguém mais que minha própria intuição, sempre. Os desafios são diários e em alguns dias, temos um desafio pela manhã, um pela tarde e por fim, o desafio da noite. Para aqueles que buscam uma saída através de suas ações micro-políticas, a arte do devir é agir. É no ponto do ônibus, no táxi, na mercearia, na farmácia, com o camelô e o vizinho de porta, com o garçom do bar, com a caixa do supermercado, em família, enfim, todas as possibilidades de troca, são fundamentais para plantarmos uma única semente e que provavelmente germinará um resultado singular, regado à muita transformação e educação coletiva. Apenas espalhe a consciência e acredite, ela vai chegar em algum lugar e alcançar alguém.

“A semente e o fruto” é um conto budista que nos faz refletir sobre a natureza das coisas:

Tal como é a causa, assim será o efeito.
Tal como é a semente, assim será o fruto.
Tal como é a ação, assim será o resultado.

Um fazendeiro em seu terreno, planta dois pequenos arbustos, recebendo os mesmos nutrientes da terra, a mesma fonte de água e a mesma luz solar. Porém, um dos frutos é amargo e o outro é doce. E o fazendeiro se pergunta: “Porque a natureza é tão cruel com o fruto amargo?” Mas a natureza não é bondosa, nem cruel. Ela apenas trabalha com leis físicas, contribuindo na manifestação latente da qualidade da semente, em suas propriedades naturais. Se alguém deseja mangas doces, deve plantar uma semente de mangueira e seus frutos serão doces. É assim que é.

Esse conto evoca as leis da natureza em sua totalidade. “Tal como a semente, assim será o fruto.” Nossa sociedade capitalista e ocidental, nos ensina a descartar o tempo todo e nos desensina a pensar sobre as consequências do nosso descarte incalculável, o tempo todo. Um exemplo bem claro disso é: desde que a produção de plástico em grande escala começou na década de 1950, nossa civilização já produziu colossais 8,3 bilhões de toneladas dessa coisa. E dessas, 6,3 bilhões de toneladas, aproximadamente 76% já foram desperdiçados. Essa foi a conclusão que uma equipe de pesquisadores da Universidade da Geórgia, Universidade da Califórnia e da Sea Education Association chegou. Eles descobriram que a produção global anual de plástico disparou, indo de 2 milhões de toneladas métricas em 1950 para os incríveis 400 milhões de toneladas métricas em 2015.

Nossas limitações culturais, sociais e a distância da informação correta, transparente e realizada de forma desterritorializada, além da nossa ignorância, acaba nos tornando ao longo da vida, desatentos ao plantio das sementes que queremos, perdendo assim, o foco da boa germinação. Queremos a mudança, a transformação, queremos um mundo melhor para os nossos filhos, mas não agimos e mudamos hábitos para que isso efetivamente possa acontecer. Esperamos que o governo, as ONG’s, a associação de moradores faça por nós, esperamos por alguém, para nos salvar do mar de lixo que estamos construindo e do aquecimento global.
Mas isso não funciona e de fato não vai acontecer.

Sabemos e sustentamos que as ações em cada brecha fazem a diferença, que o coletivo é poderoso e que devemos pressionar o governo para maior fiscalização e respeito às leis trabalhistas, devemos pedir transparência as instituições, as marcas grandes e empresários por respeito e por direito. Devemos sim ler a etiqueta de composição da nossa roupa e saber a procedência, pesquisar sobre o material que vestimos, incentivarmos o consumo de pequenos produtores locais, na sua cidade, no seu bairro, no seu comércio local, ao invés de comprar só em fast-fashion (lojas de departamento). Precisamos nos apoiar mais no ato antigo que nossas ancestrais faziam, de troca-troca de roupas entre familiares e amigos. Devemos valorizar os povos originários e os saberes da floresta e incentivar o consumo do artesanato e trabalhos manuais, aumentando a cadeia produtiva em diversas estâncias e dando oportunidade à muitas famílias viverem do seu próprio sustento. Necessitamos realizar mais doações em diferentes lugares e para diferentes nichos sociais, fortalecendo a rede dos laços afetivos, misturando e enaltecendo histórias e memórias das várias vidas das roupas. E para além disso, mudar o paradigma do ciclo de descarte atual – PRODUZIR I ESGOTAR I CONSUMIR I DESCARTAR.

