Apresentamos quatro poemas do livro Silêncio lâmina, de Hélen Queiroz, ganhadora do Prêmio Offi-Flip 2018 e curadora da Revista Philos Neolatina. O recorte apresenta paisagens e memórias entre o Rio de Janeiro, Lisboa e Catalunha. Para a crítica literária e poeta, Ninfa Parreiras, em Silêncio lâmina, Hélen Queiroz “usou lâmina certeira, soube cortar cada excesso e fatiou palavras ecoadas em mudez e vozes cheias de ritmo e melodia”.

Fim de tarde

o mar batendo alto
na Pedra do Leme:
nada pode ser mais
imponente
nada pode ser mais
importante
no abismo
desse instante

A cidade na tarde fria

Lisboa:
seus casarios barrocos
com fachadas de azulejos antigos
e sacadas floridas
igrejas
fortalezas mouriscas
os varais nas janelas de Alfama
o sol manchando de vermelho
o Tejo em pleno inverno
e o fado a sussurrar uma tristeza bonita na tarde fria
ruelas e ladeiras cortadas pelo bonde
pastéis em Belém
o trançado de ferro do elevador de Santa Justa
Rossio, Chiado, Bairro Alto…
atravessá-los
é como caminhar pelas ruas
de nossas cidadelas coloniais,
ouvindo, porém,
entre as pedras,
nostálgico assovio lusitano

Azul

As torres de Gaudí
me atravessam os olhos
que se confundem
agora
com o céu de Barcelona

Outono na Catalunha

as folhas envelhecidas pelo verão
caem secas
e, como na canção de Buarque de Hollanda,
entornam poesia pelo chão

sopradas pelo vento
caem como se caíssem do meu corpo
que, agora, é também árvore em nova estação

ao caminhar pelas calçadas
vejo seus contornos “amarillos
e sinto meus pés como raízes
que ganham terras catalãs

céu, luz, paisagem, coração…
tudo em translúcida mutação


Hélen Queiroz nasceu em Carangola (MG) em 1971 e há quinze anos vive no Rio de Janeiro. É poeta, contista, graduada em História pela UEMG, doutora em Educação pela UFRJ e pesquisadora na área de linguagem e literatura do LEDUC (Laboratório de Estudos de Linguagem, Leitura, Escrita e Educação – UFRJ). Atua há trinta anos como educadora, desenvolvendo projetos de leitura literária e também como professora de História. Integra a curadoria da Philos Neolatina – Revista de Literatura da União Latina. Publicou, de forma independente, os livros A carne das palavras (2000), Poesia de arame (2004) e Vício de tatuar papiro (2008) e tem artigos em livros e revistas de Educação e Literatura. Foi vencedora do Prêmio Off Flip de Literatura em 2009 (poesia) e finalista em 2010 (conto) e 2013 (poesia). Em 2016 publicou Bordado de pirilampos (Selo Off Flip), seu primeiro livro voltado ao público infantil (Prêmio Off Flip de Literatura 2014) e em 2018 publicou pelo mesmo selo, o premiado Silêncio lâmina.

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Publicado por:Jorge Pereira

Recifense, produtor cultural, editor-chefe da Revista Philos e criador da Casa Philos.