Rasguei os postais

Rasguei os postais.
Nada é tão real como estar aqui.

Nada é tão real como esta morada

Nada é tão real como esta morada
de esplendor e solidão
onde recusamos atraiçoar
a promessa da luz.

Anunciados fomos antes dos erros
enganos e perfídias.

Uma a uma apagaremos
as estrelas de mentira
Removeremos dos caminhos o lixo
e os entraves
Abraçaremos as lavras, sacudiremos
dos livros a poeira.

Nenhum vestígio dos altares erguidos
a deuses absurdos.

Recomeçamos – artesãos da nossa redenção.

Água Grande

Falo-te agora de um rio aqui nascente
Lodo e agrião, ondas mansas em corrente
Um rio recôndito como o coração da ilha.

Água Grande não tão Congo não tão Nilo
Água Grande sem canoas, sem regatas
Apenas rio
Cumprindo no mar seu destino de água.

Mas tu que conheces todas as cidades
Tu, de tantos rios peregrino habitante
Não conheces o rosto da minha cidade
Não conheces o rio no corpo da minha cidade

Água Grande além de todas as viagens
Rio apenas, irmão de todos os rios.

As vértebras da montanha

Vem testemunhar este ingente nascimento
Esta aprendizagem de audácia e paciência.

O leite das mães tem a pureza das fontes
puras
As manhãs nascem sempre repentinas
São benignas as florestas
E o mar faísca de inusitadas ofertas.

Tão tépido o ar, tão doce a doçura desta
aragem
Tanto agora neste casal de adolescentes
que se entreolha
sobre o muro da Baía…

E contudo, tanto leme derramado, quanta
perda e tanta busca no rumo deste remo…

Eis a casa que me habita, árdua herança
que me instiga
Irrevogável projecto de prumo e claridade.

Diz-me do duro caroço dos frutos
Inexoráveis
Diz-me apenas das vértebras da montanha

Aqui onde o Atlântico será sempre azul
Aqui onde os turistas ascendem a um
neutro paraíso.

Conceição Lima (São Tomé e Príncipe)
In Quando Florirem Salambás no Tecto do Pico (Edição da autora, 2015)


Conceição Lima (São Tomé e Príncipe,1961). Poeta e jornalista, licenciada em Estudos Africanos, Portugueses e Brasileiros pelo King’s College de Londres e mestre em Estudos Africanos pela School of Oriental and African Studies de Londres. Pela Editorial Caminho, de Lisboa, publicou os seguintes livros de poesia:  O Útero da Casa (2004), A Dolorosa Raiz do Micondó (1ª edição 2006, 2ª dição 2008) e O País de Akendenguê (2011).  Em 2015, publicou Quando Florirem os Salambás no Tecto do Pico. A Dolorosa Raiz do Micondó foi selecionado, em 2014 pelo Programa Nacional de Bibliotecas Escolares do Brasil, PNBE, com uma tiragem de 32.000 exemplares.

Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.