No segundo dos dois poemas que primeiro publiquei na Philos, em 2017, escrevi que em cada coisa (…) busco pulsando a resposta à pergunta: o que dá tesão a uma alma? Sigo buscando. Sigo talvez (des)construindo respostas diferentes a cada dia. Só o que está morto não muda. (No primeiro daqueles dois poemas eu falei em mãos de folha e cipó, o que não importa muito no momento, mas gostei de relembrar essa imagem.)
Corte: outro poema meu, mais recente, tem o título de “isto não é uma carta de suicídio”, de onde tirei o título desta coluna. Mas no caso este é, sim, de certa forma, um bilhete de despedida. Bom, ambos talvez sejam. De (in)certas formas.
Voltando: depois daqueles dois poemas, publicados junto a fotografias que eu mesmo havia tirado numa visita à Amazônia, propus ao editor-chefe, na cara dura do entusiasmo, ser correspondente da Philos na Flip 2017. Ele adorou a ideia: salve Jorge (que depois da intimidade passei a chamar, inclusive em e-mails de trabalho, leãozinho do norte)! Desembarquei em Paraty com uma credencial de imprensa e um sorriso de orelha a orelha. A delícia de participar naquele evento foi nível: Conceição Evaristo, de uma gentileza fenomenal, concedeu-me uma entrevista linda. Um dos maiores orgulhos que faço questão de ressaltar nesse (não-)bilhete de despedida.
Depois da Flip, Jorge me convidou para escrever regularmente na revista. Na primeira coluna, vejam que coincidência, descobri agora pesquisando enquanto escrevo este bilhete, a primeira frase dizia Este não é um texto de ficção. Ecos. Mais à frente, eu pedia a quem me lesse: vá em frente, por gentileza. O que é mais que bom novamente pedir e apoiar, nos tempos tão mais complicados que (es)correm. Vamos em frente, por gentileza, dizia o final daquele texto, e aqui repito, re-convido, com os novos significados que entendedores entenderão.
Nesses dois anos, tornei-me curador e editor-executivo. Lançamos duas edições impressas, em dois cadernos cada: um de prosa e outro de poesia. Participamos da Festa Literária de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, em 2018, e estreamos a Casa Philos no Festival Literário de Poços de Caldas, duas semanas depois. Em menos de dois meses, tivemos nossa primeira programação própria em um festival literário: na Flip! Outro orgulho sublinhado, se me perdoam a vaidade, por gentileza. Ecos. Voltamos a Paraty em 2019 com uma programação ainda mais ampla, incluindo sessões de cinema e oficinas.
Mas, confesso: para mim, a delícia de criar e participar de eventos sobre literatura, e que, posso dizer, também são literatura, no tanto de experiências vividas ali, caldeirão em movimento e ebulição para além do texto (e quem disse que literatura é só o texto?), não foi maior que a de lidar com o texto em si. Os textos. Os meus, escritos sempre com o melhor que (porcamente) pude espremer de mim, e de outros e outras: prosas e poemas lidos anonimamente; e contribuições pedidas a tanta gente que admiro, e que confiou ao meu olhar tantas linhas fodas. Seria injusto nomear umas e outros, e não outras e uns, mas esse particular ofício de curadoria, do qual hoje me despeço aqui, é outro orgulho que sublinho.
E agora, José/Jorge, é chegado um tempo de construir — pulsando, buscando, des-respondendo e re-perguntando — novos tesões nesse impalpável que um poeta qualquer (lá no primeiro parágrafo, pode verificar, por gentileza) chamou de alma.
Philos, na raiz grega, significa algo como o amor sob a forma de amizade. Um amor pela literatura e pelo que de transformador e prazeroso podemos construir coletivamente. Foi uma delícia, nesses dois anos, construir literatura em carne e afetos, em textos e vozes e corpos e presenças e conexões. As amizades e o que se construiu ficam, mesmo quando eu não for mais diretor-executivo nem curador nem colaborador fixo nem a louca das planilhas nem revisor nem herdeiro desse império. Que no caso é hoje.
A todes, por esses dois anos, ou apenas por me terem lido até aqui: grato.


Thássio Ferreira (Niterói, Rio de Janeiro, 1982) escritor radicado no Rio de Janeiro, publicou os livros de poesia (DES)NU(DO) (Ibis Libris, 2016) e Itinerários (Ed. UFPR, 2018). Editor e curador da Revista Philos de Literatura Neolatina. Tem poemas e contos publicados em revistas (virtuais e impressas) e antologias, como a Revista Brasileira (nº 94), da Academia Brasileira de Letras, Escamandro — poesia tradução & crítica, Gueto, Mallarmargens e Germina. Seu conto “Tetris” foi o vencedor do Prêmio Off Flip 2019, e seu livro inédito “Cartografias”, finalista do Prêmio Sesc 2017. Participou da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) em 2017, a convite da Liga Brasileira de Editoras — LIBRE, e em 2018 e 2019 como realizador e debatedor da Casa Philos.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.