As grandes manifestações populares, como a ocorrida no Chile em 25 de outubro, revelam também a possibilidade de novos pontos de vista a partir do cidadão conectado que produz imagens e informações e as colocam em circulação nas redes. Enquanto as emissoras de TV trazem, na maior parte do tempo, cenas aéreas panorâmicas de uma multidão sem rosto, expondo a impotência de não estar por dentro do acontecimento, encontram-se nas redes outros ângulos da história. O fenômeno não é novo. Esteve presente, com força, em 2013 no Brasil.

Susana Hidalgo
Susana Hidalgo

Ricardo Kotscho encontrou uma expressão adequada para esse distanciamento tanto físico quanto de enquadramento da notícia: jornalismo drone. Imagens aéreas panorâmicas ilustram textos curtos, sem abrir espaço para a pluralidade e contradições dos acontecimentos – enquanto, nas redes, circulam imagens como a foto registrada pela atriz Suzana Hidalgo Alfaro no calor das manifestações. A foto correu mundo pelo seu poder simbólico e a capacidade de comunicar sentidos que as palavras, por vezes, se esforçam por atingir. A cena mostra um grupo de manifestantes, em Santiago, tomando conta do monumento do General Baquedano, herói da guerra do Pacífico no século XIX. No ponto mais alto do monumento, tendo ao fundo as imagens do caos, um homem segura a bandeira do povo indígena Mapuche.

A história desse povo que habitava originalmente a região centro-sul do Chile e o sudoeste da Argentina é de luta pela terra. A cosmovisão Mapuche tem dois fundamentos principais: todos os elementos da natureza são vivos, conscientes e possuem ânimo e é preciso haver reciprocidade entre as relações. Os Mapuche foram perseguidos durante a ditadura de Pinochet e, no ano passado, Camilo Catrillanca, neto de um líder Mapuche, foi morto por um policial. Os manifestantes cobram também a renúncia do ministro do Interior, Andrés Chadwick, a quem consideram responsável pela morte do jovem.

A revolta chilena parece ter pego de surpresa o próprio presidente Sebastián Piñera, que disse, semanas antes, ser seu país um oásis numa América Latina em convulsão. O aumento no preço da passagem de metrô desencadeou um movimento que reflete outras causas: aposentadorias e salários baixos, educação em crise, dívidas, crescimento da violência. O movimento é liderado por jovens de menos de 30 anos,com apoio da classe média, conforme revela matéria do El País. A repressão do Exército e da polícia agravou o conflito, causando milhares de prisões, além de mortes. Mas o governo cedeu, se desculpando e prometendo gastar mais em saúde, educação e previdência.

Há uma inescapável relação entre a realidade chilena e a política econômica do governo Bolsonaro, sobretudo pelas ligações do ministro Paulo Guedes com o país vizinho e o fato de ter se manifestado várias vezes em sentido positivo sobre o modelo econômico chileno, comparado por ele à Suíça.

É um contexto que demanda cobertura crítica e informativa da situação da América do Sul, nem sempre presente, seja pela distância asséptica das tomadas aéreas, seja pela falta de contrapontos em relação ao neoliberalismo econômico. Jânio de Freitas, em sua coluna na Folha de S.Paulo em 27 de outubro, estabeleceu uma relação silenciada em grande parte da cobertura. “As violentas insurreições e os resultados eleitorais, em nossa vizinhança, têm em comum a sua causa: as políticas antissociais de arrocho, de desemprego, de aposentadorias degradantes, de transporte caro, de preços altos e salários baixos”. É flagrante a diferença na grande imprensa brasileira do tratamento dado às convulsões sociais em países liderados pela esquerda – como é o caso da Venezuela – e a falta de aprofundamento crítico sobre a crise revelada pelo descontentamento em massa dos chilenos.

Por isso, chamou atenção, na mesma semana, o cancelamento da coluna da professora da USP, Laura Carvalho, na Folha de S.Paulo. Caso raro de economista crítica às políticas neoliberais com espaço nos grandes jornais brasileiros, Laura representava, como apontou a ombudsman do jornal, Flávia Lima, um ponto de diversidade num contexto em que predominam os comentaristas dos bancos e consultorias.

A foto de Suzane teve uma recepção à margem dos espaços midiáticos tradicionais, espalhou-se nas redes conectadas e seu efeito simbólico diz respeito à marcha da História que destrói monumentos para colocar outros em seu lugar. A cosmovisão Mapuche valoriza a reciprocidade, em falta nas políticas econômicas que aumentam as contrapartidas dos cidadãos sem o retorno social. A potência da foto é também as possibilidades que evoca. Há uma bandeira Mapuche tremulando no céu de Santiago e seus sinais se espalham pela América Latina.


Pedro Varoni é jornalista.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.