Quinta-feira, dezoito de abril de dois mil e dezenove. Tarde de sol na Zona Sul do Rio de Janeiro, com sutis rajadas de vento para quem seguia pela orla ao encontro da equipe de filmagem de conteúdo e do coletivo que eu trabalho. Eu não vou contar aqui em detalhes, mas depois de um dia completamente caótico, só quem mora em Niterói e trabalha no Rio sabe o que é que eu estou falando. Pois bem, eles me aguardavam ali na Mureta da Urca, esperando os salgadinhos com refrigerante que eu havia prometido levar, avistando tartarugas, na frente de um dos bares mais tradicionais da redondeza. Vou me conter em não dizer o nome do ponto de encontro, então vou me referir ao bar como o que tem o bolinho de bacalhau mais gostoso do metro quadrado da Urca (não que eu tenha comido outros bolinhos por ali, mas gosto dessa ideia da exclusividade). Voltando a história e já adianto minhas desculpas por ser tão prolixa, eles estavam me esperando na frente do bar que tem o bolinho de bacalhau mais gostoso do metro quadrado da Urca como já havia dito e estavam com um cliente nosso, o violinista Guilherme Pimenta, na tentativa de uma gravação com um voo de drone barrado pela área militar que tem no local. Aliás, tem muita coisa que eu não contei. Inclusive nem me apresentei e é a primeira vez que escrevo por aqui. Todo o meu processo com a Revista pela qual você está me lendo tem uma longa história por trás e acho interessante voltar para contar como todos esses encontros se deram. É bem bonito, de verdade. Mas esses dias aprendi uma coisa nova e, como amo aprender coisas novas, resolvi usar ela a partir de agora. Ao invés de falar sobre a Emilly, vou falar sobre as coisas e pessoas que estão por perto, ajudando na construção diária, seja ela qual for. E uma dessas pessoas, é o Guilherme Pimenta, que eu o chamei de cliente umas frases atrás, mas prefiro chamá-lo de parceiro, amigo e tudo o que a gente quiser ser, dentro dessa ideia de horizontalidade que a gente busca no coletivo no qual criei ao lado da minha melhor amiga e sócia, Lais Maalouf.

Conhecemos o Guilherme Pimenta pela internet, quando ele buscava parceria para o agenciamento da carreira dele e, como tínhamos postado um vídeo com um efeito chamado hyperlapse feito pelo querido amigo Igor Freitas (que foi um sucesso, diga-se de passagem), o Gui resolveu nos procurar.

Só para vocês entenderem, o Gui tem 35 anos, é mineiro, de Passos Claros, e toda vez que eu o encontro me vem na mente um pão de queijo gigante quentinho com manteiga derretida e café. Eu nunca disse isso para ele, mas como uma boa taurina, esse foi um dos motivos para amá-lo no mesmo instante e a topar produzir seus trabalhos (mentira, foi porque achei ele sensacional mesmo). Além do que, a primeira vez que encontramos com o Guilherme, a Lais tinha acabado de montar a primeira cadeira do nosso escritório e o caos estava completamente estabelecido num espaço de 20 metros quadrados. Por incrível que pareça, a reunião foi ótima e ele foi a primeira pessoa a conhecer o nosso cantinho e a nossa dinâmica de trabalho.

Depois de muitas conversas, marcamos a produção do conteúdo de audiovisual para as redes sociais por alguns pontos culturais do Rio de Janeiro e um deles era ali na mureta, na frente do bar que tem o bolinho de bacalhau mais gostoso do metro quadrado da Urca. Saindo dali, fomos para uma casa de arquitetura parceira, a Garimporio, fazer um bate-papo com o Guilherme e documentar tudo, não só em vídeo, mas achei que seria super interessante depois de falar tantas minúcias da nossa quinta-feira com cara de sexta, trazer todos os detalhes dessa conversa.