Vamos comprar mais em brechós e lojas de segunda mão, vamos alugar de espaços que cuidam e fazem a manutenção das roupas e fomentam o ciclo de não descarte, como as bibliotecas de roupas e guarda-roupas compartilhados. Vamos comprar melhor, com extrema consciência e máxima atenção. Separe seu lixo em casa, no trabalho e destine-o à coleta seletiva de reciclagem. Composte seus restos de comida, coma menos carne ou não coma. Consuma formas mais saudáveis e provenientes da natureza para se alimentar: como legumes, cereais e vegetais. Ande mais de bicicleta, use menos carro, economize o consumo de luz elétrica, faça mais passeios ao ar livre, reutilize vidros em casa, na cozinha, no banheiro, plante mais e mais árvores em parques, sítios e terrenos próximos. E tire o plástico da sua vida! Faça o exercício de fugir dele. Se conseguirmos tornar alguns hábitos diários mais sustentáveis como os exemplos acima, vamos aos poucos mudando nossa realidade e fortalecendo o todo. Tornando assim a roupa, o objeto e o lixo mais regenerativo e circular. É o fruto da prática nos pequenos gestos.

A partir do momento em não agimos pelo impulso de comprar e a medida que a investigação aumenta e você descobre que as roupas mais baratas, são feitas com mão de obra escrava ou que as pessoas que nela trabalham podem estar em condições insalubres de trabalho e propícias a fatores cancerígenos. Que milhares e milhares de mulheres estão sendo mal remuneradas trabalhando mais de 16/18h por dia na indústria da moda, que a cadeira produtiva desperdiça e polui massivamente o meio-ambiente e passa a boicotar as marcas que que usam fibras com agrotóxicos e estão incluídas em escândalos e processos judiciais pelo mundo afora. Você começa também a desenvolver um senso crítico sobre sua comida, quem você se relaciona e quais as suas prioridades para viver melhor em coletivo, naturalmente. A consciência é feito onda, depois que ela vem, é só cair dentro e mergulhar. Isso é um pensamento social. Praticando a empatia, vamos semeando os frutos de uma vida positiva, consciente e realista socialmente. Não vamos mudar tudo de uma única vez, basta que mudemos à nós mesmos dia à dia que já estaremos caminhando para a frente e avante.

Para mim, moda é política, sim. De acordo com o significado da palavra, que é um substantivo feminino, política é a arte ou ciência de governar. É a arte ou ciência da organização, de uma determinada direção. E suas palavras semelhantes são: delicadeza, afabilidade, amabilidade, atenção, brandura, carinho e civilidade. É através do nosso comportamento ativo em sociedade, nos expressando através do nosso vestir e do nosso relacionar, que também plantamos o governar que acreditamos. Como tudo, absolutamente tudo na natureza está em movimento, o homem pós-moderno que ainda acredita que a moda é passageira, tendenciosa, descartável e barata, está completamente fora do seu tempo e fadado a morrer do próprio veneno e contribuir para a morte de todes ao redor.

A cultura e a educação é o poder. É o poder que nos tiram todos os dias, porque sabem, que com isso mudamos qualquer realidade ao nosso redor, não tem dinheiro que sustente a integridade de não ferir a natureza, de ser coerente com a realidade social do seu país, de ser eloquente com o próximo e de ser desperto com o que é urgente. Nos constituímos assim, ator da mudança em qualquer esfera social e nos vendem, à todo momento que somos incapazes e que não podemos fazer nada. Já está tudo destruído, só nos resta rezar. Não espere por ninguém, se una, fortaleça o próximo e faça em coletivo. Esteja aberto a aprender, sempre. Pois com certeza ninguém tem a fórmula para um mundo 100% sustentável, não tem como reverter o mal de muitos anos atrás. Agora nossa tarefa é pensar duas vezes antes de consumir qualquer coisa, para não retroceder ainda mais. E saiba que não estamos sozinhos na jornada.


Fabíola Trinca é Empreendedora, Figurinista, Tingidora Natural e Artista Contemporânea. É nascida e criada em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, em uma das incontáveis periferias do Rio de Janeiro. Trabalha com figurino de cinema desde 2007, começou sua carreira como produtora no Coletivo Cineclube Mate com Angu. Em 2014, um cometa caiu em sua cabeça e deu uma reviravolta em sua vida acumuladora. Criou o Studio Trinca em 2015, dialogando entre a prática da moda lenta I circular e a educação, com o intuito de contribuir para a conscientização, através do beneficiamento do tingimento natural. Em 2019 após mais de 10 anos de uma vida em função do acúmulo de roupas. Fabíola repensou seu sistema de vida como um todo e transformou seu acervo de roupas em uma nova proposta sustentável – Re-Acervo Guarda Roupa Compartilhado – onde qualquer pessoa pode alugar mensalmente através de pacotes específicos, a roupa que quiser. Estimulando a diminuição do consumo exacerbado e aumentando a vida útil de cada peça, de forma circular e regenerativa. Fabíola também é voluntária do movimento Fashion Revolution Brasil, desde 2017.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.