Os mortos celebram agora
– sob os campos de extermínio
da cidade – a hora que apavora
o sossego sem cautela dos vivos
com a risada de sino dos seus ossos.

Esses destroços risonhos e rotos
lembram muito pouco o descarnado
cinismo dos que beberam o morto
– que piada –, vivos e descarados.

Os mortos veem – através do crivo
antigo das raízes que lhes furam
os olhos – a marcha insana
e sobrevivente dos que apressam
o passo e, mais ligeiros ainda,
quase não tocam os pés nas calçadas,
gritam contra o tempo que não finda
de voar como aves sem repouso
em voo raso sobre cova rasa.

Esses ossos que armaram corpos
de pobres e ricos, sob medida,
não guardam mais ou menos, assim mortos,
qualquer prestígio que tiveram em vida
os pobres, ricos ou remediados:
tudo que eles têm em comum
é que estão muito bem arrumados
uns sobre os outros. Gozo? Nenhum.

Com apartamento de endereço
tardio em quadras e alamedas,
tudo muito estreito, sem apreço,
sem água, luz, o que mais arremeda
e acomoda uma toca de rato,
o morto com agasalho de osso
tem que pagar por esse buraco
e aí, sim, se vê no fundo do poço.

Que tragédia! Além do peso ingrato,
da terra sobre a cara, sem piedade,
suportar sem ai nem ui esse ato
de comédia a que chamam saudade!

Vamos tirar o disfarce dos mantras

e dos salmos, pois o mais podre
dos ricos e o mais rico dos pobres
– ó mundo de patetas e pilantras! –
ainda creem por todo o sempre
manter a pele nobre sobre os ossos.

Este, sim, é o consolo dos tolos.


Aldisio Filgueiras, compositor, poeta e jornalista, nasceu em Manaus, em 1947. Iniciou sua produção poética ainda no curso secundário, feito no Colégio Estadual D. Pedro II, com a participação no Grêmio Literário Mário de Andrade. Sua estréia literária aconteceu em 1968, com o livro de poemas Estado de Sítio, que teve circulação proibida pela censura.  Porto de Lenha, um dos maiores sucesso da música regional, foi composta por Aldísio em parceria com o compositor Torrinho. Membro da Academia Amazonense de Letras, os livros Malária e outras canções malignas (1976); A República muda (1989); Manaus – as muitas cidades: 1987-1993 (1994); A dança dos fantasmas (2001) e Nova subúrbios (2004) compõem sua obra poética.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.