Guilherme Pimenta é um super artista, um dos mais dedicados, talentosos e persistentes que eu já conheci. Ele lançou agora em 2019 o seu primeiro disco intitulado “Catopê” e, segundo ele, o nome vem de uma manifestação artística que acontece no mês de agosto, em Montes Claros, no interior de Minas Gerais, e funciona como se fosse um carnaval regional, com pessoas fantasiadas que saem cantando e tocando vários instrumentos como viola caipira, rabeca, e instrumentos de percussão: “A cidade se orgulha bastante desse movimento!” – disse Pimenta, todo emocionado. O disco não tem a ver com a sonoridade da manifestação artística em questão, mas se estabelece como uma homenagem à sua cidade natal.

O disco pôde se materializar após uma campanha de financiamento coletivo, onde as pessoas fizeram suas contribuições para ajudar nos custos da gravação, masterização, mixagem e prensagem do material, tornando possível sua realização.

Se você está lendo a matéria até aqui aconselho a entrar agora em alguma plataforma digital, pode escolher qualquer uma, o álbum “Catopê” está em todas. Agora busca a música “Xote Blues”. Escolheu? Pronto. A música começa com uma introdução linda de contrabaixo por cerca de sessenta segundos e aí minha gente, quando entra o violino do Gui, a sensação é que você tem o mundo todo só para você. É assim, exatamente desse jeito que eu gosto de sentir e pensar. “Catopê” é como se fosse uma grande narrativa, onde cada música conta uma história. O Guilherme conta várias a partir do seu violino, claro… mas liberdade criativa é algo sensacional e você também pode criar as suas histórias baseadas nas sensações que a música te proporciona.

Emilly: Gui, em que momento você se descobriu na música?
G.P.: Eu nasci em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais e durante a minha adolescência eu comecei a me interessar por música. Na minha cidade tem um Conservatório Estadual e minha irmã fazia aula de violão na época. A gente tinha um violão em casa, onde tocávamos… do violão eu fui para o baixo elétrico e, a partir disso, veio a minha vontade de tocar violoncelo. Eu procurei o Conservatório para fazer as aulas do instrumento que eu queria, mas não tinha professor e eu pensei: “Ah, vou fazer aula de violino por enquanto e depois eu mudo”. Acabou que eu continuei no violino e depois me mudei para Belo Horizonte para fazer o meu bacharelado de violino na UFMG. Posteriormente fui fazer mestrado nos Estados Unidos por dois anos. No final de 2014, quando voltei para o Brasil, decidi me mudar para o Rio de Janeiro porque já estava há algum tempo com o foco na música popular. Mesmo tendo a base dos meus estudos na música clássica, meu trabalho sempre dialogou muito com a linguagem da música popular, sendo assim, resolvi me mudar para o Rio para tentar a vida por aqui trabalhando com o que eu gosto e aqui estou eu!

Emilly: Já que você estudou nos Estados Unidos e teve essa vivência de dois anos por lá, qual a diferença que você enxerga de um músico que tenta se estabelecer aqui no Brasil para um músico que se consolida lá fora?

G.P.: A minha experiência nos Estados Unidos foi rápida e, no período que morei por lá, foi apenas para estudar. Eu ganhei uma bolsa de uma Universidade e estava muito focado, estudando bastante, então não tive tanta oportunidade de trabalhar por lá e conhecer o mercado deles. Apesar de ter feito alguns trabalhos e ter participado de alguns grupos e projetos, não tive a vivência de trabalho como tenho aqui no Brasil. Sem dúvidas, a experiência de trabalhar fora do país de origem é válida para entender que existem coisas boas e ruins em todos os lugares. Acho que grande parte das pessoas que não tiveram a oportunidade de sair do país acham que tudo que é de fora é melhor e ficam imaginando que no exterior é muito mais valorizado e, na verdade, acaba sendo difícil em todos os lugares. Você precisa ter um trabalho bom e saber traçar bem os seus caminhos para conquistar seus objetivos. A diferença que percebi é que nos Estados Unidos, por exemplo, todas as pessoas estudam música o tempo todo e desde sempre, o que acaba facilitando alguns processos em torno do conhecimento.

Emilly: Achei interessante quando você falou sobre a sua base ter vindo da música clássica… Queria saber em que momento você se identificou com a música popular e pensou “Nossa, vou seguir por esse caminho a partir de agora”?

G.P.: Minha história com esses dois universos é como se fosse um arco: Eu comecei na música popular, como autodidata, tocando violão e, quando entrei para o Conservatório para estudar violino, esse mundo da música clássica foi cada vez mais me sugando, porque de fato existe uma grande diferença entre os dois gêneros e é muito forte. Depois de anos, eu comecei a perceber que não tem a menor necessidade de ter essa separação e essa diferença entre o clássico e o popular e isso só prejudica os dois lados. Durante meus estudos, principalmente na faculdade, eu mergulhei de cabeça na música clássica. Só no final do meu bacharelado, em Belo Horizonte, que eu tinha um amigo flautista que começou a me chamar para ir nas rodas de choro, e foi aí que eu comecei a me aproximar novamente da música popular. A cidade de Belo Horizonte tem um movimento muito forte do choro, com roda quase todos os dias e eu comecei a participar disso. Com o tempo, fui percebendo que aquilo tudo fazia muito mais sentido para mim e me tocava muito mais do que qualquer outro gênero, não desmerecendo um ou o outro, mas o popular dizia muito mais sobre o que eu realmente queria fazer da minha vida. É engraçado lembrar que quando morei nos Estados Unidos e quando estudava sozinho na sala e começava a tocar o chorinho ou música brasileira, as pessoas chegavam e diziam: “Que isso, cara… você toca isso de um jeito completamente diferente… é isso que você tem que fazer na sua vida!”

Emilly: E em que momento você começou a compor?

G.P.: A minha história como compositor acompanha muito a minha transição entre os dois mundos: da música clássica para a música popular. Quando eu comecei a tocar música popular eu já comecei compondo, como se aquilo fosse natural e parecia que era algo que estava implícito. Quando eu estava na música clássica parecia que eu não tinha tanto espaço para a criação. Uma coisa que me marcou bastante foi a primeira vez que participei de um festival de música clássica e levei alguns músicas que eu tinha escrito para apresentar. Geralmente esses festivais acontecem para termos aulas com professores que não teríamos oportunidade de ter aula no dia-a-dia. Quando fui tocar e mostrar as minhas obras, o professor disse que não queria ouvir aquilo, que queria ouvir música de verdade. Aquilo me marcou muito, foi quando percebi que não tinha espaço para fazer minhas coisas e era um mundo muito mais fechado. Quando voltei para a música popular, comecei a me incentivar e a compor novamente, porque fiquei muito tempo sem fazer esse tipo de atividade.

Emilly: Eu enxergo o Guilherme Pimenta como uma pessoa múltipla, que se divide em diversos projetos, além de liderar dois grupos: o Pimenta Jazz Trio e o Guilherme Pimenta Quarteto. Como ser tantos em tão pouco espaço de tempo?

G.P.: Uma das coisas que eu acho que diz muito sobre mim é gostar de diversos estilos diferentes e acho, de verdade, que isso reflete muito no meu trabalho. Eu acredito que a gente sendo aberto, a gente tem mais possibilidades de descobertas e caminhos. O Pimenta Jazz Trio é uma formação mais reduzida, no qual eu me apresento bastante, com um repertório mais focado em standards de jazz, um pouco de Bossa Nova e bastante improviso. Acabamos de fazer uma turnê na Europa, inclusive.
O Guilherme Pimenta Quarteto é com quem gravei meu primeiro EP em 2017 com 4 faixas chamado “Violino na Roda” e, com esse mesmo quarteto, acabei de gravar meu primeiro disco “Catopê”. O trabalho com o quarteto é um trabalho mais voltado para a música autoral, tocando minhas músicas e algumas músicas dos integrantes do grupo. Acredito que dessa forma a gente começa a formar uma nova safra de compositores que é bem forte na cidade do Rio de Janeiro. Também faço parte de um grupo que tenho muito orgulho, o Papagaio Sabido. Também temos um disco lançado e é um grupo essencialmente vocal, com três cantores, mas também tem muito espaço para o violino. Tocamos muito na noite, fazemos muitos bailes noturnos e ganho muita experiência de estar ao lado deles. Além desses projetos, sempre toco em bailes de forró e outros projetos de jazz com músicos de outras cidades.

Emilly: Você sentiu alguma mudança, evolução ou qualquer coisa que podemos chamar, desde o lançamento do “Violino na Roda” até o disco “Catopê”?

G.P: Tem uma diferença bem grande… O EP é como se fosse uma amostra de um trabalho que estava começando. O disco agora de 2019, o “Catopê”, é esse mesmo trabalho só que muito mais expandido e amadurecido, porque ele foi feito um ano depois e nesse período tocamos muito juntos, então isso foi uma das coisas que chamou a atenção de quem ouviu e de quem produziu o disco, como o Luís Barcelos. Ele já chegou a dizer que quando você escuta o disco, parece que é um show que está sendo feito na sala de casa e não parece que foi feito em estúdio, a sensação é está sendo feito ali na hora, como uma comida bem fresquinha. Qualquer grupo que se entenda bem e tenha esse entrosamento, vai naturalmente amadurecendo e essa diferença pode ser vista claramente, de forma bem natural.

Emilly: Agora, “Catopê”…

G.P.: As músicas do meu novo disco são basicamente composições que eu venho fazendo desde que cheguei no Rio de Janeiro. Em 2014, quando me mudei pra cá, fui bastante impactado pelo movimento cultural da cidade, com as diferentes manifestações artísticas, com essa coisa de ter música o tempo inteiro em todos os lugares, vários estilos e sabores diferente… isso me encantou e me influenciou muito, qualquer um pode perceber isso ao ouvir o disco. A gente vai ouvindo “Catopê” desde frevo, xote, forró, choro e rock. Isso tudo é um pouco do reflexo desse impacto que tive ao chegar nesse lugar e é como se eu tivesse colocando todas essas influências para fora. Esse é o resultado do disco!

Emilly: Eu sei que ao ouvir uma música, assistir um filme e entrar em contato com uma obra de arte é um processo muito individual. Mas você, no lugar de compositor, criador e artista, qual a mensagem que gostaria que as pessoas sentissem ou captassem ao ouvir o seu novo trabalho?

G.P.: (alguns segundos em silêncio…) “Catopê” é um trabalho de música instrumental, mas uma coisa que caracteriza esse disco é que ele é muito comunicativo. É como se você tivesse escutando uma música que não tem letra, mas faz muito sentido. Eu sei e consigo perceber que algumas pessoas possuem dificuldades e isso acaba se transformando em barreiras com a música instrumental, como se o fato de não ter letra dificultasse a absorção do que o artista quer transmitir e acho que “Catopê” vem para quebrar essa barreira.
O disco é bastante diversificado, com vários estilos distintos e chega com essa mensagem de abrir a mente, para que tenhamos o mínimo de preconceitos possíveis. Eu vejo o meu trabalho sendo muito democrático… todos os meus parceiros do grupo têm voz no disco, com diversos improvisos do contrabaixo, do violão e da bateria. Isso faz parte da minha forma de trabalhar. Eu trabalho com pessoas que eu admiro muito, que tenho muita confiança e quero muito saber o que eles têm a dizer. E eu tenho certeza que podemos levar esse exemplo para outros lugares da vida. É isso que eu acredito e é o que eu realmente quero que as pessoas sintam!

Para você que nos lê, deixo registrado aqui na Revista Philos a genialidade desse grande violinista e compositor que eu não só produzo, mas sou fã de carteirinha, daquelas que grita nos shows, bate palma, se descabela e, principalmente, se emociona. Você também pode acompanhar o trabalho do Guilherme Pimenta pela instagram ou pelo site.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.